Como Perequeté e Era Vermelho o Seu Batom transformam teatro, carnaval e cinema em
espaços de existência para corpos e afetos dissidentes.
Surge na tela um corpo nu, sem timidez. Sozinhe, sente a brisa do mar percorrer a pele. Das ondas emerge outra pessoa, elus se encontram em um desejo silencioso. Os grãos de areia aderem à pele; antes um corpo, agora dois. A praia está vazia. Esconderijo de um segredo que apenas os amantes e nós, espectadores, conhecemos.
Essa poderia facilmente ser uma cena de algum filme queer contemporâneo. Mas a imagem descrita acima pertence a um dos curtas da onda de filmes em Super-8 produzidos na Paraíba há mais de quatro décadas, quando a ditadura militar ainda projetava sua sombra sobre o país.
Se ainda hoje filmes que abordam desejo, nudez e liberdade sexual encontram resistência de setores mais conservadores da sociedade, imaginar uma onda de cinema queer surgindo no Nordeste dos anos 1980 é perceber o quanto esse movimento foi radical. Considerado provavelmente o único movimento de cinema queer do Brasil no século XX, ele nasceu do desejo de um grupo de ativistas e cineastas gays de registrar amores, formas de sociabilidade e os preconceitos que atravessavam corpos dissidentes. Infelizmente, esse último elemento continua bastante familiar para quem assiste a esses filmes mais de quatro décadas depois.
Mas o desejo de representar, por si só, não sustenta um movimento cinematográfico. Foram necessárias condições materiais para que essas imagens fossem produzidas. Nesse caso, a onda de cinema queer paraibana só foi possível porque uma oficina de Cinema Direto, ligada ao NUDOC (o Núcleo de Documentação Cinematográfica da UFPB), colocou câmeras, películas, iluminação e outros equipamentos nas mãos desses realizadores. Enquanto parte da crítica desprezava o Super-8 por suas limitações técnicas, a bitola democratizou o acesso ao cinema. E quando a câmera muda de mãos, mudam também as imagens que passam a ocupar a tela.
Consegui assistir a esses filmes graças à mostra “A Onda do Cinema Queer em Super-8 da Paraíba”, organizada pela Cinelimite. Reunindo cinco obras fundamentais para compreender esse movimento, a mostra apresenta: Closes (1982), de Pedro Nunes; Baltazar da Lomba (1982), do coletivo ativista queer Nós Também; Era Vermelho Seu Batom (1983), de Henrique Magalhães; Miserere Nobis (1983), de Lauro Nascimento e Perequeté (1981), de Bertrand Lira. Nesta coluna, porém, escolho me deter em dois títulos: Perequeté e Era Vermelho o Seu Batom.
Embora partam de inquietações semelhantes, esses filmes dialogam entre si de maneira muito particular, sobretudo pela maneira como fazem do teatro e do carnaval espaços onde a performance do feminino pode aparecer, mesmo quando é justamente ela o principal alvo da repressão.
Começando por Perequeté (1981), dirigido por Bertrand Lira, o documentário acompanha Francisco Marto, ator e bailarino paraibano mais conhecido pelo nome artístico que dá título ao filme. Entre cenas do cotidiano, depoimentos de amigos e familiares e registros de suas performances, vamos conhecendo não apenas sua trajetória artística, mas também os dilemas enfrentados por uma pessoa queer na Paraíba dos anos 1980. O filme costura essas diferentes camadas sem separar a vida da arte, mostrando como ambas se atravessam continuamente.
Dois anos depois, Henrique Magalhães realizou Era Vermelho o Seu Batom (1983). É dele a cena que descrevi no início desta coluna. Entre imagens encenadas e registros do carnaval na Baía da Traição, litoral paraibano, o filme acompanha o encontro amoroso entre duas pessoas que vivem seu desejo entre o mar e a festa. O romance, porém, se rompe quando uma delas participa de um bloco de travestis e passa a performar o feminino. O gesto, até então celebrado pelo carnaval, torna-se motivo de rejeição e revela como o preconceito também atravessa a própria comunidade LGBTQIA+.
As aproximações entre Perequeté e Era Vermelho o Seu Batom vão muito além do período em que foram realizados. No primeiro, o teatro permite a Francisco Marto experimentar outras possibilidades de si. É no palco que acontece seu batismo: é ali que Perequeté nasce. Curiosamente, trata-se do mesmo espaço que ele, segundo relata, evitava frequentar por ser considerado “lugar de bicha”. Aquilo que para muitos era motivo de estigma transforma-se justamente no lugar onde ele encontra uma forma de existir.
Em Era Vermelho o Seu Batom, esse papel é desempenhado pelo carnaval. O bloco As Virgens das Trincheiras torna-se um espaço onde as bichas podem festejar, performar e ocupar a cidade sem precisar esconder seus corpos. É um espaço de liberdade muito semelhante ao teatro de Perequeté: ambos suspendem, ainda que temporariamente, as normas que regulam esses sujeitos. O filme, porém, cria uma segunda camada ao trabalhar também a praia. Primeiro ela aparece quase deserta, protegendo o amor entre os dois amantes dos olhares vigilantes. Depois, quando é tomada pelo carnaval, deixa de ser esconderijo para se tornar espaço de aparição. O desejo já não precisa permanecer secreto. Ele ganha as ruas.
É justamente nesses espaços de liberdade que os filmes revelam também suas maiores tensões. Em ambos, o preconceito parece ultrapassar a própria homossexualidade e recair sobre a performance do feminino; torna-se intolerável incorporar signos socialmente associados à feminilidade.
Em Perequeté, essa violência aparece quando a tia de Francisco Marto conta que o pai não aceitava que o filho fizesse “papel de mulher” no teatro, confirmando também o relato do próprio artista de que o palco era visto como um “lugar de bicha”. Já em Era Vermelho o Seu Batom, o conflito explode quando o protagonista surge no bloco de carnaval usando roupas tidas como femininas. O amante, acostumado a viver aquele desejo apenas no espaço protegido da praia, foge ao encontrar o outro existindo livremente diante de todos.
A despedida cabe em uma única frase, uma das poucas faladas em todo o documentário: “Sai, bicha.” Justamente por essa raridade dos diálogos, ele atravessa o filme como um grito de ruptura. Não é apenas o desejo entre aqueles corpos que é rejeitado, mas a feminilidade que um deles passa a performar. Nos dois filmes, o alvo do preconceito não é somente a homossexualidade, mas tudo aquilo que desafia os modelos rígidos de masculinidade. O feminino torna-se persona non grata, produzindo rupturas familiares, desafetos e violências.
É por isso que acho tão bonito que Perequeté termine justamente em cena. Contra todas as tentativas de silenciamento, Francisco Marto dubla Meu Nome é Gal, de Gal Costa. Com uma cabeleira vermelha acompanhando cada movimento de sua dança, o palco deixa de ser apenas um lugar de representação e torna-se afirmação de existência.
Gal Costa reaparece em Era Vermelho o Seu Batom, agora embalando corpos que brincam, celebram e insistem em existir. Depois de ser rejeitado, o protagonista encontra acolhimento nos braços de outro folião, alguém que o aceita, o festeja e o ama diante de todos. A resposta que estes filmes oferecem ao preconceito nunca é o recolhimento, mas a presença. A bicha dança. A bicha brinca. A bicha ama. Mostra o corpo na tela e reivindica o direito de aparecer. No teatro, na praia, no carnaval e, agora também, no cinema.
Talvez a maior vitória dessas obras seja justamente terem sobrevivido. Contra todas as expectativas de quem via o Super-8 como um formato menor e descartável, esses filmes atravessaram mais de quatro décadas. Graças ao trabalho de preservação, digitalização e restauração realizado pelo Cinelimite e por instituições parceiras, essas imagens voltaram a circular. Mais do que recuperar filmes, esse trabalho restitui uma parte da história do cinema brasileiro que permaneceu invisibilizada por tempo demais.
Ao terminar a mostra, fiquei pensando em outra pergunta. Se, nos anos 1980, bastou colocar uma câmera nas mãos dessas pessoas para que surgissem imagens que jamais tinham ocupado a tela, a quem ainda falta acesso aos meios de produção hoje? Que histórias continuam sendo produzidas sem que consigamos vê-las? Preservar o cinema queer não é apenas cuidar do passado. É garantir que esses corpos continuem ocupando a imagem também no futuro.