COLUNA

Gil Araújo

[Ela/Dela]

Gil Araújo é jornalista e escreve sobre gênero, direitos humanos e cidadania democrática.

Só curto afeminadas

Foto: @bymutante

Nas últimas semanas, um vídeo circulou em várias páginas do instagram. Nele, um homem gay alto, musculoso, de barba bem desenhada, fazia uma declaração de amor ao namorado. Nada de extraordinário, não fosse um detalhe: o namorado era uma bixa afeminada. Dessas que ninguém confundiria com um “gay discreto”. O que era apenas mais uma demonstração pública de afeto rapidamente se transformou em outra coisa. Os comentários não celebravam o casal, tentavam explicá-lo. Diziam que o rapaz musculoso provavelmente era hétero. Outros afirmavam que a bixa devia ser uma mulher trans. Surgiram teorias de todo tipo. Tudo mais crível do que aceitar que um homem considerado padrão pode amar uma bixona em voz alta.

Essa reação coletiva me interessa porque ela diz muito menos sobre aquele casal do que sobre nós. Existe uma espécie de pacto silencioso que organiza o desejo entre homens. Podemos até admitir a existência das bixas afeminadas num lugar de celebração, e isso é muito fácil Afinal, as bixas são artistas que performam feminilidade nos palcos, nós rimos com elas, nós elogiamos o senso fashion inerente a cada uma de nós. Mas, quando elas ocupam o lugar de objeto de desejo de um homem considerado masculino, alguma coisa parece fora dos trilhos. É como se a masculinidade daquele homem precisasse ser imediatamente restaurada por alguma explicação alternativa. Se ele ama uma bixa, então talvez seja hétero. Se ele ama uma bixa, talvez ela seja, na verdade, uma mulher.

Lembrei de outro episódio. Pabllo Vittar contou que marcou um encontro pelo Grindr e, quando encontrou o rapaz, ouviu dele que “não ficava com meninas”. Ela respondeu que era um homem. Mesmo assim, o rapaz insistiu. Um clássico do whatsapp amarelo que já tornou comum o “não curto nem sou afeminado”. Pra alguns homens a bixa é por certo o monstro escondido debaixo da cama (cuidado que uma hora ela te puxa pelos pés). O relato da Pabllo é quase absurdo porque evidencia um mecanismo que costuma passar despercebido: para muitas pessoas, a masculinidade deixou de ser uma forma possível de ser homem e passou a ser condição obrigatória para que alguém seja reconhecido como homem. A feminilidade não apenas diminui o valor de um corpo dentro do mercado do desejo; ela parece retirar sua própria legitimidade masculina – que costuma ser bem frágil sempre.

É importante dizer que isso não tem nada a ver com identidade de gênero. Mulheres trans são mulheres. Homens trans são homens. Homens gays afeminados continuam sendo homens. A questão é justamente outra: nossa cultura confundiu masculinidade com masculinidade obrigatória. Não basta nascer homem ou se reconhecer como homem; é preciso provar isso continuamente pela voz, pela roupa, pelo jeito de andar, pela barba, pela postura, pelo controle dos afetos e até pelos corpos que se deseja – e isso é tão chato. Ando achando a masculinidade de homens gays um pouco cansativa, admito. E aqui não dito regras pra um copo cuja sexualidade foje de uma logica heteronormativa, mas sinto que por vezes muitos homens deixam de brincar com ferramentas de gênero pra manterem sua leitura social como objeto fácil de desejo, no caso semelhante ao comportamento de um homem cis hétero. Conseguem perceber isso nas relações próximas ou nas que vocês mesmas cultivam?

E tenho uma confissão a fazer: eu só curto afeminadas. A fase da bixinha da escola que se apaixona por hétero durou muito pouco comigo, isso me fez abrir o leque de possibilidade, me ver como um corpo atraente me fez gostar também de outros parecidos comigo. Foi a possibilidade de transmutar o próprio desejo – que parece tão difícil de fazer, mas na real não é. Durante muito tempo entendi que deveria aspirar ao corpo masculino, à voz grave, ao peito largo, ao homem que performa com excelência a virilidade. Como se o desejo também tivesse um currículo a cumprir. Como se amar fosse repetir uma pedagogia. Ou construir uma performance de gênero pra ser amada – que triste isso, né?

Mas eu descobri que meu desejo se reorganizou à medida que meu corpo também mudou. Passei a desejar corpos que compartilham comigo uma mesma linguagem. Bixas que conhecem o peso de uma unha de gel recém-feita. Que entendem a alegria de encontrar o tom certo de um batom. Que ficam encantadas em comprar um salto novo. Existe intimidade nisso. Existe reconhecimento. Antes mesmo de existir atração, existe uma espécie de cumplicidade corporal (sororidade bixa existe?)

Talvez seja porque elas se parecem comigo. E dizer isso não é pouco. Passei tanto tempo aprendendo a odiar tudo aquilo que em mim parecia feminino que hoje me emociona perceber o contrário. Eu me amo. E, justamente porque me amo, acabo me apaixonando por quem também carrega essas marcas no corpo. Não é narcisismo. É olhar para outra bixa e reconhecer uma história inteira escrita na maneira como ela gesticula, ri alto, ajeita o cabelo atrás da orelha ou protege a unha recém-pintada quando fecha a porta de um carro. Existe uma memória compartilhada nesses pequenos gestos que beira uma coisa divina compartilhada entre nós.

Fico pensando se não está na hora de também reivindicarmos outra imaginação para o desejo gay. Naturalizamos coisas dentro da comunidade como “masc 4 masc”, como se elas fossem apenas preferências inocentes, quando, na verdade, revelam uma hierarquia muito antiga que coloca a masculinidade no topo da cadeia do desejável. E se pudéssemos sonhar diferente? Ao menos por um instante, quero”fag 4 fag”? Não como regra, nem como obrigação, mas como possibilidade. Como o direito de imaginar que bixas também podem desejar bixas sem que isso seja entendido como falta de opção ou incapacidade de conquistar um homem considerado mais masculino.

Eu quero andar de mãos dadas com outra bixa . Quero que nossas unhas esmaltadas se encontrem quando entrelaçarmos os dedos. Quero dois rostos maquiados dividindo o mesmo reflexo na vitrine de uma loja. Quero dois pares de sapatos barulhentos anunciando nossa chegada antes mesmo que alguém nos veja. Existe algo mais bixa do que isso? Existe algo mais bonito do que dois corpos que nunca pediram licença para serem femininos caminhando juntos pela cidade, recusando a ideia de que apenas a masculinidade merece protagonizar as histórias de amor?

Talvez seja esse o mundo que eu esteja tentando inventar quando digo, sem vergonha alguma, que só curto afeminadas.

*A foto de capa não é ilustrativa, sou eu mesma dando um beijo gostoso em outra bixa que já fui bem apaixonada.

**Todos os travessões (—) foram colocados por Gil Araújo; a única IA utilizada no texto foi para revisão ortográfica.

***Estou AMANDO leitores vindo ampliar a discussão comigo na DM, continuem, não prometo responder rápido sempre, mas eu respondo mesmo.

****Sinto que estou ficando um pouco repetitiva nos textos porque eles estão rondando acerca da bixaria, afinal é o que eu estudo na academia e fora dela e também como instrumento estético. Vou me propor a falar de outros temas nas próximas pra não ficar cansativa. Podem chegar na minha DM com sugestões também.

COLUNISTA

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Gil Araújo

[Ela/Dela]

Gil Araújo é jornalista com foco em gênero, direitos humanos e cultura, atuando na produção de reportagens que ampliam vozes historicamente silenciadas e contribuem para o debate público qualificado. Sua trajetória é marcada por apuração rigorosa, escuta sensível e compromisso ético com fontes em situação de vulnerabilidade, especialmente mulheres, população LGBTQIAPN+ e comunidades periféricas. Ao longo de sua carreira, Gil tem priorizado pautas sobre violência de gênero, políticas públicas, acesso à justiça, desigualdades estruturais e iniciativas de promoção da cidadania. Seu trabalho inclui o acompanhamento crítico de políticas públicas, conselhos de direitos e programas institucionais, além da produção de conteúdos que evidenciam avanços, retrocessos e lacunas na garantia de direitos. Entende o jornalismo como instrumento de incidência democrática, capaz de tensionar estruturas, informar e tornar mais visível o trabalho de corpos historicamente marginalizados.
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