COLUNA

Gil Araújo

[Ela/Dela]

Gil Araújo é jornalista e escreve sobre gênero, direitos humanos e cidadania democrática.

Antes de tudo, seja BIXA (com “X”)

Sobre a diferença entre consumir estética e a produzir através da vivência dissidente.

No último texto da coluna ficou claro que o Pajubá, a Linn da Quebrada e toda a leva de artistas que se levantou no Brasil tornaram cada vez mais comum encontrar a estética da bixaria circulando pelos espaços mais diversos. Ela aparece na publicidade, na moda, nas universidades, na música, na cultura pop em geral. Os códigos produzidos por corpos dissidentes passaram a ocupar um lugar de prestígio simbólico e, em certa medida, de desejo. A maquiagem exagerada, as unhas longas, os cabelos extensos, o deboche, o humor afiado, a performance do excesso e até mesmo determinadas formas de falar e de se relacionar com o mundo passaram a ser consumidas como signos de criatividade e autenticidade. Existe uma diferença importante entre consumir os signos da bixaria — e até mesmo traduzi-los para algo mais genérico e palatável — e compreender os processos que os produziram. É justamente sobre essa diferença que quero falar quando afirmo que, antes de tudo, é preciso ser BIXA!

Imagem: @projetocleo

Escrevo bixa com “x” porque não estou me referindo apenas a uma identidade sexual ou a uma categoria estável de pertencimento. A palavra opera como um campo muito mais amplo, capaz de reunir diferentes experiências de dissidência em relação às normas de gênero e sexualidade. A bixaria não se limita à figura da bicha afeminada tal como ela foi historicamente compreendida. Ela atravessa experiências travestis, trans, não-binárias e inúmeras outras formas de existência que escapam das classificações rígidas produzidas pelo cistema colonial, é o que sugere Tertuliana Lustrosa no Manifesto Traveco-Terrorista. Mais do que uma identidade, a bixa me interessa como uma posição política, uma forma de habitar o mundo e de produzir conhecimento a partir da margem, sobretudo se apropriando da estética para fazer isso.

Talvez por isso eu tenha cada vez mais dificuldade em pensar a bixaria como algo que se resume à representação. Quando observo determinadas apropriações contemporâneas de nossos códigos culturais, percebo uma tentativa recorrente de acessar os resultados sem passar pelos processos. Quer-se a linguagem da dissidência sem enfrentar os conflitos que a produziram. Quer-se a irreverência sem compreender sua função histórica. Quer-se a criatividade sem reconhecer que ela nasceu, muitas vezes, como resposta à precariedade, a necessidade da munganga, da gambiarra. Existe uma vontade de consumir a superfície sem encarar a profundidade.

O que me refiro como processos diz respeito justamente aos caminhos que determinados corpos precisaram construir para permanecer vivos em um mundo que frequentemente lhes negava reconhecimento, proteção e pertencimento. São processos que envolvem improviso, observação e invenção, ficcionar em cima de uma existência já imposta. Envolve, entre tantas coisas, o traquejo: uma inteligência prática desenvolvida na experiência cotidiana de navegar por espaços hostis, negociar violências, identificar riscos, construir alianças e transformar vulnerabilidade em uma coisa-outra, distante da ideia de fragilidade, mas também a reconhecendo. O traquejo não é apenas uma habilidade social; ele constitui uma forma de conhecimento. É uma tecnologia produzida coletivamente por corpos que precisaram aprender a existir apesar das estruturas que insistiam em expulsá-los.

Ao longo da história, a bixaria desenvolveu formas próprias de circulação de informação, de produção de afeto, de transmissão de saberes e de construção comunitária. O que para alguns aparece como fofoca frequentemente funcionou como sistema de proteção coletiva. O que muitos interpretam como exagero estético foi, em inúmeros momentos, uma afirmação radical de existência. O humor operou como mecanismo de sobrevivência — nós fomos as bixas engraçadas da sala de aula, afinal. A montação tornou-se exercício de imaginação política. As redes de amizade assumiram funções que o Estado, a família e as instituições se recusaram a cumprir. Existe uma sofisticação profunda nesses modos de organização que raramente é reconhecida pelos discursos oficiais sobre conhecimento.

Por essa razão, me incomoda a insistência em reduzir a experiência das pessoas trans, travestis e dissidentes de gênero às narrativas da dor. Falar sobre violência é necessário. Não há como ignorar crimes cometidos contra nossa população, a exclusão escolar, a expulsão familiar, a precarização econômica e tantas outras formas de violência que continuam estruturando nossas vidas. O problema surge quando a violência se transforma na única narrativa possível. Quando passamos a existir apenas como estatística, denúncia ou tragédia, algo se perde. Perde-se nossa capacidade de sonhar, de criar, de desejar, de prosperar e de imaginar futuros. E futuros sem abrir mão de nada que nos constitui.

A bixaria sempre foi também uma máquina de invenção. As travestis produziram mundos muito antes de serem reconhecidas como produtoras de conhecimento. As bixas inventaram linguagens que mais tarde seriam absorvidas pela cultura de massa. Corpos dissidentes experimentaram formas de vida que acabaram influenciando modos contemporâneos de vestir, falar, performar gênero, construir imagem e produzir cultura. Grande parte daquilo que hoje é celebrado como inovação surgiu em territórios que, durante décadas, foram tratados como marginais ou subculturas.

Há uma dimensão coletiva importante nesse processo. Ninguém se torna bixa sozinho. Toda bixaria é produzida em relação com outras pessoas. Existe sempre uma rede de referências, afetos, conselhos, conflitos e trocas que participa dessa construção.

Quando digo que antes de tudo é preciso ser BIXA, com “X”, enfeitando a língua portuguesa e também distanciando da grafia com “CH” que advém de bicho, de peste. O que proponho é um reconhecimento dos processos que tornam determinadas linguagens possíveis e distantes do controle de nossos corpos enfeitados de roupas, maquiagens, calçando saltos e com unhas esmaltadas.

Talvez seja essa a principal contribuição da bixaria para o nosso tempo. Ela nos lembra que nenhuma norma é inevitável. Que todo sistema pode ser deslocado. Que toda identidade pode ser reinventada. E que aquilo que durante séculos foi tratado como desvio pode, na verdade, conter algumas das mais sofisticadas tecnologias de sobrevivência: a estética.

E não esqueçam do desejo. Aprendemos a discutir o direito das bixas ao trabalho, à educação, à cidadania e até à visibilidade, mas pouco se fala sobre nosso direito de sermos desejadas. Somos frequentemente aceitas como amigas, referências culturais, artistas, cabeleireiras, maquiadoras, intelectuais ou personagens de entretenimento, mas raramente como possibilidades legítimas de amor, afeto e erotismo. Isso me faz pensar: quantas vezes você realmente se permitiu apaixonar por uma bixa? Não questiono isso de maneira enfadonha como se essa coluna fosse um post no Facebook em 2015 e lá vai bolinhas, mas de verdade: Quantas vezes reconheceu em uma bixa alguém capaz de despertar desejo, construir intimidade, compartilhar uma vida e gozar? Quantas vezes você já fudeu gostoso com uma bixa? Existe uma violência silenciosa na forma como a sociedade consome tudo o que a bixaria cria, mas frequentemente recusa os corpos que produzem essas invenções como sujeitos desejáveis. Talvez uma das fronteiras mais persistentes da norma esteja justamente aí: não em reconhecer que existimos, mas em reconhecer que também desejamos, sentimos ciúmes, somos baixas, somos raivosas!

*Todos os travessões (—) foram colocados por Gil Araújo; a única IA utilizada no texto foi para revisão ortográfica.

*Estou pra lançar uma fotoperformance (bem coisa de bixa isso) no @projetocleo, fiquem de olho nesse perfil.

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Gil Araújo

[Ela/Dela]

Gil Araújo é jornalista com foco em gênero, direitos humanos e cultura, atuando na produção de reportagens que ampliam vozes historicamente silenciadas e contribuem para o debate público qualificado. Sua trajetória é marcada por apuração rigorosa, escuta sensível e compromisso ético com fontes em situação de vulnerabilidade, especialmente mulheres, população LGBTQIAPN+ e comunidades periféricas. Ao longo de sua carreira, Gil tem priorizado pautas sobre violência de gênero, políticas públicas, acesso à justiça, desigualdades estruturais e iniciativas de promoção da cidadania. Seu trabalho inclui o acompanhamento crítico de políticas públicas, conselhos de direitos e programas institucionais, além da produção de conteúdos que evidenciam avanços, retrocessos e lacunas na garantia de direitos. Entende o jornalismo como instrumento de incidência democrática, capaz de tensionar estruturas, informar e tornar mais visível o trabalho de corpos historicamente marginalizados.
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