Novo álbum de Charli XCX troca a cara da pista de dança e nos coloca ainda mais dentro de sua cabeça.
O fenômeno da identidade visual do brat foi meu objeto de estudo no artigo de conclusão de curso de Publicidade e Propaganda. No artigo, concluo que a capa do projeto funciona através do choque visual: tipografia sem serifa desfocada em cima de um verde que não devia funcionar, e funcionou em todo lugar, inclusive no Brasil e na América Latina. A identidade do Brat esteve em todo lugar, e é esse fio que sigo puxando aqui no [SSEX BBOX].
Charli XCX chega nessa era com bastantes expectativas comerciais e críticas, e ela responde de alguma forma essas expectativas.
O que muda aqui?
Charli já começa o álbum dizendo: “a pista de dança está morta” e que agora ela faz Rock Music na faixa de mesmo nome. (Ela negou depois que seja rock de verdade: pra ela, pensar gênero de forma binária é ideia velha. A frase é sobre a relação dela com brat, não um ataque ao eletrônico, e até a Madonna respondeu achando que era.) E curiosamente, Rock Music ainda soa como uma música de clube por manter alguns elementos eletrônicos em sua estrutura sonora e claro marcas registradas de Charli, como vocais distorcidos e BPM alto.
Em SS26, conseguimos ver uma Charli XCX mais vulnerável sobre questões que a preocupam no mundo e suas estratégias midiáticas. Aqui ela leva o rock mais fundo, as guitarras que eram presentes em Rock Music aqui já se fazem mais vistas.
O conflito entre o que é dela e o que ela comprou
Card Declined define um conflito interno de Charli: o que na minha identidade é verdadeiro e o que eu comprei? “Vou comprar umas joias, uma personalidade”. Tem uma outro que é uma surpresa.
Câmera é a minha favorita, pra mim é aqui que o propósito do Music, Fashion, Film se faz claro: ela canta sobre estar na frente da câmera como a única forma de sentir o que normalmente não sente, de ser honesta sem vergonha, de correr atrás do perigo que faz ela esquecer quem é fora daquele momento. A letra completa tá linkada aí em cima.
Persona volta com uma letra sobre ego e performance: “vê se não engole a porra do seu ego quando me vir chegando”. A teoria mais forte entre os fãs é que ela canta pro próprio espelho, não pra um homem específico.
Entre o intimismo e a nostalgia
I’m Afraid é um tipo especifico de faixa da Charli, que pessoalmente não curto muito, essa produção minimalista e com letra reflexiva não funciona muito bem dentro de projetos tão upper. Ainda assim, é PUNK.
2007 é um indietrônico que funciona pq assim como o título fala, te fala para 2007. Yeah se aprofunda numa produção mais barulhenta e carregada no melhor sentido dos termos.
A ironia como assinatura
Em Wink Wink, em oposição a I’m Afraid é uma tipo de faixa da Charli que funciona muito pra mim, a letra irônica como nos clássicos é o que leva a um nivel a cima.
A segunda metade acerta o tom
Magic Metal Montana é um pop/rock que confirma a minha intuição que o sucker ganhou um irmão mais novo, mais bonito e mais maturo. É bem chiclete e um dos pontos altos da segunda metade do álbum.
Em No One Lasts Forever é o ponto do álbum que mais concordo com Charli: ela canta que não tem mais medo de ninguém porque, no fim, “nada vai durar para sempre”, uma frase bem identificável.
O saldo final
No geral, Music, Fashion, Film é Charli nos dizendo para confiar na arte dela, que independentemente do gênero ela vai estar vivendo a vida e festejando. E que resumi-la à pista de dança de Brat é um gesto que não convém com a realidade, pois a Charli XCX surgiu em meio entre o Pop/Rock/Punk e Eletrônico. E existem lugares diferentes de celebrar do que a pista de dança, mas a gente sabe que ela gosta de fritar então aqui nesse disco dá pra tirar alguns ótimos remixes.