A violência contra pessoas LGBTQIAPN+ não termina quando a nossa vida acaba, muita das vezes ela já começa no funeral.
Para muitos de nós, a busca por dignidade e respeito se estende para além da vida. É um constatação dolorosa, porém real: muitas vezes, não temos paz nem em nossas lápides. O vandalismo contra o túmulo de Ygona Moura, onde até mesmo a placa que corrigia seu nome foi arrancada, é reflexo de um ódio que tenta apagar nossas identidades, reescrever nossas histórias e silenciar nossos legados. Se nem o descanso final é respeitado, a nossa memória se torna o nosso último campo de batalha.
Você já parou para pensar na crueldade que é uma travesti passar a vida inteira blindando sua identidade, para no velório ser despida de sua feminilidade e sepultada como ela não desejava? O que resta quando a própria família confisca o cabelo, as roupas, a maquiagem e a verdade de quem ela foi?
Por que continuamos lutando?
O dia 17 de maio é o Dia Internacional de Combate à Homofobia, Transfobia e Bifobia.
A escolha dessa data não foi por acaso: foi em 17 de maio de 1990 que a OMS finalmente retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID). Foi um passo tardio que declarou ao mundo o que nós já sabíamos: nossa existência não é uma patologia. Décadas depois, a data se expandiu para incluir centralmente o combate à transfobia, jogando luz sobre a urgência de proteger vidas trans e travestis.
É por isso que manter viva a memória de quem veio antes de nós é um ato e político. Quando restauramos um túmulo vandalizado, quando defendemos o nome social de alguém que já partiu, ou quando cantamos as músicas de quem peitou o sistema, estamos dizendo: vocês não serão esquecidos.