Três filmes japoneses queer que filmam o cotidiano como ele é: banal, afetivo e sem explicação.
Para escolher os filmes deste artigo, procurei retratos da vida como ela é. Os três que você vai ler abaixo partem de um cotidiano banal, escola, bar, família, e a temática queer está ali inserida junto com a vida que acontece. Nenhum deles tem um vilão que representa a intolerância que sofremos enquanto pessoas queer. O conflito que abordam geralmente é o silêncio, o barulho, a ausência, ou algo que simplesmente não consegue ser nomeado. Acrescento que, muitas vezes, assistindo-os, você pode perceber que a auto-sabotagem também está presente.
O Funeral das Rosas (1969), dir. Toshio Matsumoto
Em O Funeral das Rosas, o conflito está no convívio de Eddie com outras pessoas queer e com sua família. Ainda assim, as pessoas que a rodeiam fazem com que ela se sinta pertencente.
Descobri esse filme durante a faculdade, enquanto me aprofundava no submundo dos filmes cult. Representa muito pra mim: foi responsável por me trazer conexões e questionamentos que eu não tinha feito até conhecê-lo. Agradeço a descoberta porque ela me permitiu conhecer Felipe Santelli, diretor natalense, que após ver uma postagem que fiz sobre o filme no meu antigo perfil profissional me chamou para integrar a equipe de comunicação do Santelloween e, posteriormente, o coletivo cultural Bala Prod.
Monster (2023), dir. Hirokazu Kore-eda
Monster me pegou de um jeito diferente dos outros dois. A estrutura narrativa conta a mesma história três vezes, de perspectivas distintas, e a cada repetição o que parecia óbvio vai se desfazendo. O que a princípio parece um conflito escolar comum, bullying, professores omissos, mãe preocupada, vai revelando, aos poucos, dois meninos e um afeto que ninguém ao redor consegue nomear. O silêncio é o peso de crescer sabendo que o que você sente não tem palavra no vocabulário de quem te cerca.
Kore-eda filma o cotidiano com uma precisão que incomoda e deixa o espectador montar o que está acontecendo sozinho. Ganhou o prêmio de roteiro em Cannes em 2023, mas o que fica é a cena que você vai rever na cabeça depois que o filme acaba.
Close-Knit (2017), dir. Naoko Ogigami
Close-Knit talvez seja o mais gentil dos três. Uma menina que cresce entre adultos ausentes começa a conviver com Rinko, namorada trans do tio. O filme não transforma isso num conflito a ser resolvido nem numa lição a ser aprendida. Faz disso família, com toda a bagunça e afeto que a palavra carrega.
O que me chamou atenção foi a forma como a câmera trata Rinko: com a mesma atenção que trata qualquer outro personagem. Sem close dramático quando ela entra numa cena, sem trilha que avisa que aquilo é importante. Ela simplesmente está ali, vivendo, como todo corpo trans merece existir na arte. A auto-sabotagem aparece aqui também, mas de forma diferente: menos no personagem queer e mais nos adultos ao redor, que criam distância onde poderiam criar vínculo. A menina, no meio disso tudo, aprende sobre afeto com quem menos se esperava e talvez seja disso que futuros queer são feitos.
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