COLUNA

Rafael Nascimento

[ele/dele]

Jornalista com mais de sete anos de atuação. Foi editor e repórter de Sexualidade LGBT+ no Portal iG

Cinema queer é bom demais

Rio de Janeiro e São Paulo estenderam suas programações em celebração ao Mês do Orgulho e contam com duas mostras de cinema LGBTQIAPN+ até julho. Na capital fluminense, o tradicional cinema de rua Estação Claro, antes Estação Net, abriga a mostra “Quem Quer Queer? (QQQ)”, que chega à sua 4ª edição com mais de 40 longas nacionais e internacionais.

Já na capital paulista, a Spcine e o Centro Cultural São Paulo (CCSP) realizam a terceira edição da mostra de cinema “Território Queer”, com ingressos gratuitos e democratização de acesso com parte do catálogo disponível em serviço de streaming de acesso livre.

“Quem Quer Queer?”

Com um título provocativo, a mostra carioca estará disponível até o dia 8 de julho nas unidades do Estação Claro de Botafogo e da Gávea, ambas na Zona Sul do Rio de Janeiro. O circuito inclui longas, sessão de curtas, performances, mesas de conversa, feiras, festa, entre outros atrativos.

Esta é a primeira vez que o cinema ganhou um edital público para realizar a mostra temática, que conta com apoio da Riofilme, da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa da Prefeitura do Rio de Janeiro, e com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (Pnab).

Nesta edição da “QQQ” o homenageado é o paraibano Tavinho Teixeira. Nascido em João Pessoa, em 1965, o ícone queer deu o pontapé da sua carreira como ator de teatro. Sua primeira direção no cinema foi “Luzeiro Volante” (2011), estreado no festival gaúcho Cine Esquema Novo.

Na sequência realizou “Batguano” (2014), exibido na Mostra de Tiradentes e no Fronteira – Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental. O longa conquistou o Prêmio do Júri no 21° Vitória Cine Vídeo.

Na fábula pós-apocalíptica, o casal Batman e Robin sobrevivem ao fim do mundo enquanto refletem sobre amor, desejo, erotismo, delírio e sanidade. Em 2025 o artista lançou a sequência do longa, “Batguano Returns – Roben na Estrada”, ainda inédito no Rio de Janeiro. O título vai compor a sessão de encerramento da mostra.

Premiados e inéditos

Três filmes inéditos, reconhecidos em diversas premiações ao redor do mundo, estão entre os destaques da mostra. “Joyland” (Saim Sadiq, 2022), vencedor da Queer Palm no Festival de Cannes e do prêmio de melhor filme internacional do Spirit Awards, narra a história de uma família patriarcal que anseia pelo nascimento de um menino para continuar sua linhagem. Essa estrutura é abalada quando o filho mais novo submerge a um teatro de dança erótica e se apaixona por uma artista transexual.

“Tudo Vai Ficar Bem” (Ray Yeung, 2024), vencedor do Teddy Award na Berlinale e do Prêmio Félix no Festival do Rio, fala de um drama relacionado à escassez de aparato legal que casais LGBTs enfrentam em momentos decisivos da vida. Angie (Patra Au) e Pat (Lin-Lin Li) são um casal lésbico na faixa dos 60 anos e que está junto há mais de 30. Inesperadamente, Pat morre e Angie, que antes recebia o apoio da família da esposa, se vê envolta a uma teia de desconfiança e desamparo.

Em “Pillion” (Harry Lighton, 2025), um jovem indeciso e tímido leva uma vida monótona até conhecer Ray (Alexander Skarsgård), um galã incrivelmente bonito e líder do clube de motociclistas. O aventureiro introduz o rapaz a um universo queer e a uma comunidade de fetiches e excentricidades. O longa foi vencedor do Un Certain Regard no Festival de Cannes, melhor roteiro adaptado no Gotham Awards e tem três indicações no Bafta.

45 anos depois

O Relatório Semanal de Mortalidade do Centro de Prevenção de Doenças dos Estados Unidos anunciou as primeiras vítimas do HIV há 45 anos, em 5 de junho de 1981. Em lembrança às mais de 45 milhões de vítimas ao longo destas quatro décadas, a “QQQ” separou uma sessão de títulos que tratam do estigma do vírus à comunidade queer e como o cinema foi utilizado como ferramenta fundamental de documentação da história.

“Buddies” (Arthur J. Bressan, Jr., 1985), o primeiro filme a tratar sobre a Aids no cinema, está neste catálogo, assim como outros clássicos. “Os Rapazes da Banda” (William Friedkin, 1970), comumente listado como um dos principais filmes queer norte-americanos, é um longa histórico adaptado da Off-Broadway e que utilizou nas telas os mesmo atores que encenaram a história no teatro.

Na trama, um heterossexual é acidentalmente convidado para uma festa gay. A partir daí, tudo é possível quando os comportamentos dos presentes passam a se deteriorar e suas verdadeiras personalidades são expostas.

Outros clássicos como “Preto É… Preto Não É” (Marlon Riggs, 1994), “Sebastiane” (Derek Jarman e Paul Humfress, 1976), “Gia Fama e Destruição” (Michael Cristofer, 1998) e “Tudo Sobre a Minha Mãe” (Pedro Almodóvar, 1999) também compõem a sessão da mostra.

Os ingressos estão disponíveis nas bilheterias dos cinemas e na ingresso.com com pacotes promocionais: 7 ingressos a 16 reais cada, 14 ingressos a 14 reais cada e 21 ingressos a 12 reais cada. Confira o catálogo completo no site do Estação Claro.

Endereços:
Estação Claro Rio: Rua Voluntários da Pátria, 35 – Botafogo, no Rio de Janeiro.
Estação Claro Gávea: R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro

Território Queer

A Spcine e o Centro Cultural São Paulo (CCSP), equipamentos vinculados à Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa da cidade, realizam a terceira edição da mostra de cinema “Território Queer” até o dia 7 de julho, no CCSP, na Liberdade.

O evento gratuito, dedicado à celebração do cinema LGBTQIAPN+ contemporâneo, promove longas-metragens nacionais e internacionais, clássicos do cinema queer, pré-estreias, sessões ao ar livre e encontros com realizadores nos espaços do CCSP, além de uma seleção especial de títulos na plataforma de streaming Spcine Play.

A programação reúne alguns dos principais destaques recentes do cinema mundial como “O Olhar Misterioso do Flamingo” (Diego Céspedes, 2026), vencedor do prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes; “Twinless – Um Gêmeo a Menos” (James Sweeney, 2025), premiado no Festival de Sundance e “Queens of the Dead” (2025), estreia na direção de Tina Romero, filha do mestre do cinema de zumbis George A. Romero.

O cinema brasileiro também ocupa papel central na programação, com obras que abordam questões relacionadas à memória, à ancestralidade, à identidade de gênero, à juventude e aos territórios de liberdade, como “Parque de Diversões” (2025), de Ricardo Alves Jr.; “Papagaios” (Douglas Soares, 2025), vencedor de quatro Kikitos no Festival de Gramado e “Quinze Dias” (Daniel Lieff, 2026), adaptação do livro homônimo.

Outros destaques são “Uýra – A Retomada da Floresta” (Juliana Curi, 2023), que narra a história de uma artista trans indígena que viaja pela floresta amazônica em uma jornada de autodescoberta usando arte performática e mensagens ancestrais para enfrentar o racismo estrutural e a transfobia no Brasil; e a exibição da nova cópia restaurada em 4K de “Onda Nova” (1983), clássico de Ícaro Martins e José Antonio Garcia.

Como parte da proposta de democratizar o acesso às produções, a mostra expande seu alcance para todo o território nacional através da Spcine Play. Entre os dias 23 de junho e 7 de julho, a plataforma de filmes recebe uma estante especial com obras relacionadas à mostra: “Uýra – A Retomada da Floresta”, “Abre Alas”, “Casulo”, “Fabiana”, “A Dita Filha de Claudia Wonder”, “Ferro’s Bar”, “Vestido de Azul” e “Todas as Memórias que Você Fez para Mim”.

Confira os horários das exibições e a programação completa, que ainda inclui sessões ao ar livre, debates e atividades formativas, neste link.

COLUNISTA

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Rafael Nascimento

[ele/dele]

Rafael Nascimento é um jornalista homem gay cis natural da Baixada Fluminense com mais de sete anos de experiência. Já desempenhou funções como editor, repórter e produtor de conteúdo em diferentes veículos. É graduado pela Universidade Veiga de Almeida e pós-graduando em Direitos Humanos e Questões Étnico-Sociais pela PUC-PR. É jornalista na Secretaria de Cultura e Turismo de Duque de Caxias e editor freelancer na Marie Claire. Foi editor de Homepage e Redes Sociais no Portal iG. No mesmo site, foi repórter e depois promovido a editor em Queer, atuando na pauta de Sexualidade LGBTQIAPN+. Foi repórter freelancer na Editoria E+ (Cultura, Comportamento e Entretenimento) do Estadão e trainee no 11º Curso de Jornalismo Econômico, também do jornal paulista. Participou do “Lab 99 + Folha de São Paulo: Tecnologia para Todos” em que produziu e apresentou o podcast “Dinheiro para Todos: Bancarização e Soluções Digitais”. O projeto levou o 2º lugar no Prêmio 99 de Jornalismo.
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