Na infância a gente imagina a vida adulta como um estado de coisa resolvida: emprego certo, cabeça tranquila, rotina que funciona sem travar. Aí chega a tal flor da idade e os problemas não se resolvem da noite pro dia, alguns nem se resolvem.
É preciso tempo pra aguentar a angústia que vem com as pendências da vida adulta. Essa angústia tem nome técnico: psicólogos chamam de crise de um quarto de vida o período em que a gente descobre que virar adulto não vem com manual.
Um levantamento recente mostra que 80% dos jovens brasileiros entre 25 e 33 anos sentem esse aperto.
Mas volto ao Café Mania. Quem jogou lembra: o jogo nunca tinha fim. Você organizava o salão, atendia um cliente, e no segundo seguinte outro já batia na porta pedindo bandeja.
As missões não paravam pra você respirar, só aumentavam de ritmo conforme você subia de nível, igual Colheita Feliz e Buddy Poke.
As pendências da vida adulta funcionam do mesmo jeito. Resolve uma conta, aparece outra. Termina uma treta, começa uma nova. O jogo não te dá fim de fase. Te deixa em movimento pra continuar jogando.
A experiência que carrego de anos plantado na frente da tela, gerenciando restaurante virtual, foi essa: cheguei na vida adulta calejado de resolver pendência que não para de chegar.
Escrevi sobre um tipo parecido de enfrentamento em Será que estou louca? Um manifesto, texto em que encaro gaslighting e reconstruo identidade em cima do que sobrou.
Nenhuma dessas pendências chega com aviso. Lidar com elas é repetição.
Quem tinha restaurante bem-sucedido no Café Mania, eu tinha, provavelmente lida com mais consciência quando encara os problemas de gestão da própria vida.
A lógica é a mesma: organizar prioridade, aceitar que vai faltar tempo pra tudo, continuar servindo mesmo com fila na porta.
Até a Kaya Conky, numa conversa que tivemos sobre o álbum Maria Boa, falou de processo parecido: o momento em que a vida adulta desmonta certeza antiga e obriga a gente a se examinar de novo, faixa por faixa, prioridade por prioridade.
Talvez uma coisa que os jogos de Orkut ensinaram foi: fase final não existe, só o próximo pedido chegando e a escolha de continuar servindo.