‘Homens totalmente afeminados’: influenciadora ultra conservadora teve dados vazados após
comentário homofóbico contra grupo sul-coreano. Contudo, se observarmos com cautela, há mais
sujeira nesse balaio do que se imagina.
A fala de Pietra Bertolazzi:
“De tudo que eu vi hoje na final da Copa, nada me chocou mais do que saber que um grupo de homens
totalmente afeminados, vaidosos e cheios de caras e bocas que me deram verdadeira vergonha alheia
(não sei quem são e não quero saber) é uma das maiores referências que essa geração atual tem. Não é
possível que a maioria não perceba o quão grave isso é.”
Pietra Bertolazzi pagou caro ao expressar uma opinião LGBTfóbica sobre um dos maiores grupos de k-pop da atualidade, o BTS. Além do crime contra a comunidade queer, tipificado na Lei de Racismo (nº 7.716/2019), a autointitulada criadora de conteúdo sobre “cultura, ideologias, política e fé”, subjugou o poder que a “geração atual”, como ela mencionou, tem de se rebelar no campo virtual.
A declaração de Bertolazzi se deu após a apresentação do grupo na final da Copa do Mundo de 2026, no último domingo (19). O pior é que não foi a primeira vez que a influenciadora ultra conservadora teve falas de ataque a pautas progressistas, o que costuma fazer especialmente contra o feminismo. A partir desta nova polêmica, vídeos antigos voltaram a circular na internet em que é possível observar a mulher proferindo ideias rasas e mal concebidas sobre o movimento político, social e filosófico.
“As feias criaram o feminismo”, As feministas são “escravas da sua própria ideologia”, “Elas confundem libertinagem com sucesso financeiro e liberdade”, estão entre os equívocos que a ex-comentarista da Jovem Pan já declarou publicamente.
E o dia que a Pietra Bertolazzi disse que as feias que inventaram o feminismo pic.twitter.com/oEcYjfJ35j
— Valderruba 🇨🇴🇧🇷 (@valderruba) July 22, 2026
A ultraconservadora de direita Pietra Bertolazzi choca ao revelar ser contra o voto feminino. pic.twitter.com/McmE4ND6HM
— POINT POP (@Point__Pop) July 9, 2026

Após os comentários criminosos contra o BTS, a influenciadora teve seus dados pessoais vazados na internet, especialmente no X (antigo Twitter). Tais vazamentos foram atribuídos ao Army, o fandom do grupo sul-coreano. Endereço, dados familiares e telefone estão entre as informações publicadas. Cabe ressaltar que o vazamento de dados é considerado crime na legislação brasileira. Bertolazzi também teria sido inscrita como filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), do qual faz oposição, como mesária voluntária para o pleito deste ano, e em diferentes estados, além de outros contra-ataques.
Diante da repercussão, Bertolazzi reagiu em um comunicado oficial. Nele, classificou os fãs do BTS como uma “organização criminosa” e afirmou ter sido alvo de ataques coordenados. Segundo ela, o caso já está sendo acompanhado pela Delegacia de Crimes Cibernéticos de São Paulo, e provas dos supostos ataques já estariam sendo reunidas.
O que pode ter causado o estopim para a represália virtual foi a extensão do pensamento da influenciadora, que não se contentou em ser homofóbica apenas em seus stories, onde as ideias “duram” apenas 24h. Em tom de ironia, Bertolazzi publicou no feed de seu perfil uma reflexão sobre skincare, masculinidade tóxica, patriarcado e k-pop.
“Pela primeira vez na História, homens podem se dedicar ao skincare 10 etapas e se expressar através da dança sem medo da violência estrutural da masculinidade tóxica. Ele já não precisa carregar nos ombros o peso da responsabilidade. Basta carregar uma necessite [sic] e muita empatia! Graças ao K-pop, o patriarcado está oficialmente com os dias contados.”

Mas, o que há de tão incômodo na masculinidade performada pelo BTS? Desde sua estreia, em 2013, os artistas sul-coreanos se consolidaram como um dos grupos pop mais influentes da história recente, transformando-se em uma poderosa ferramenta de exportação cultural do seu país de origem.
Além dos recordes na indústria musical, os integrantes se envolveram em causas humanitárias, discursaram na ONU e mobilizaram milhões de seguidores em campanhas sociais. Contudo, em um mundo ainda marcado por valores binários, misóginos e avessos a identidades e sexualidades dissidentes, o aspecto que parece mais despertar a atenção dos detratores dos artistas não é o impacto cultural, econômico, político ou social que eles produzem, mas a forma como performam suas masculinidades.
Diferentemente do modelo hegemônico predominante no Ocidente, os integrantes do BTS incorporam elementos estéticos e comportamentais frequentemente associados ao feminino, desafiando expectativas tradicionais sobre o que significa ser homem na sociedade contemporânea.
A reação a esse tipo de representação não é um fenômeno novo. Em “A Dominação Masculina” (1998), Pierre Bourdieu argumenta que as sociedades ocidentais historicamente construíram a masculinidade a partir da rejeição de tudo aquilo que é associado ao feminino. Nesse sistema simbólico, delicadeza, sensibilidade, vaidade ou demonstrações de afeto tendem a ser percebidas como atributos inferiores, enquanto a virilidade é constantemente reafirmada como um ideal a ser alcançado.
No início dos anos de 1980, a socióloga Raewyn Connell já havia ampliado essa reflexão ao formular o conceito de “masculinidade hegemônica”, entendido como o modelo dominante de masculinidade que ocupa uma posição privilegiada em relação às mulheres e a outras formas de ser homem. Quando artistas como o BTS desafiam tais convenções, tornam visível o caráter construído dessas normas, provocando reações de quem as considera naturais ou imutáveis.
Masculinidade como homofobia
Dentre os inúmeros estudos que se debruçam em entender a dinâmica social do ideal da performance do homem, no ensaio “Masculinidade como homofobia: Medo, vergonha e silêncio na construção de identidade de gênero” (1994), de Michael Kimmel, há uma interseção interessante entre os dois conceitos. “A homofobia é um princípio organizador central da nossa definição cultural de masculinidade”, defende o autor.
Kimmel ainda formula que muitos homens vivem sob a pressão constante de provar sua virilidade diante de outros homens. Nesse contexto, críticas à aparência dos integrantes do BTS dizem menos sobre o grupo em si e mais sobre a ansiedade gerada por modelos de masculinidade que não se encaixam nos padrões convencionais. Ao ocuparem posições de prestígio global sem reproduzir integralmente os códigos tradicionais do “homem viril”, eles desafiam hierarquias simbólicas que ainda estruturam parte significativa do imaginário ocidental.
Vale salientar que Kimmel usa “homofobia” em um sentido mais amplo do que a hostilidade em razão de identidade de gênero e sexualidade LGBTs. Isso torna claro e evidente que a LGBTfobia é um dano coletivo, que atinge a todas as pessoas da sociedade, sejam elas LGBTs ou não.
Neste balaio, é importante adicionar outro aspecto que não pode passar despercebido: a xenofobia como homofobia. Essa percepção não surge do nada. Em “Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente” (1978), o crítico literário Edward Said argumenta que o Ocidente construiu historicamente uma imagem estereotipada do Oriente como exótico, irracional, passivo e inferior. Mais do que uma simples diferença cultural, trata-se de uma relação de poder que estabelece o homem ocidental como parâmetro universal de civilização, força e racionalidade.
Dentro dessa lógica, homens asiáticos foram frequentemente retratados pela cultura ocidental como frágeis, delicados, infantis ou incapazes de encarnar uma masculinidade considerada “verdadeira”. Quando integrantes do BTS são alvo de comentários que os classificam como “afeminados” ou “menos homens”, não se trata apenas de uma rejeição à expressão de gênero, mas também da atualização de antigos estereótipos raciais. Nesse ponto, homofobia e xenofobia deixam de ser fenômenos paralelos para operar conjuntamente, reforçando a ideia de que determinados corpos e identidades ocupam posições inferiores dentro da hierarquia cultural ocidental.
Quando sete artistas asiáticos alcançam projeção global sem abrir mão de características associadas à sensibilidade, ao cuidado com a aparência e à expressão emocional, eles expõem o caráter arbitrário das normas que definem quem é ou não suficientemente masculino. Talvez seja justamente por isso que despertem reações tão intensas: porque sua popularidade demonstra que a masculinidade hegemônica não é uma verdade universal, mas apenas uma entre muitas formas possíveis de existir.