Muito antes de a não binariedade existir como identidade social, categoria política ou linguagem, ela já habitava o imaginário humano como símbolo espiritual.
Em diversas culturas e tradições filosóficas, existe a percepção de que a realidade nasce da relação entre forças complementares e interdependentes, e não de opostos absolutos. Na filosofia chinesa, o yin e o yang talvez sejam a expressão mais conhecida dessa ideia. Frequentemente interpretados de forma simplista como “feminino” e “masculino”, yin e yang são, na verdade, princípios em constante movimento. Um contém a semente do outro. Nenhum existe em estado puro. Nenhum é completo sozinho.
A vida acontece justamente na dança entre essas forças.
A alquimia ocidental também foi profundamente marcada por essa busca de integração. O objetivo último da obra alquímica não era apenas transformar metais em ouro, mas produzir uma transformação interior: a união dos aspectos fragmentados da existência em uma consciência mais ampla. É nesse contexto que surge a figura do Hermafrodita Sagrade.
Na tradição greco-romana, a ideia de hermafrodita sagrade nasce da união entre Hermes e Afrodite. Mais do que um personagem mitológico, ele se torna um arquétipo: a imagem de um ser que reúne em si aquilo que a sociedade insiste em separar.

Na alquimia, essa figura reaparece como o Rebis, um ser andrógino que simboliza a reconciliação dos contrários. Não se trata de apagar diferenças, mas de reconhecer que a integridade humana emerge da coexistência das polaridades. O hermafrodita sagrado representa um estado de unidade primordial, anterior às divisões rígidas e às classificações fixas.
Talvez seja por isso que a não binariedade contemporânea desperte tanto fascínio e, ao mesmo tempo, tanta resistência.
Ela nos lembra de algo muito antigo.
Lembra que as fronteiras entre masculino e feminino nunca foram tão sólidas quanto imaginamos. Lembra que identidade pode ser movimento, relação e fluidez. Lembra que existem formas de existência que não cabem na lógica do “ou isto ou aquilo”, mas florescem no “isto e aquilo” — ou, muitas vezes, no “nem isto nem aquilo”.
A não binariedade, nesse sentido, não é apenas uma experiência de gênero. Ela também pode ser compreendida como uma retomada de uma memória filosófica e espiritual da humanidade: a de que a vida é mais complexa do que os binarismos que construímos para organizá-la.
O arquétipo de hermafrodita sagrade nos convida a imaginar que a plenitude talvez não esteja na escolha de um dos lados, mas na capacidade de sustentar a tensão criativa entre eles. Como o yin e o yang, somos feitos de interdependência. Como a alquimia ensina, a transformação não acontece pela eliminação de partes de nós mesmos, mas pela sua integração.
Talvez seja por isso que este texto também seja profundamente pessoal.
Eu mesmo estou atravessando uma transformação importante ao mudar meu nome de Pri Bertucci para Lyon Adrian Ror. Como tantas transições vividas por pessoas trans, a mudança de nome é um gesto simbólico, mas também uma reorganização da própria percepção de quem somos e de quem estamos nos tornando.
Depois de quase duas décadas pesquisando transgeneridade e não binariedade, aprendi algo que hoje me parece fundamental: por muitos anos, eu mesmo estive profundamente investide nas identidades e nas nomenclaturas. Participei da construção de parte desse vocabulário político, contribuindo para a ampliação da sigla LGBTQIAP+, para a difusão de conceitos como cis e trans e para tantas outras ferramentas que nos permitiram nomear experiências antes invisibilizadas. Esses nomes foram e continuam sendo importantes. Nomear é existir.
“se não tem nome, não existe” ___ Michel Foucault
Mas também percebi que, em algum momento, nosso movimento LGBTQIAP+ se tornou excessivamente agarrado ao identitarismo, a ponto de, muitas vezes, reproduzir novas formas violências e de separação. As nomenclaturas que nasceram para criar reconhecimento passaram, em alguns contextos, a funcionar como fronteiras rígidas entre pessoas que compartilham vulnerabilidades, desejos e sonhos semelhantes.
Essa mudança de nome representa, para mim, uma pivotagem na minha própria percepção como pesquisador e artista social. Se passamos décadas aprendendo a nos nomear, talvez a próxima tarefa seja aprender a nos relacionar para além dos nomes. Agora que temos palavras para descrever nossas diferenças, podemos começar a imaginar formas mais profundas de integração.
Porque a vida não floresce na violência das divisões absolutas entre brancos e pretos, cis e trans, homens e mulheres, natureza e cultura, nós e eles. O conceito de hermafrodita sagrade talvez nos ofereça justamente essa lembrança ancestral: a de que a maturidade espiritual, política e relacional não está em apagar as diferenças, mas em descobrir como elas podem coexistir em relação, interdependência e pertencimento mútuo.
Talvez seja esse o convite mais profundo da não binariedade neste momento histórico: menos uma identidade fixa e mais uma prática de integração. Não apenas uma nova forma de responder à pergunta “quem sou eu?”, mas uma nova maneira de perguntar “como podemos existir juntes?”.
“Do Yin e Yang sai tudo que existe…” ___ Alan Watts – The Line Of Least Resistance