COLUNA

Pri Bertucci

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Artista social, educadore e pesquisadore da área de diversidade há pelo menos duas décadas

Um guia para promover a linguagem neutra e inclusiva em português

[ PORQUE EXISTE UMA LINGUAGEM NEUTRA E INCLUSIVA? ]

A linguagem neutra e inclusiva existe para incluir toda a diversidade da experiência humana. Ou seja, ela serve para incluir e não para excluir, como afirma algumas pessoas leigas sobre o tema.

A linguagem neutra e inclusiva, em especial, existe em todo o mundo para incluir a existência de pessoas trans não binárias, e como alternativa para não generalização do masculino, principalmente em línguas latinas, como é o caso do português. 

A língua é viva e emergente, como todes nós. Ela está sempre em movimento, principalmente em meio à comunicação verbal, e a linguagem deve acompanhar as mudanças sociais de uma época e um povo. Por isso, é muito importante entendermos não só a necessidade, como a demanda que a atualidade traz a respeito da linguagem neutra e inclusiva.

Você já deve ter ouvido falar a palavra TODES ou AMIGUES nos últimos anos, né?
Desde que comecei o trabalho de cocriação da Linguagem Neutra, com Andrea Zanella, em meados de 2014, até a criação do MANIFESTO ILE PARA UMA COMUNICAÇÃO RADICALMENTE INCLUSIVA – marco nacional na tentativa de inclusão do gênero neutro e não binário na língua portuguesa –, em 2015, observei uma curva ascendente da discussão sobre o tema. Não só no Brasil, mas em todo o mundo. 

Em alguns países europeus, como Noruega, Islândia, Suécia e Suíça, as políticas de inclusão de pessoas não binárias estão avançando, e essas identidades estão se tornando cada vez mais comuns. A esmagadora maioria da população (oito em cada dez pessoas) entende que existem mais de duas identidades de gênero. 

A União Europeia, por sua vez, já foi declarada pelo Parlamento Europeu como uma zona de liberdade LGBTQIAP+.  Estive recentemente na Espanha, e acompanhei alguns avanços por lá. Madrid foi a primeira cidade europeia a apresentar uma Lei de Igualdade para incluir pessoas não binárias.

O Secretariado-Geral do Conselho da União Europeia lançou um guia de “comunicação inclusiva”, em língua portuguesa, orientando que a comunicação “inclua todas as pessoas e evite estereótipos”.

O documento, que conta com versões em todas as línguas oficiais da União Europeia, destaca a questão do gênero. “A linguagem sensível à questão do gênero trata as mulheres e os homens de forma igual, sem perpetuar as percepções estereotipadas dos papéis de cada pessoa em função do gênero. Ao ponderar alternativas sensíveis à questão do gênero, é preciso ter sempre em conta eventuais ambiguidades ou inflexões de sentido e escolher a solução mais adequada”, diz o guia.

O documento propõe, a título de exemplo, que se substitua a designação “o coordenador” por “a coordenação”; “o interessado” por “a pessoa interessada”; “os políticos” por “classe política”; “os professores/enfermeiros” por “pessoal docente/de enfermagem”; ou “as senhoras da limpeza” por “pessoal da limpeza”. “Nas referências ao conjunto do gênero humano deverão utilizar-se expressões como a ‘humanidade’, o ‘ser humano’ ou as ‘pessoas’, em vez do termo ‘homem’”, destaca o mesmo texto.

No que se refere às relações de casal, o documento da União Europeia defende que termos “parceiro/parceira” ou “cônjuge” são mais inclusivos do que “marido/mulher”. O guia explica, ainda, que a linguagem oral ou escrita deve pôr sempre a tônica na pessoa. 

“Em vez de ‘as lésbicas, os gays, os bissexuais, os transgênero, os intersexo’, diga ou escreva ‘pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgênero e intersexuais’ ou ‘pessoas LGBTI’”.

No Brasil, uma disseminação bastante grande sobre o tema tem tomado a internet, principalmente depois que o alto escalão do novo governo Lula começou a implantar a sua utilização, usando “Olá, a todas, todos e todes”.  












Instituto [SSEX BBOX] e governo federal iniciam
parceria para Projeto de Letramento

Veja como os dados do Google podem ser usados para contar a história da evolução do uso da linguagem neutra no Brasil.


Confesso que é muito satisfatório ver o resultado se desdobrando, depois de uma década inteira de trabalho e consistência na divulgação dessa pauta. Contudo, ao mesmo tempo, percebo uma grande onda de informações desconexas e incorretas propagadas por influenciadories que querem surfar no tema para ganhar visibilidade, mas não têm conhecimento adequado para passar informações consistentes sobre linguagem neutra. 

Algumas consequências desse problema, exponho aqui. 

Primeiramente, para quem está buscando começar a entender sobre o tema, é importante frisar que a linguagem neutra é um possível instrumento de transformação social, para além da binariedade e polarização que enfrentamos neste momento da história. A linguagem neutra e inclusiva não é apenas uma neolinguagem. É uma recuperação de linguagem.

1) NOMENCLATURAS E TERMOS SÃO IMPORTANTES

Comunicação inclusiva, linguagem inclusiva e linguagem neutra são coisas diferentes!

Comunicação inclusiva é um termo guarda-chuva, que reconhece a utilização de recursos comunicacionais diferentes da norma, as vantagens e privilégios simbólicos que estruturam a nossa comunicação. Nasce do reconhecimento de uma ideia falsa de superioridade moral e intelectual de um grupo social. 

Comunicação inclusiva leva em consideração a inclusão de grupos minorizados e marginalizados na linguagem, como LGBTQIAP+, mulheres, pessoas negras, indígenas e pessoas com deficiência. A linguagem neutra e a linguagem inclusiva fazem parte desse guarda-chuva.

Para se aprofundar nesse tema: CURSO PRÁTICO DE COMUNICAÇÃO INCLUSIVA, com certificação. 

Linguagem neutra ou não binária visa respeitar os pronomes de todes. Assim como todas as pessoas cis têm seus pronomes de gênero respeitados naturalmente, as pessoas trans também necessitam desse respeito. 

Não usar um gênero específico ao falar com alguém ou perguntar seus pronomes são sinais de acolhimento, empatia e respeito. Na linguagem neutra se utiliza o ‘E’ no final das palavras, e é um grande exercício para pensar a fonética e a flexão. 

Exemplos:

> “Os convidados estão contentes com as informações trocadas na reunião.”

Sugestão: “Es convidades estão contentes com as informações trocadas na reunião.”

> “Aqueles profissionais não gostaram deste novo candidato.”

Sugestão: “Aquiles profissionais não gostaram diste novo candidate.”

Para se aprofundar nesse tema: CURSO DE LINGUAGEM NEUTRA E INCLUSIVA + DOSSIÊ DIGITAL, com certificação.

A linguagem inclusiva ou linguagem não sexista visa erradicar com o sexismo que incluímos em conversas do dia a dia, generalizando sempre o conjunto no masculino. Usando a linguagem inclusiva, você pode exercitar a percepção mais ampla e inclusiva das pessoas com as quais convive.

Exemplos:

> “Os convidados estão contentes com as informações trocadas na reunião.”

Sugestão: “Es convidades estão contentes com as informações trocadas na reunião.”

> “Aqueles profissionais não gostaram deste nove candidato.”

Sugestão: “Aquiles profissionais não gostaram diste novo candidate.”

2) CONSISTÊNCIA NA MENSAGEM

Parem de usar o X e o @ para escrever em linguagem neutra!

O uso de “x” e “@”, no lugar de “a” ou “o”, por exemplo, não funciona na linguagem oral. O correto é utilizar a letra ‘E’ em palavras neutras, como “todes” e “amigues”, e não “x” ou “@”. 

Esses símbolos tornam complicada a leitura, a fala e a escuta. Além disso, quem tem deficiência visual e precisa de tecnologias assistivas, como softwares de leitura de texto e tela, não se beneficia com o uso do “x” e “@”.

Assim: “cansadx”, em vez de “cansado” ou “cansada”; “animadx”, em vez de “animado” ou “animada”. Essas grafias tornariam, teoricamente, a comunicação mais inclusiva? A resposta é: NÃO! Isso porque, esses programas, muitas vezes, não conseguem reconhecer o que está escrito, embora alguns reajam de forma menos ou mais acessíveis. 

Mas se estamos propondo inclusão, então, a alternativa correta é o uso da letra ‘E’.  Veja: “cansade”, “animade”, “incluíde”.

O uso da desinência “U”, proposta apresentada pelo sistema ELU/DELU, também não funciona, pois não apresenta distinção fonética entre o gênero masculino e o neutro, e isso gera muita confusão. 

Pronomes mais conhecidos em inglês, português, espanhol, francês e alemão :

Repare na tabela acima que existem muitas similaridades entre os pronomes de gênero em  línguas latinas, por exemplo: o pronome femino em Francês (elle) é o neutro (elle) em Espanhol. Uma das versões neutras em Francês (ille) é uma junção dos pronomes il (masculinio) e elle (femino), que é a primeira versão de pronome neutro em Português (ile).  Repare também  que a maioria dos pronomes de gênero em línguas latinas terminam com as vogais  E ou A ou a consoante. Também é importante entender que nenhum pronome de gênero em línguas latinas terminam com a letra U

“Dentre contextos em que a formalização da linguagem neutra se faz necessária, para que sua evolução acelerada seja possível, é essencial a preponderância de um sistema uniformizado. O estabelecimento da abrangência do gênero neutro no português deve ser feito não só de forma mais efetiva, mas também de forma ordenada e gramaticalmente revisada, uma vez que a inovação pronominal e a mudança lexical impactam diretamente a gramática da língua.” 

Trecho extraído do Dossiê de Linguagem Neutra Inclusiva, capítulo:

[GÊNERO NEUTRO: DO LATIM CLÁSSICO AO DESAPARECIMENTO NA FORMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA, UMA PROPOSIÇÃO CONTEMPORÂNEA], de Paula Ramos Pacheco – Mestranda em Culturas Literárias Europeias, pela Universidade de Lisboa (Portugal) e Université de Strasbourg (França).

Dessa forma, como fica o pronome de gênero neutro? Se não é nem “ele”, nem “ela” e nem elx, é o quê?

A resposta é “ILE”. I-L-E. E quando se fala “DILE”, usado também para qualquer pessoa cujo Pronome de Preferência (ou PGP, na sigla em inglês) é “ILE”.

E se seus olhos e ouvidos estão estranhando os “ILES” e “DILES”, e “es”, isso já faz parte de uma mudança. Sair do lugar conhecido, a famigerada zona de conforto, exige um esforço, um empenho e uma escuta de todes, todas e todos. Topa?


[O “SISTEMA ILE/DILE” É A MELHOR ADAPTAÇÃO NEUTRA DESENVOLVIDA PARA PRONOMES NEUTROS]

Não vamos apenas argumentar que ILE é a melhor opção, mas explicar porque acreditamos nisso e estimular você a pensar. 

O processo de criação e análise foi profundo e segue uma lógica que acho essencial que todes entendam, principalmente no meio jornalístico.

Tomando como referência um dos pronomes demonstrativos neutros do latim ( “illud” ), consideramos que, foneticamente, a letra “i”, no início do pronome, poderia dar a sensação de neutralidade ao “ILE”. Com todo exercício de escrita, leitura e escuta que realizamos, envolver o uso da letra ‘E’ nas palavras, para que se tornem neutras, era o que fazia mais sentido, como nos exemplos: todes, cansade, animade, incluíde. Então, fica nítido que o uso da desinência ‘E’ no final do pronome e de algumas palavras é o mais adequado.

Para toda a pesquisa que me levou à criação do sistema ILE, acesse o DOSSIÊ  DE LINGUAGEM NEUTRA E  INCLUSIVA. 

O foco é a inclusão, e não segregação e desmotivação na hora de todas as pessoas aprenderem. Sejam comunicadoras, jornalistas, escritoras, leitoras, videntes, cegas, falantes, mudas, ouvintes, surdas, sinalizadoras, intérpretes ou tradutoras.

 3) NO AMBIENTE CORPORATIVO

Não é mimimi
Não é militância
é sobre  a sobrevivência
do seus negócios
!

Como pessoa trans, valorizo muito as políticas identitárias, porque é assim que nossas existências, que foram apagadas pelo processo de colonização, vão voltar a existir para o resto da população. Porque o que não tem nome, não existe. 

Você pode observar aqui no site, que todes colunistas têm, além de seu nome, o seu pronome de gênero destacado. Por isso, te convido a ser ume aliade nesta corrente do bem, para que, juntes, possamos questionar de maneira saudável nossa linguagem, e dar um passo maior em relação à inclusão, com uma ação simples. Demostrar e dizer os seus pronomes, seja você cis ou trans, é importante. Ao fazer isso, você apoia e valoriza as políticas identitárias.

Dicas básicas de boas práticas: 

  • Pergunte sempre qual é o PGP da pessoa com que você está interagindo, se ela não tiver revelado no início da conversa.  
  • Comece qualquer reunião ou interação nomeando seus pronomes de gênero publicamente. 
  • Utilize seu pronomes de gênero em suas redes sociais, assinatura de e-mail, crachás, quando logar em um call etc. 

Para saber mais, baixe aqui uma série de ebooks gratuitos que vão te ajudar com todos os detalhes que você precisa saber.

Um dos fatores mais importantes no ambiente de trabalho é o bom relacionamento entre as pessoas. E a comunicação é uma ferramenta-chave para estabelecer um ambiente seguro.

Comunicar-se de forma inclusiva significa ter a consciência de que um ambiente de trabalho é composto por pessoas com diferentes características e identidades. Por isso, é importante comunicar-se incluindo, valorizando, respeitando e acolhendo toda a diversidade inerente ao ser humano. E a empatia é essencial para comunicar-se de forma inclusiva.

[A EMPATIA É ESSENCIAL PARA COMUNICAR-SE DE FORMA INCLUSIVA]

Podemos experimentar o profundo prazer de contribuir para o bem-estar uns dos outros. Neste contexto de linguagem, podemos exercitar nossa empatia, principalmente com pessoas que estão dentro do espectro não-binário, gênero não-conforme e trans, já que têm constantemente sua leitura social achatada pela cis-heteropatriarquia, pelo binarismo social e pela própria língua portuguesa.

Ter empatia é desenvolver a capacidade psicológica para sentir, aproximadamente, o que sentiria uma outra pessoa, caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente o outro indivíduo.

Já parou para pensar como seria para você, que é cisgênero, ter uma leitura incorreta de quem você é? Como seria ter seu pronome de gênero e identidade confundidos em cada interação com as pessoas? Pensar nessas situações é um ótimo exercício empático, para imaginar como seria para uma pessoa existir para além do homem/masculino e mulher/feminina, em um lugar onde o binarismo não faz sentido.

Uma vez que a empatia começa com a informação, apresentamos algumas orientações para a comunicação, que podem promover a equidade de gênero, incluindo mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Travestis, Queer, Questionando, Intersexo, Assexuais e Aliades) e pessoas com deficiência.

Para começar a se acostumar com essas, aparentemente, novas possibilidades de existência, é preciso muito treino e tentativa e erro. Não será do dia para a noite que todos os condicionamentos já absorvidos vão ceder espaço para o uso desta maneira nova de escrever, falar e perceber o mundo à nossa volta. Mas quanto mais pessoas estiverem dispostas a praticar, mais rapidamente essa mudança vai acontecer.

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COLUNISTA

pri

Pri Bertucci

[ILE/DILE & ELE/DELE]

Artista social, educadore e pesquisadore da área de diversidade há pelo menos duas décadas. Identifica-se como pessoa não branca, não cis, não binária, transgênero /gender queer. É CEO da [DIVERSITY BBOX] consultoria; fundadore do Instituto [SSEX BBOX], projeto pioneiro no tema de justiça social; cocriadore do “Sistema Ile”, mais conhecido como linguagem neutra na língua portuguesa. Pri também é produtore executivo da Marcha do Orgulho Trans de São Paulo, e inovou em 2023 quando criou a primeira AI não binária do mundo.
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No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.

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