Como o medo da vulnerabilidade e a obsessão por controle estão destruindo a intimidade, a comunidade e a nossa própria humanidade
Escrevo a partir de um campo de pesquisa que cruza tecnologia, cultura digital e justiça social. Observo como a violência foi sendo normalizada enquanto as tecnologias que deveriam nos aproximar passaram a mediar — e muitas vezes empobrecer — nossas formas de sentir. Em fóruns como Reddit, em vídeos no YouTube, nas manchetes da BBC News, nas dinâmicas envelhecidas do Facebook e agora com a presença constante da inteligência artificial, percebo um padrão: estamos cada vez mais informades, mas cada vez menos tocades. É nesse cenário que a cultura do cringe se consolida — não como brincadeira inocente, mas como sintoma do nosso tempo.
O “cringe” deixou de ser apenas uma gíria. Aquilo que começou como humor geracional virou um mecanismo de regulação afetiva. Hoje, chamar algo de cringe não é só rir: é delimitar o que pode ou não pode ser expresso. É dizer onde termina o aceitável e onde começa o constrangimento social.
Vivemos um tempo em que sentir demais virou risco. Demonstrar afeto virou excesso. Insistir virou vergonha. Errar — errar em público, errar como quem está vivo — virou falha moral. Em um mundo governado por métricas, engajamento e reputação, o afeto passou a ser tratado como instabilidade.
A pandemia invisível
O que estamos vivendo — esse clima de hiperindividualismo, expressão hipercontrolada e emoção esterilizada — é uma pandemia social. Ela não aparece em dashboards, mas atravessa amizades, comunidades e relações íntimas.
Vejo pessoas com medo de se importar demais.
Medo de se aproximar.
Medo de parecer vulneráveis.
Então recuamos. Ironizamos. Desaparecemos antes que doa. Chamamos de “cringe” tudo aquilo que ameaça furar a bolha do autocontrole.
O cringe como novo colonizador
A cultura do cringe não opera no grito.
Ela não invade pela força.
Ela coloniza pelo constrangimento.
Ela ensina cedo — especialmente às pessoas jovens — que existir exige cálculo.
Que sentir demais é perigoso.
Que se expor é erro estratégico.
Que demonstrar afeto pode custar pertencimento.
Pesquisas recentes sobre saúde mental de jovens indicam um crescimento consistente de ansiedade social, medo de rejeição e autocensura emocional em ambientes digitais. Estudos da American Psychological Association mostram que adolescentes e jovens adultos pensam repetidamente antes de postar, comentar ou responder mensagens — não por falta de desejo de conexão, mas por medo de julgamento público.
O cringe funciona como um dispositivo de disciplina afetiva.
Ele molda corpos, linguagens, emoções e desejos.
Ele define o tom aceitável da voz.
O volume correto do amor.
A quantidade segura de interesse.
Pesquisas do Pew Research Center apontam que mais de 60% das pessoas jovens relatam sentir pressão constante para parecer “adequadas” nas redes sociais. Essa vigilância não vem apenas do outro — ela é internalizada. O olhar que julga passa a morar dentro.
Assim como projetos coloniais clássicos, essa lógica impõe um padrão único de comportamento “civilizado”: controlado, irônico, eficiente, emocionalmente econômico. A suavidade vira falha. A espontaneidade vira amadorismo. A vulnerabilidade vira risco.
Não é coincidência que essa cultura floresça junto a plataformas baseadas em economia da atenção, métricas de engajamento e comparação constante. Likes, views e seguidores produzem um ambiente onde ser legível importa mais do que ser verdadeiro — e onde errar emocionalmente pode custar visibilidade, status ou pertencimento.
Estudos sobre redes sociais e isolamento emocional mostram uma correlação direta entre medo de julgamento online e redução de comportamentos empáticos, dificuldade de construir intimidade e aumento da solidão. Quanto maior o medo de parecer ridículo, menor a disposição para se aproximar de verdade.
A cultura do cringe esvazia o risco — e com ele, esvazia o vínculo.
Ela transforma pessoas em marcas desde cedo.
Ensina que relações são networking.
Que sentimentos são passivos perigosos.
Que amar demais é falta de estratégia.
E assim, pouco a pouco, vamos desaprendendo a tocar.
Vamos chamando de cringe tudo aquilo que ameaça romper o vidro da neutralidade emocional.
Vamos confundindo maturidade com anestesia.
Mas não há comunidade sem fricção.
Não há intimidade sem risco.
Não há humanidade sem exposição.
O cringe, quando usado como arma, não protege — empobrece.
Ele não refina — esteriliza.
Ele não moderniza — coloniza.
E talvez o efeito mais silencioso desse processo seja este:
uma geração inteira treinada para se expressar perfeitamente,
mas cada vez mais insegura para sentir acompanhada.
O esvaziamento da intimidade
Quando eliminamos a fricção, eliminamos também a nuance emocional. Relações sem atrito parecem seguras, mas são rasas. Comunidades sem risco parecem organizadas, mas são frágeis. Uma vida sem exposição emocional pode até parecer eficiente — mas não é viva.
Ironia demais vira anestesia.
Distanciamento demais vira medo.
Autossuficiência performada vira solidão.
E agora?
Agora, eu acredito que precisamos resgatar o que é cringe.
Resgatar a suavidade.
Parar de sumir da vida dos outros por medo de sentir demais.
Parar de esconder amor atrás de ironia.
Voltar a sentir — mesmo sem garantias.
Porque ser humano é bagunçado.
Ser humano é intenso.
Ser humano é, inevitavelmente, cringe.
Talvez o gesto mais radical do nosso tempo seja esse: ousar sentir em público. Ousar se importar. Ousar tocar e ser tocade — mesmo tremendo.
Eu ainda acredito na nossa capacidade de nos conectar de verdade.
Não apesar do cringe.
Mas através e além dele.