Pornografia da Violência: conflitos internos, cancelamento e maturidade emocional nos movimentos LGBTQIAP+
Introdução: conflitos internos em movimentos de emancipação
Movimentos sociais historicamente oprimidos não estão imunes a conflitos internos. No caso do movimento trans brasileiro — ao longo de duas décadas de pesquisa, atuação política e convivência direta nesse campo — tenho observado um aumento significativo de disputas internas que se manifestam por meio de cancelamentos públicos, acusações de ilegitimidade e tentativas de exclusão simbólica de corpos e identidades dissidentes dentro dos próprios movimentos trans.
Nesse cenário, começa a emergir aquilo que tenho chamado de transnormatividade: a tentativa de estabelecer um modelo único e legítimo de experiência trans, muitas vezes promovido por algumas organizações que se identificam como transexuais e que passam a deslegitimar outras expressões da transgeneridade — especialmente identidades não binárias ou experiências de gênero mais fluidas. Essa postura frequentemente parte de um mal-entendido profundo sobre a interlocução entre sexo e gênero, como se fossem categorias fixas e mutuamente determinantes, ignorando décadas de reflexão teórica e política que demonstram justamente o contrário.
A noção de “Ditadura do Mais Fraco” oferece uma chave interpretativa para compreender como sujeitos socialmente vulnerabilizados podem, em determinados contextos, reproduzir práticas de dominação simbólica entre pares, deslocando o eixo da luta da crítica estrutural para o conflito intragrupal.
Do ponto de vista político, movimentos identitários operam em torno da disputa por reconhecimento (Fraser, 2000). Contudo, quando a política do reconhecimento se transforma em política de pureza, instala-se um regime de vigilância moral no qual divergências estratégicas, teóricas ou existenciais passam a ser interpretadas como traição.
Foi possível observar esse tipo de dinâmica recentemente na polêmica envolvendo a série Dona Beja (2026), produzida pela Max/HBO, quando emergiram debates atravessados por tentativas de deslegitimação da existência e da representatividade de pessoas trans não binárias.
Estudos sobre movimentos sociais apontam que a fragmentação interna é um dos principais fatores de enfraquecimento político (Melucci, 1996). No caso brasileiro, entretanto, ainda vemos parte da militância trans direcionar sua energia para disputas internas — inclusive contra iniciativas que buscam construir unidade, como a Marcha do Orgulho Trans de São Paulo. A criação de novas caminhadas e paradas, que poderia representar expansão e articulação de alianças, muitas vezes surge marcada por disputas por espaço simbólico e protagonismo.
Em determinados momentos, essa disputa ultrapassa o campo legítimo da divergência política e passa do nível de disputa de narrativas para práticas de sabotagem, campanhas de deslegitimação e articulações nefastas, que lembram, em sua lógica de hostilidade e mobilização de ressentimento, estratégias já conhecidas na política brasileira contemporânea — muito semelhantes às dinâmicas utilizadas pelo movimento bolsonarista. Quando isso acontece, o debate público deixa de ser um espaço de construção coletiva e passa a operar como um campo de guerra simbólica entre aquelas pessoas que deveriam, em princípio, compartilhar a mesma luta por dignidade e reconhecimento.
Cancelamento e a reprodução da lógica punitiva
Uma parte importante desta reflexão nasce da minha leitura do livro We Will Not Cancel Us, de Adrienne Maree Brown. Nele, a autora propõe uma crítica profunda à cultura contemporânea do cancelamento, especialmente quando ela ocorre dentro de comunidades que já vivem sob condições de marginalização.
Brown argumenta que o cancelamento se tornou frequentemente uma resposta automática a conflitos, especialmente nas redes sociais, muitas vezes protagonizado por grupos minorizados. Em vez de construir processos de diálogo, responsabilização e reparação, recorre-se rapidamente a mecanismos punitivos como:
- exposição pública
- vergonha coletiva
- expulsão social
- destruição de reputações
Essa dinâmica não apenas enfraquece as relações internas, mas também reproduz lógicas punitivas da própria estrutura social que historicamente oprime essas comunidades.
Segundo Brown, esse modelo cria um ambiente de medo e vigilância no qual as pessoas passam a agir com receio constante de cometer erros. Como resultado, desaparece o espaço necessário para aprendizado, transformação e amadurecimento coletivo.
A reprodução da lógica carcerária é um dos argumentos centrais de Brown é que a cultura do cancelamento frequentemente replica a lógica do sistema penal moderno. O processo tende a seguir um roteiro previsível:
- identificar culpados
- punir rapidamente
- excluir da comunidade
- não oferecer caminhos reais de transformação
Ou seja, mesmo dentro de movimentos progressistas pode surgir uma mentalidade punitiva, em vez de uma cultura baseada em justiça restaurativa ou transformativa.
Esse fenômeno torna-se particularmente problemático quando ocorre entre pessoas que já enfrentam marginalização estrutural, como:
- pessoas negras
- pessoas queer
- pessoas trans
- ativistas comunitários
Nesse cenário, a energia que deveria ser direcionada ao enfrentamento de sistemas de opressão passa a ser consumida por conflitos internos e vigilância entre pares.
A ausência de accountability se torna um dos grandes nós dessa crise interna na minha opnião. A palavra é mantida em inglês porque não possui equivalente preciso em português. Termos como responsabilidade ou reparação capturam apenas parcialmente seu significado.
Accountability implica:
- reconhecer erros
- assumir responsabilidade
- reparar danos
- aprender e transformar comportamentos
Enquanto isso, o cancelamento tende a encerrar a conversa, não abrir um processo de transformação.
Accountability exige maturidade emocional e disposição para sustentar as consequências das próprias ações. No entanto, muitos contextos sociais — especialmente aqueles marcados por violência histórica — não oferecem ambientes seguros para o desenvolvimento dessa maturidade relacional.
A Ditadura do Mais Fraco
A célebre frase de Oscar Wilde — “A pior forma de tirania que o mundo sempre viu é a tirania do fraco sobre o forte. Esta é a única forma de tirania que dura” — ecoa de forma cortante quando observamos os impasses contemporâneos dentro de movimentos sociais. Dentro das comunidades LGBTQIAP+, testemunhamos não apenas os efeitos do preconceito estrutural, mas também formas mais sutis de disfunção interna: o uso da vulnerabilidade como instrumento de poder simbólico.
É o que aqui se denomina ditadura do mais fraco. Essa dinâmica emerge de um campo coletivo marcado por traumas históricos. Experiências de exclusão, abandono e violência geram uma dor coletiva que, quando não metabolizada simbolicamente, pode se cristalizar em estratégias defensivas. Nessas situações, o sofrimento deixa de ser um caminho para a empatia e passa a ser utilizado como ferramenta de manipulação e controle.
Esse fenômeno pode ser descrito como pornografia da violência: a exposição repetitiva da dor como forma de chantagem moral ou capital simbólico, em vez de como processo de cura.
Trauma psíquico e regressão coletiva
A psicanálise oferece ferramentas importantes para compreender essas dinâmicas.
Melanie Klein, ao desenvolver a teoria das posições esquizoparanóide e depressiva, argumenta que a maturidade emocional implica a capacidade de reconhecer o outro como um ser separado, com desejos e limites próprios. Quando essa capacidade falha, emerge a necessidade de dividir o mundo entre “bons” e “maus”.
Essa lógica de cisão aparece frequentemente em conflitos militantes:críticas são interpretadas como ataques, divergências como violência, e o lugar de vítima torna-se um espaço de identificação narcisista.
Francis Tustin, ao estudar estados psíquicos relacionados ao trauma primitivo, descreveu processos de retraimento defensivo nos quais o sujeito se enclausura em estados sensoriais ou autoabsorvidos. Essa perspectiva ajuda a compreender por que, em certos contextos coletivos, o pensamento dialético e a escuta mútua tornam-se extremamente difíceis.
Já D. W. Winnicott destacou a importância de um ambiente suficientemente bom para o desenvolvimento psíquico saudável. Sem experiências de holding e segurança emocional, indivíduos podem permanecer presos a comportamentos regressivos, buscando no coletivo uma maternagem simbólica que nunca foi plenamente vivida.
Quando essa necessidade profunda não é reconhecida, ela pode se converter em exigência constante, controle e agressividade velada.
Narcisismo das pequenas diferenças
Sigmund Freud descreveu o fenômeno do narcisismo das pequenas diferenças como uma tendência humana de transformar diferenças mínimas entre indivíduos ou grupos extremamente semelhantes em conflitos intensos. Trata-se de um mecanismo psíquico de defesa: quando sujeitos compartilham origens, histórias ou condições muito próximas, a necessidade de afirmar singularidade pode levar à amplificação artificial de pequenas divergências.
Esse mecanismo aparece com frequência em movimentos identitários, como observamos no movimento Trans no Brasil. Coletivos que partilham experiências de marginalização semelhantes passam a disputar legitimidade simbólica, organizações sabotam iniciativas semelhantes, e lideranças competem por visibilidade em vez de colaborar. Nesse contexto, “o outro” torna-se ameaçador justamente porque se parece demais conosco. Ele desafia a centralidade da própria dor, da própria narrativa ou do próprio lugar de reconhecimento.
No Brasil, um exemplo dessa dinâmica pode ser observado em setores do que aqui chamo de transnormatividade, nos quais emergem tentativas de estabelecer hierarquias internas sobre quem seria “mais trans” ou “menos trans”, ou quais experiências de transgeneridade seriam consideradas legítimas. Esse processo revela menos uma disputa teórica consistente e mais uma reação defensiva diante da multiplicidade de expressões de gênero.
É nesse ponto que a reflexão retorna ao próprio título deste artigo. O que denomino “Ditadura do Mais Fraco” não se refere à fragilidade em si, mas à instrumentalização da vulnerabilidade como forma de poder simbólico. Quando a dor coletiva não encontra caminhos de elaboração psíquica e política, ela pode se transformar em capital moral — um recurso utilizado para reivindicar autoridade, silenciar divergências ou deslegitimar outros sujeitos igualmente vulneráveis.
Em termos psicanalíticos, trata-se frequentemente da manifestação de uma ferida narcísica não trabalhada. A experiência de exclusão social, violência e invisibilidade produz feridas profundas na autoestima individual e coletiva. Quando essas feridas não encontram espaços seguros de elaboração — seja no campo terapêutico, comunitário ou político — elas podem gerar mecanismos defensivos de projeção e ataque. O outro passa a carregar aquilo que o sujeito ou o grupo não consegue integrar em si mesmo.
Assim, conflitos internos que poderiam ser atravessados por processos de diálogo e maturação acabam sendo convertidos em disputas identitárias absolutas. O resultado é um ambiente no qual diferenças legítimas deixam de ser tratadas como parte da diversidade interna do movimento e passam a ser percebidas como ameaças existenciais.
Nesse sentido, a literatura psicológica aponta que a autoaceitação é um fator protetivo fundamental para populações marginalizadas (Neff, 2011).Por isso, a ética da compaixão não deve ser compreendida apenas como um princípio moral abstrato, mas como uma estratégia política de sobrevivência coletiva. Movimentos capazes de sustentar divergências internas sem recorrer imediatamente à exclusão tendem a apresentar maior longevidade, maior capacidade de articulação e maior impacto social.
Cultivar maturidade emocional coletiva — inclusive a capacidade de lidar com frustrações, críticas e diferenças — talvez seja uma das tarefas mais urgentes para movimentos que buscam não apenas reconhecimento, mas também transformação social duradoura.
Uma nova ética de pertencimento
Superar os impasses atuais exige deslocar o foco da pureza identitária para a construção de alianças plurais.
Como uma pessoa trans, não binária e queer, situada entre o trauma e a transcendência, proponho que estamos diante de um momento de rito coletivo. Precisamos de um novo pacto ético que supere o moralismo identitário, a tirania da dor e o narcisismo das pequenas diferenças.
Isso implica desenvolver maturidade emocional para sustentar frustração, erro e divergência sem romper imediatamente os vínculos. Pertencer não significa apenas compartilhar identidades ou experiências de dor. Pertencer significa sustentar a alteridade, reconhecer o outro em sua complexidade e continuar em relação mesmo diante da diferença. A diversidade somente deixará de ser um slogan quando se tornar uma prática concreta de escuta, responsabilidade e transformação.
Caminhos possíveis em uma cultura de transformação. Adrienne Maree Brown propõe que movimentos sociais desenvolvam práticas capazes de substituir a lógica punitiva por processos de transformação comunitária.
Entre essas práticas estão:
- justiça restaurativa
- mediação comunitária
- processos de escuta coletiva
- responsabilidade compartilhada
- espaços para aprendizado e reparação
A pergunta central deixa de ser “quem deve ser punido?” e passa a ser: Como lidar com as histórias criadas e se houver dano, como reparar sem destruir as pessoas?
Responder a essa pergunta talvez seja um dos maiores desafios éticos e políticos dos movimentos sociais contemporâneos.
Referências
American Psychiatric Association (APA). (2022). Mental Health Disparities: LGBTQ+ Populations.
Brown, A. M. (2020). We Will Not Cancel Us.
Fraser, N. (2000). Rethinking Recognition. New Left Review.
Freud, S. (1930). O Mal-Estar na Civilização.
Human Rights Campaign. (2023). Understanding the Transgender Community.
Melucci, A. (1996). Challenging Codes: Collective Action in the Information Age.
Neff, K. (2011). Self-Compassion.
Ng, E. (2020). No Grand Pronouncements Here: Reflections on Cancel Culture.
Wilber, K. (2001). A Theory of Everything.
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