No Brasil, I Will Survive virou piada de afeminado. Cresci com medo dela. Entender de onde veio mudou tudo isso.
Uns anos atrás, publiquei no meu antigo perfil profissional sobre a história de hinos LGBTQIAP+. Para o mês do orgulho, pareceu certo revisitar essa pauta aqui na coluna, começando por um clássico absoluto: I Will Survive, de Gloria Gaynor.
A canção nasceu de um período difícil para a cantora. Escrita por Dino Fekaris após ser demitido da Motown, a letra chegou até Gloria num momento específico: ela havia sofrido uma queda grave no palco, ficado temporariamente paralisada da cintura para baixo, passado por uma cirurgia na coluna e perdido a mãe em pouco tempo. Quando leu a letra, a identificação foi imediata.
A gravadora não apostava nela
I Will Survive foi lançada como b-side de um single, o descarte de uma música que acabou virando uma das mais tocadas da história do disco. Gloria e seu marido não esperaram o mercado descobrir isso sozinhos: levaram cópias diretamente para o DJ Richie Kaczor, do Studio 54, em Nova York.
Nas pistas, a música encontrou seu público
A comunidade LGBTQIAP+ vivia os primeiros anos da crise da AIDS, e as discotecas eram um dos poucos lugares onde essas pessoas podiam existir sem pedir licença.
I Will Survive se tornou um sucesso global dentro desse contexto, carregando um peso que a composição original talvez nem imaginasse ter.
De certa forma, o que aconteceu com a canção nas pistas guarda semelhanças com o que a cultura queer fez com os espaços que lhe restavam ao longo de décadas: habitar o que foi deixado de lado e transformá-lo em arquivo de resistência.
No Brasil, o caminho foi outro.
Cresci ouvindo paródias que usavam a canção para ridicularizar homens afeminados. Qualquer pessoa dissidente que viveu os anos 2000 conhece bem o terror de ouvir a temida Vai, Wilson, Vai.
Na minha vivência, a música quase sempre vinha acompanhada de comentários que me atingiam diretamente, era o sinal de que o bullying estava prestes a começar.
A violência tem esse poder: ela se cola a uma música, a uma palavra, a um gesto, e faz com que você passe a odiá-los antes de entender o que eles realmente significam. Não por acaso, ela raramente termina numa única frente.
Crescer significou mudar a relação com isso.
Muitas pessoas LGBTQIAP+ foram compreendendo de onde a canção veio e o que ela representou para outras gerações: a recusa de deixar que as dificuldades fossem permanentes, o direito de sobreviver.
Recusar I Will Survive como símbolo negativo foi um movimento político, consciente ou não, e também um gesto de cura.
A canção continuou se expandindo.
O medley Survivor/I Will Survive em Glee, série criada pelo também LGBTQIAP+ Ryan Murphy, deu à música um novo fôlego para uma geração que não viveu a era disco.
O mashup com Hush; Hush das Pussycat Dolls e, mais recentemente, o sample pelo grupo de k-pop IVE, que dialoga com o mesmo caminho que artistas como Kim Petras percorreram ao dobrar a indústria musical às suas condições, mostraram que a música continua sendo um ponto de chegada para quem precisa dizer que passou pelo pior e está de pé.
Essas versões fazem algo que vai além da homenagem: pegam uma canção que, para muitos de nós, foi sinônimo de ser alvo de chacota por ser quem se é, e devolvem a ela o que sempre foi seu, a força de quem sobrevive.
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