“Por mais domesticada que seja, a sexualidade permanece uma das forças demoníacas da consciência humana” — Susan Sontag (1933-2004), no ensaio The Pornographic Imagination (“A imaginação pornográfica”), de 1967.
Há seis anos o jornalista e fotógrafo Eberson Teodoro criou o site Homem de Cueca, em um esforço de reflexão, a partir das imagens, sobre a sexualidade LGBTQIAP+, especialmente a do homem gay cis. “Comecei a estudar o nu masculino ainda na faculdade de Jornalismo. O tema inclusive foi meu TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] na Pós-graduação”, conta o profissional em entrevista à coluna.
Eberson já fotografou mais de 300 homens, além de clientes particulares que não desejam que seus cliques sejam divulgados no site. No portal, todos os ensaios têm fotos liberadas para acesso público, mas o fotógrafo rentabiliza o trabalho a partir de imagens sem censura, com nudez frontal, por meio de planos mensais, anuais e vitalícios.
Apenas uma cueca branca
Em uma peça publicitária na cidade onde atua, Balneário Camboriú (BC), no Litoral Norte de Santa Catarina (SC), o fotógrafo decidiu ser poético. Em um outdoor, Eberson exibiu uma foto do modelo e bailarino Marcos Vinícius em pose sentado no chão trajando apenas uma cueca branca. Na campanha, é possível ler: “Não estamos vendendo cueca. Acesse: fotodehomem.com“. Sem nudez frontal, sem ereção, sem apelo sexual explícito. Apenas um homem sentado ao chão de cueca branca.
Imagem: Outdoor de divulgação do site fotodehomem.com
A divulgação ficou exposta por duas semanas, até o vereador Alessandro Teco (Democracia Cristã) protocolar um pedido junto à Prefeitura local solicitando a retirada do anúncio. “Recebi a intimação da Prefeitura me dando 24 horas para retirar a imagem do outdoor, que estava programado para ficar mais duas semanas na cidade”, explica Eberson. O documento é assinado pela Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de BC, que argumenta que a publicidade deve ser retirada por estar “em desacordo com o disposto no Art. 67, alínea ‘d’, da Lei Municipal nº 300/1974”.
Tal legislação, de mais de cinco décadas, institui o Código de Normas e Instalações Municipais de Balneário Camboriú. Em seu artigo 67, o documento determina que é “expressamente proibida a colocação de ‘anúncios'” em seis situações. A alínea “d”, citada na intimação, estipula: “Quando sejam escandalosos, em linguagem ou alegorias, ou contenham dizeres ofensivos à moral e aos bons costumes, bem como, quando façam referências desfavoráveis a indivíduos, instituições ou credos políticos e religiosos”.
Em 2023, a regulamentação passou por uma atualização a partir do Projeto de Lei Ordinária nº 93/2023, apresentado pelo vereador Kaká Fernandes (PL). As proibições citadas na alínea descrita acima, contudo, não foram retiradas — anacrônicas, mas sobreviventes de um conservadorismo que ganhou força nos últimos anos. Eberson acatou a intimação e cedeu, por cautela, à pressão do legislador.
“O vereador em questão vende essa imagem de ser ‘pai, cristão e conservador’. É um prato cheio para o eleitorado de direita no Brasil. Não me causa nenhum espanto que a denúncia tenha partido de um parlamentar com este perfil”, afirma o fotógrafo. No pleito de 2020, Teco elegeu-se para seu primeiro mandato como vereador em BC. Em 2024, foi reeleito com 1 mil votos. Em suas redes sociais, propaga mensagens de apoio a Jair Bolsonaro e ataca diretamente o atual presidente, Lula da Silva (PT). A coluna solicitou um posicionamento ao parlamentar que, até a publicação deste texto, não deu retorno.
É perigo, é afronta
Fotógrafo: Eberson Teodoro
À primeira vista, o ocorrido parece mais um caso de conservadorismo excessivo — uma ação de preservação da “moral e dos bons costumes” apoiada em instrumentos institucionais e jurídicos. Mas vale forçar um pouco a vista e entender as entrelinhas.
A imagem em si não tem nada de pornográfico ou socialmente inaceitável para uma via pública. O desconforto vem do site indicado no letreiro: produzido por um homem gay, que erotiza o corpo de outros homossexuais. “Homem de Cueca” é uma expressão queer, uma ode ao desejo sobre o corpo masculino, uma sede ao falo. Sites como Ssexbbox e o próprio fotodehomem.com operam nesse mesmo território — onde o desejo masculino gay se recusa a ser invisível. É perigo, é afronta e, também, é resistência.
Susan Sontag criticou a tendência de tratar toda representação sexual como algo inferior ou moralmente condenável. Em seus ensaios, argumentou que determinadas obras rotuladas como pornográficas podem carregar valor estético, filosófico e artístico. O Homem de Cueca encontra ecos nas reflexões da ensaísta.
A “imaginação pornográfica” descrita por Sontag segue presente nos embates contemporâneos sobre moralidade. Neste caso, o desconforto reside menos na exposição do corpo em si e mais nos desejos e identidades que esse corpo representa. E, mais que isso: nos desejos que sua exibição permite emergir a quem o contempla. A questão nunca foi um homem sentado no chão de cueca branca. A questão é para onde esse corpo aponta.
Rafael Nascimento é um jornalista homem gay cis natural da Baixada Fluminense com mais de sete anos de experiência. Já desempenhou funções como editor, repórter e produtor de conteúdo em diferentes veículos. É graduado pela Universidade Veiga de Almeida e pós-graduando em Direitos Humanos e Questões Étnico-Sociais pela PUC-PR. É jornalista na Secretaria de Cultura e Turismo de Duque de Caxias e editor freelancer na Marie Claire. Foi editor de Homepage e Redes Sociais no Portal iG. No mesmo site, foi repórter e depois promovido a editor em Queer, atuando na pauta de Sexualidade LGBTQIAPN+. Foi repórter freelancer na Editoria E+ (Cultura, Comportamento e Entretenimento) do Estadão e trainee no 11º Curso de Jornalismo Econômico, também do jornal paulista. Participou do “Lab 99 + Folha de São Paulo: Tecnologia para Todos” em que produziu e apresentou o podcast “Dinheiro para Todos: Bancarização e Soluções Digitais”. O projeto levou o 2º lugar no Prêmio 99 de Jornalismo.
No Instituto [SSEX BBOX] realizamos projetos e advocacy que visam destacar a diversidade, inclusão e a equidade sobre os temas de gênero, sexualidade, população LGBTQIAP+, raça, etnia e pessoas com deficiência.
As ações do Instituto incluem apresentar ferramentas, conteúdos educacionais, e soluções estratégicas visando o exercício do olhar interseccional para grupos sub-representados. Nossas atividades tiveram início em 2009, a partir de uma série de webdocumentários educacionais que exploram temas da sexualidade e gênero para promover mudanças sociais com base nos direitos humanos.