COLUNA

Rafael Nascimento

[ele/dele]

Jornalista com mais de sete anos de atuação. Foi editor e repórter de Sexualidade LGBT+ no Portal iG

Adeus, Dolly, te amaremos para sempre

Uma aliada de verdade, há anos Dolly Parton vinha demonstrando seu apoio explícito à comunidade LGBTQIAPN+, mesmo com uma fã base conservadora característica da música country. A cantora faleceu nesta terça-feira (25), aos 80 anos

Ao longo de seis décadas, Dolly Parton encantou o mundo com sua voz única, sua genialidade como compositora e sua doçura que fazia todos seus admiradores se sentirem acolhidos e seguros – especialmente a comunidade LGBTQIAPN+. A cantora comumente apoiou em alto e bom som seus fãs queers, embora tenha sido uma das maiores artistas country da história dos Estados Unidos – gênero conhecido por suas características anti-diversidade.

“Dolly faleceu pacificamente hoje em Nashville, Tennessee. Ela tinha 80 anos”, dizia a mensagem publicada no perfil do Instagram oficial da cantora, que nos deixou nesta terça-feira (25).

Dolly nasceu em 19 de janeiro de 1946. Após concluir o ensino médio em 1964, se mudou para Nashville para seguir carreira na música country. Dez anos depois compôs um dos maiores sucessos de todos os tempos, “I Will Always Love You”. A música é uma homenagem à Porter Wagoner, que levou a cantora à televisão norte-americana e formou dupla com ela entre as décadas de 60 e 70. A canção é uma despedida ao duo quando Parton decidiu seguir carreira solo. Whitney Houston eternizou o hit na trilha sonora de “O Guarda-Costas”, em 1992.

Uma rainha essencialmente camp, com todo seu brilho e opulência, até seus últimos momentos de vida, Dolly é há muito tempo um ícone para comunidade LGBTQIAPN+, e celebrada, especialmente, na cultura drag. 

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A admiração não estava apenas na forma como Parton se apresentava, mas também no seu apoio tangível às pessoas da comunidade. Ela era uma aliada de verdade. Na década de 1990, a cantora já incentivava seus fãs a aceitarem o público queer em sua música. Ela, inclusive, chamou a atenção de cristãos por discriminação contra a comunidade e apoiou publicamente o casamento LGBT+.

“Todos somos filhos de Deus. Somos quem somos e deveríamos ter a permissão de sermos quem somos. Se você é um bom cristão, por que está julgando as pessoas? Esse é o trabalho de Deus, não o nosso. Deveríamos amar uns aos outros e não julgar. Se você é gay, é gay, se é hétero, é hétero”, disse ela em entrevista à Larry King, em 2016.

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Recentemente, a estrela denunciou abertamente projetos de lei anti-trans e anti-drag que vêm ganhando força nos Estados Unidos. “Eu vejo como eles ficam de coração partido com certas coisas e sei o quão reais eles são [a comunidade trans]… Eles não podem mudar isso, assim como eu não posso deixar de ser a Dolly Parton”, disse em entrevista ao The Hollywood Reporter, em 2023.

Além de suas declarações em apoio à comunidade, Dolly também utilizou de sua sensibilidade artística para trazer luz à discriminação contra as pessoas LGBTQIAPN+. Suas músicas tocaram o coração de milhares de pessoas ao redor do mundo.

Lançada em 1971, “Coat of Many Colors” é uma faixa profundamente autobiográfica sobre a infância pobre de Dolly e narra o episódio em que sua mãe costurou um casaco feito de retalhos de panos velhos. Ao usá-lo na escola, Dolly foi ridicularizada pelos colegas. A experiência lhe gerou um trauma, o que foi ressignificado na música, que enaltece a superação da rejeição e a transformação da vergonha em orgulho – conexão direta com a comunidade queer.

Outro hino, “Family”, lançado no início dos anos 90, desconstrói a ideia da família perfeita e tradicional. A música celebra os laços afetivos com suas imperfeições e individualidades. A faixa se tornou um hino de acolhimento para muitos jovens rejeitados por suas famílias biológicas ao se revelarem integrantes da comunidade LGBT+.

Na década seguinte, em 2005, Dolly foi – mais uma vez – audaciosa ao compor a música “Travelin’ Thru’”, para o filme “Transamerica”, um dos pioneiros em Hollywood a falar sobre a experiência trans, embora a produção tenha sofrido críticas por sua condução sobre a pauta. O descontentamento respingou em Parton, que desagradou parte de sua base de fãs conservadora. Contudo, ela não recuou e ainda recebeu sua segunda indicação ao Oscar pela canção.

Todos estes feitos, e uma porção de outros, para além do apoio à comunidade queer, mostram que Dolly utilizou de sua influência e impacto para dar voz a causas que sofrem com a opressão e a violência – mesmo que não fosse necessário ou bem-vindo, especialmente no ambiente em que a cantora fez fama, o da música country. 

Ela desempenhou esse papel com muito brilho, alegria e o mais importante – muito amor. Dolly nos ajudou a imaginar novos cenários e a realizar, a partir dela, a fantasia de ser uma superestrela rodeada de beleza e luz. 

Com suas roupas, penteados, unhas, adereços e muita extravagância, a rainha camp acalentava corações partidos, almas perdidas e pessoas sem expectativas de uma vida mais doce ou acolhedora. 

Ela era sensível e dura, leve e séria, defendia seus ideais e oferecia uma palavra de consolo através de sua liricidade… Era muitas em uma só, como todos os ícones que a comunidade LGBTQIAPN+ elege para chamar de seu.

Dolly é do tempo das fitas cassetes, das vitrolas, dos vinis e dos programas de televisão em preto e branco, mas sua arte perdurou, transcendeu aos CDs e chegou à era do streaming. Ela se foi, mas permanece. Sortudos somos nós que teremos para sempre Dolly Parton. We will always love you!

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Rafael Nascimento

[ele/dele]

Rafael Nascimento é um jornalista homem gay cis natural da Baixada Fluminense com mais de sete anos de experiência. Já desempenhou funções como editor, repórter e produtor de conteúdo em diferentes veículos. É graduado pela Universidade Veiga de Almeida e pós-graduando em Direitos Humanos e Questões Étnico-Sociais pela PUC-PR. É jornalista na Secretaria de Cultura e Turismo de Duque de Caxias e editor freelancer na Marie Claire. Foi editor de Homepage e Redes Sociais no Portal iG. No mesmo site, foi repórter e depois promovido a editor em Queer, atuando na pauta de Sexualidade LGBTQIAPN+. Foi repórter freelancer na Editoria E+ (Cultura, Comportamento e Entretenimento) do Estadão e trainee no 11º Curso de Jornalismo Econômico, também do jornal paulista. Participou do “Lab 99 + Folha de São Paulo: Tecnologia para Todos” em que produziu e apresentou o podcast “Dinheiro para Todos: Bancarização e Soluções Digitais”. O projeto levou o 2º lugar no Prêmio 99 de Jornalismo.
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