COLUNA

Gil Araújo

[Ela/Dela]

Gil Araújo é jornalista e escreve sobre gênero, direitos humanos e cidadania democrática.

Benvenutty: um legado travesti na política brasileira

Em algum lugar entre a memória e o futuro, uma travesti continua fazendo campanha. Talvez seja essa a melhor maneira de falar sobre Fernanda Benvenutty hoje.

Não como quem olha para uma fotografia antiga e enumera os feitos de uma trava que já não está aqui, mas como quem reconhece, no presente, os rastros de uma existência que ainda movimenta outras. Fernanda morreu em fevereiro de 2020, mas há coisas que não terminam quando o corpo termina. Há sonhos que permanecem circulando. Há gestos que encontram outras mãos. Há sobrenomes que deixam de ser apenas sobrenomes e passam a funcionar como compromisso. É assim que eu penso quando vejo Gabi Benvenutty se apresentar como candidata a depuTRAVA federal pela Paraíba: há uma travesti fazendo campanha para chegar ao Congresso Nacional carregando no nome uma história que começou antes dela.

Fernanda nasceu em 1962, em Remígio, no interior da Paraíba. Ainda adolescente, foi expulsa de casa por ser travesti e por se apaixonar por rapazes. Encontrou acolhimento no Circo Babilônia, onde começou a trabalhar como palhaça. Depois, em João Pessoa, conciliou o trabalho como empregada doméstica com os estudos em enfermagem e, mais tarde, tornou-se parteira na Maternidade Cândida Vargas. Vestida de branco, com sua maleta de enfermeira, atravessava a cidade para chegar ao trabalho. Parece uma imagem banal, mas talvez seja justamente aí que esteja uma das dimensões mais profundas de sua política: uma travesti existindo no cotidiano, trabalhando, estudando, cuidando de outras pessoas e se recusando a desaparecer.

Fernanda entendeu cedo que sobreviver também exigia organização. Em 2002, fundou a Astrapa, a Associação das Travestis da Paraíba, e passou a disputar institucionalmente aquilo que durante muito tempo parecia impossível até de ser nomeado. Queria fundar uma associação, escrever um livro, ocupar cargos públicos. Foi candidata a vereadora em João Pessoa em 2004 e 2008 e, em 2010, disputou uma vaga de deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores, quando recebeu 2.782 votos. Não foi eleita. Mas há derrotas que não podem ser medidas apenas pelo resultado da urna. Fernanda estava ensinando uma geração inteira de travestis que também era possível disputar o lugar onde as decisões eram tomadas.

Em 2004, esteve entre as protagonistas da campanha nacional “Travesti e Respeito”, que ajudaria a consolidar o 29 de janeiro como Dia da Visibilidade Trans e a fortalecer políticas públicas de prevenção ao HIV/AIDS. Participou de comissões em Brasília, discursou na Câmara dos Deputados, foi conselheira nacional de saúde e chegou a ser cotada para assumir a Coordenação Nacional LGBT. Na Paraíba, ajudou a pensar o primeiro Centro de Referência LGBT do estado, experiência que mais tarde seria ampliada e institucionalizada no atual Espaço LGBT. Na cultura, fundou escolas de samba, costurou fantasias, organizou desfiles e transformou o Carnaval em mais uma avenida de sua militância. Fernanda fazia política onde pudesse fazer política: no gabinete, na rua, na escola de samba, no posto de saúde, na parada de ônibus.

Talvez por isso seja tão importante lembrar que ela queria ser parlamentar. Não porque uma cadeira no Congresso seja o destino natural de uma travesti, como se a política institucional fosse a única forma legítima de produzir transformação. Mas porque Fernanda sabia que certos espaços de poder precisam ser disputados por aqueles que historicamente foram impedidos de chegar até eles. Em 2015, durante o programa Dialoga Brasil, sua fala começava com uma cobrança direta ao Estado brasileiro: “O país precisa resolver o problema de homicídio das populações ou dos grupos vulneráveis como LGBTs, indígenas, jovens negros, mulheres e outras populações que são as que mais morrem neste país”. Não era uma fala abstrata. Fernanda conhecia o país a partir do corpo travesti, nordestino e negro, e sabia que sobreviver individualmente nunca seria suficiente.

Quando Fernanda morreu, aos 57 anos, vítima de um câncer no estômago, sua história poderia ter sido empurrada para o lugar confortável da homenagem. Poderíamos lembrar suas fotografias, seus discursos, suas campanhas, seu trabalho, publicar textos em datas comemorativas e seguir adiante. Mas algumas memórias se recusam a ficar paradas. Pouco depois, em João Pessoa, travestis jovens começaram a se reunir e fundaram a Casa das Benvenutty, um coletivo político-cultural que encontra na cultura Ballroom, na arte e na organização comunitária formas contemporâneas de continuar aquela disputa. O sobrenome virou casa. Virou encontro. Virou salto. Virou voguing. Virou política.

É nesse ponto que Gabi aparece.

Travesti, negra, ativista dos direitos humanos e produtora cultural, Gabi Benvenutty é uma das fundadoras da Casa das Benvenutty. Sua trajetória passa pelo movimento estudantil, pela militância LGBTQIA+ e pela produção cultural ligada à comunidade Ballroom. Em 2024, disputou uma vaga na Câmara Municipal de João Pessoa e recebeu 3.462 votos, ficando na suplência. Agora, tornou-se a primeira candidata trans da história da Paraíba a disputar uma vaga de deputada federal.

Gabi não esconde de onde vem. Ao anunciar a candidatura, falou diretamente sobre o sonho de Fernanda: “Era o sonho dela ser parlamentar. Nós somos a continuidade desse sonho e iremos realizá-lo!!!!”. E fez questão de responder a uma questão que talvez apareça sempre que uma nova geração assume o nome de uma pioneira: “Falar da Fernanda, pelo contrário, Benvenutty é em homenagem à sua história e legado, nós somos a continuidade viva desse legado”.

Eu gosto dessa ideia de continuidade viva porque ela nos obriga a pensar o legado de outra maneira. Legado não é uma estátua. Não é uma fotografia emoldurada na parede. Não é aquilo que deixamos para trás depois que morremos. Para uma população que durante tanto tempo precisou lutar até mesmo pelo direito de permanecer viva, legado pode ser aquilo que uma travesti constrói para que outra encontre menos escombros pelo caminho. Pode ser uma associação. Um centro de referência. Uma campanha. Uma escola de samba. Uma roda de conversa. Uma casa. Um sobrenome. Um modo de responder à transfobia sem pedir licença para existir.

Fernanda abriu caminhos que continuam sendo percorridos por outras travestis. E isso não significa que a estrada tenha ficado fácil. Se hoje celebramos a presença cada vez maior de pessoas trans na política institucional, também sabemos o tamanho da violência que acompanha esses corpos quando eles decidem ocupar o espaço público. A eleição de uma travesti continua sendo tratada como acontecimento extraordinário porque a política brasileira ainda é organizada para fazer da presença dessas pessoas uma exceção.

Por isso a candidatura de Gabi importa. Não apenas porque uma travesti está tentando chegar ao Congresso, mas porque ela chega dizendo que quer disputar aquilo que estrutura a vida de todo mundo: orçamento, políticas públicas, cultura, direitos, trabalho, território. “Não podemos enfrentar os desafios do presente e do futuro com as ideias do passado”, diz Gabi. Sua candidatura nasce, segundo ela, da necessidade de uma “voz e representatividade ativa”. É uma formulação importante: não basta estar na fotografia. É preciso participar da decisão sobre o que será fotografado.

Talvez seja esse o salto entre Fernanda e Gabi. Fernanda passou décadas ensinando que uma travesti podia entrar. Gabi agora quer saber o que acontece quando, depois de entrar, essa travesti começa a disputar o orçamento, o Estado e o futuro. Uma não substitui a outra. Uma não apaga a outra. A segunda existe porque a primeira, junto de tantas outras, insistiu em construir as condições para que esse caminho pudesse ser imaginado.

E talvez seja justamente por isso que o nome Benvenutty não seja apenas uma homenagem. É uma convocação.

Fernanda nunca foi deputada federal. Seu nome não apareceu entre os eleitos para o Congresso. Mas há uma maneira mais generosa — e mais travesti — de olhar para uma história política do que reduzi-la àqueles que venceram uma eleição. Fernanda perdeu algumas urnas e venceu outras disputas que não cabiam na urna. Conseguiu fazer com que uma travesti fosse vista como candidata, militante, enfermeira, sambista, dirigente, conselheira, trabalhadora, sujeito político. E talvez uma das maiores vitórias de uma pioneira seja fazer com que, depois dela, outras consigam sonhar com lugares que antes pareciam interditados.

Hoje, uma dessas travestis está em campanha. Tem nome, projeto e uma história que não começa nela. Gabi Benvenutty quer chegar à Câmara dos Deputados para realizar um sonho que Fernanda não conseguiu realizar em vida. Mas talvez Fernanda tenha deixado algo ainda maior: o traquejo necessário para que outras travestis aprendessem a sonhar em liderar.

O futuro é uma travesti lembrando que vive uma nas outras. É Fernanda permanecendo em Gabi como gesto, coragem e possibilidade. É uma geração aprendendo com a outra os traquejos necessários para ocupar o mundo, disputar a política e inventar caminhos onde antes só havia interdição. Talvez seja isso que um legado travesti tenha de mais bonito: nunca se caminha completamente sozinha. Há sempre uma que veio antes abrindo passagem, e outras que virão depois ampliando, é a encruzilhada. 

E o futuro leva o nome dela(s).

Só até aqui. 

COLUNISTA

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Gil Araújo

[Ela/Dela]

Gil Araújo é jornalista com foco em gênero, direitos humanos e cultura, atuando na produção de reportagens que ampliam vozes historicamente silenciadas e contribuem para o debate público qualificado. Sua trajetória é marcada por apuração rigorosa, escuta sensível e compromisso ético com fontes em situação de vulnerabilidade, especialmente mulheres, população LGBTQIAPN+ e comunidades periféricas. Ao longo de sua carreira, Gil tem priorizado pautas sobre violência de gênero, políticas públicas, acesso à justiça, desigualdades estruturais e iniciativas de promoção da cidadania. Seu trabalho inclui o acompanhamento crítico de políticas públicas, conselhos de direitos e programas institucionais, além da produção de conteúdos que evidenciam avanços, retrocessos e lacunas na garantia de direitos. Entende o jornalismo como instrumento de incidência democrática, capaz de tensionar estruturas, informar e tornar mais visível o trabalho de corpos historicamente marginalizados.
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