COLUNA

João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em

Conversa com Miss Tacacá sobre novos projetos e turnê na europa

Rock doido é o nome que Belém deu a um dos gêneros mais resistidos e ao mesmo tempo mais exportáveis da música eletrônica brasileira.

Miss Tacacá carrega essa sonoridade desde a própria festa de aniversário de dezoito anos até line-ups em Berlim, e chega em 2026 com turnê pela Europa ao lado de Pabllo Vittar e um projeto autoral em produção.

Nesta conversa com o [SSEX BBOX], a DJ e produtora paraense fala sobre a Sucuri Fest, o remix de “Mexe”, a curadoria do baile amazônico em Belém e o peso de levar um gênero regional para o mapa internacional da música eletrônica.

A Sucuri Fest já passou por Belém, São Luís, Fortaleza, Rio de Janeiro, Brasília e Goiânia. Como nasceu esse projeto e o que te fez apostar numa festa com essa identidade?

Meu primeiro contato com produção de evento foi aos dezoito anos, na minha própria festa de aniversário. Convidei tipo trezentas pessoas e já reuni bastante gente ali em Belém. Eu queria muito trabalhar com alguma coisa que não fosse convencional, até porque, do jeito que eu era, eu já não era padrão, entendeu? Depois dessa festa eu tive a Close, depois a Atacar, depois até a Notacá.

Só que eu pensei que nenhum desses eventos combinava com algo que eu quisesse arriscar aqui no Sudeste. Sempre tive muito medo de fazer festa no Sudeste, porque é um mercado extenso, existe muita festa, existe muito coletivo. Passei um tempo nessa busca de querer fazer um evento que tivesse a minha cara, que tivesse a minha identidade, e fiz a primeira edição da Sucuri Fest lá em Belém. Foi a primeira vez que levei a festa para lá. Fiz a segunda edição em São Luís do Maranhão, a terceira e a quarta em Fortaleza, depois no Rio de Janeiro, depois em Fortaleza de novo, já fiz em Brasília, já fiz em Goiânia.

Eu gosto muito de produzir. Acho que é mais uma vibe para eu exercitar e colocar em prática esse lugar de produtora que eu gosto. Às vezes eu me sinto trabalhando só com uma coisa, que é o meu trabalho principal como DJ, e eu amo esse trabalho, mas quando paro para fazer uma festa eu adoro me preocupar em organizar, em montar, em conversar com os artistas. Faço isso junto com o Pedro Meireles, que é meu sócio e me ajuda em absolutamente tudo, design, social mídia, pensa tudo junto comigo, é como um braço direito. Toda vez que estou fazendo uma Sucuri é porque, de certa forma, criei um envolvimento com aquele lugar, e para eu voltar ou ficar um pouco mais eu vou lá e faço uma festa, entendeu?

E uma coisa para complementar: o mais importante é que ela foi criada para ser uma festa de música eletrônica brasileira, focada mesmo na música eletrônica brasileira periférica e nas variantes que vêm dessa cena.

Você abre parte da turnê europeia da Pabllo Vittar em julho e já fala de um EP novo. Quais são os seus planos de expansão para este ano?

Agora em julho eu vou fazer uma turnê pela Europa com a Pabllo, vou abrir cinco dos sete shows dela. A gente vai fazer Dublin, Londres, Paris, Berlim e Amsterdam. É a minha terceira vez indo para a Europa em menos de um ano. O meu objetivo de expansão agora é crescer também no mercado internacional, cada vez mais indo para fora e fazendo, aqui no Brasil, o que eu mais amo fazer, que é festival.

Eu amo muito festival, amo assistir shows, festival é um lugar que eu gosto de ir. No início da minha carreira eu sentia falta de tocar em lugares que eu conhecia e tinha vontade de ir, e hoje em dia eu já toquei no meu festival favorito, que é o Rock the Mountain, e isso é muito legal. Acho que outro projeto de expansão, e aqui vai um spoiler que já dei em outra entrevista, é que estou elaborando o meu EP novo. Não sei ainda se vai ser EP, não sei se vai ser um álbum, mas estou trabalhando para a gente conseguir tirar esse projeto do papel e desenvolver uma roupagem nova da minha estrela real.

Você fez o remix de “Mexe” com a Pabllo Vittar. Como foi remixar essa música e qual foi o processo criativo?

Eu conheci a Pabllo há muitos anos atrás e a gente sempre meio que ficou de risadinha na internet, respondendo stories, essas coisas, até que eu toquei no primeiro Clube Vital lá em BH, na Trindade. Ela me chamou para o camarim dela, a gente estava conversando e ela virou para mim e falou assim: “ai, vai fazer o remix, mestre.” Aí eu falei: “mana, só joga no meu peito que eu faço.”

Um tempinho depois o empresário dela entrou em contato me convidando para fazer esse remix, e foi muito gratificante, porque eu ainda estou meio que no início dessa minha jornada como produtora musical. Eu sempre faço colaboração com outro produtor musical, porque a partir da direção musical dele sai uma coisa bem feita, junto com uma pessoa que é craque. E como eu sabia que a Pabllo é meio frita também, e eu estou nessa vibe de misturar vários tipos de música eletrônica junto com o rock doido, pensei nesse rock doido, mas eletrônico, com grave bem marcado. No final tem uma batida bem pesada. É isso que tenho feito, rock doido com tecnologia, várias misturinhas de coisas que eu gosto.

Você foi curadora do baile do Boiler Room que aconteceu no Pará. Como foi representar o Pará para um festival tão grande, que circula pelo mundo inteiro?

O meu primeiro Boiler Room foi em 2023, no Rock the Mountain, e foi quando conheci o Joe, que era meio que curador do baile. Depois do meu set ele foi no meu camarim agradecer por eu ter topado participar, e disse que em dez anos de Boiler Room nenhum DJ tinha feito um set inteiro de tecnomelody, de rock doido. Eu comecei a explicar para ele que aquilo é a música eletrônica da Amazônia, que rola nas periferias, como se fosse um funk, só que rola no norte do Brasil.

Fiz tudo isso meio falando em inglês, pedindo ajuda para os meus amigos traduzirem, e mostrei para ele vídeos das aparelhagens. Ele achou super f***. Meses depois eu falei “vamos fazer um Boiler Room Amazônia” e ele reagiu impressionado. Um tempo depois ele me mandou mensagem pedindo uma espécie de consultoria, para eu contar como foram construídas as aparelhagens do tecnobrega, do tecnomelody digital. Falei para ele que, se fosse fazer um projeto sobre isso, a gente precisava conversar melhor, e foi aí que ele me convidou para fazer a curadoria e a produção artística de um baile lá em Belém, patrocinado pela Havana Club.

O projeto era documentar cinco cenas de sound systems diferentes ao redor do mundo, e a primeira seria a gente, Belém do Pará. Foi quando tive a oportunidade de chamar minhas maiores referências do Pará, como o Crocodilo, a maior oportunidade que tive de conseguir chamar e tocar em cima do Crocodilo, chamar os DJs que produzem as músicas que eu toco. Foi uma grande oportunidade, muito gratificante. Na época parecia um sonho, foi uma explosão. Tenho muito orgulho disso, de ter corrido atrás, de ter feito essas coisas acontecerem e, de certa forma, ter colaborado para que a música que eu trabalho, que é a minha cultura, esteja onde está hoje.

Você começou como DJ na sua própria festa de aniversário. Naquele momento você já sabia que aquilo ia virar profissão, ou essa consciência veio depois?

A consciência disso veio totalmente depois, porque para mim aquilo era uma diversão que poderia me dar um retorno financeiro. Eu não via aquilo literalmente como um trabalho, até porque foi colocado muito na minha cabeça que trabalho de verdade é aquele em que a gente vai para um escritório, fica de tal hora até tal hora. Meus pais sempre trataram essas outras coisas, que não eram um trabalho de carteira assinada, como hobby. Na minha festa de aniversário eu fui a DJ da minha própria festa, e depois, quando fiz a primeira edição da festa mesmo, eu já era uma das pessoas que estava online, comecei a tocar meio que na minha própria festa, só que ainda não via muito aquilo como trabalho. Quando vim para São Paulo eu nem me jogava como DJ, nem falava que era DJ, só dizia que fazia faculdade.

Depois de um tempo, com conflitos com a minha família, de sair de casa, de voltar para Belém e ter esse discurso, comecei a enxergar aquilo como um trabalho e comecei a me oferecer para as pessoas para trabalhar dessa forma. Sempre acho muito doido, porque não foi meu sonho ser DJ. Ser DJ foi algo que foi meio trazido para mim, e que deu muito certo, que combina comigo, que eu gosto de fazer.

Você tem se aventurado a misturar o rock doido com outros gêneros eletrônicos. O que a gente pode esperar dos seus próximos projetos?

Eu já venho numa pegada underground experimental há um tempo, e acho que talvez venha uma roupagem experimental, mas que também seja comercial. Isso eu nunca explorei, porque para mim experimental e comercial andam lado a lado. Eu só quero fazer um trabalho bom, bonito, coerente, e sonoramente a minha cultura vai estar sempre presente, o rock doido. Eu quero mostrar as possibilidades desse gênero dentro da música eletrônica, porque ainda é muito difícil eu tocar em festas ou festividades de música eletrônica, porque as pessoas ainda enquadram o rock doido como música regional, como brasilidade, e não como música eletrônica. Quero mostrar que existe a possibilidade de misturar isso com outras vertentes da música eletrônica e que o meu trabalho esteja presente também nesses ambientes. É polarizar isso, no fim das contas.

Você é um dos nomes que ajuda a definir o que é o rock doido hoje. Você sente que aqui no Brasil as pessoas categorizam o gênero mais como regional, enquanto lá fora ele é recebido como música eletrônica?

Acho que sim, com certeza. Porque aqui no Brasil existe toda a questão da xenofobia: tudo que é do Norte, que é do Nordeste, é menosprezado. Isso já vem da questão do brega, que era chamado de música de velho, e do Tecnobrega, que também é fruto da pirataria, porque são outras músicas ampliadas e recombinadas. Existe uma construção de preconceito em cima disso aqui no Brasil. Só que quando chega lá fora as pessoas ficam encantadas, “gente, essa mistura louca é isso, parece uma cumbia com uma lambada com funk”, e ninguém sabe dizer exatamente o que é.

É nesse ponto que a gente nasce, e acho que é um bom momento, porque a gente vem numa crescente parecida com a do funk. O funk já é uma realidade, já faz parte do cenário da música global, e pelo que tenho sentido, escutando amigos, a galera lá fora já está ansiosa para conhecer o próximo gênero, um gênero de exportação forte, que faça cada vez mais sucesso. Quero estar em muitos lugares legais, ganhar dinheiro com isso, e é isso: lá fora eu tenho estado em muito mais lugares de música eletrônica do que aqui no Brasil.

Você sente que essa barreira cultural com o Sudeste ainda impede o rock doido de circular mais no eixo Rio-São Paulo?

Depende. Acho que falta um pouco mais de inclusão, mas já vejo que tem sido um movimento feito por pequenos coletivos. Ainda assim acho que é um gênero musical marginalizado, que as pessoas não olham muito, principalmente porque não são muitas pessoas que trabalham com esse gênero, não são muitas as que falam sobre isso, e aí outras pautas vão engolindo esse espaço e gerando outras urgências para quem contrata. Mas acredito no crescimento cada vez maior da música eletrônica paraense, e que essa barreira seja cada vez mais quebrada.

Você tocou em Berlim, um dos lugares mais referenciados da música eletrônica mundial. Como foi viver essa experiência pela primeira vez?

Tocar sempre foi um sonho, eu ficava pensando “será que um dia eu vou conseguir tocar nesse lugar”. Quando veio a proposta eu fiquei sem acreditar, achei que fosse fake. Era para participar de um festival em Berlim que faz colaboração com uma galeria de arte, e eu fui levada para fazer a abertura da galeria.

Acabou que tudo se encaixou, e nesse palco a gente fechou o set, a Clementine tocou antes de mim e eu fui a última. Foi ansiedade e emoção total. No dia eu estava muito ansiosa, cheguei bem perto da hora de tocar, tomei bastante champanhe, fiquei relax. Era uma pista menor, numa quinta-feira, não era um grande público, mas tinha várias pessoas ali conhecendo uma música nova, e foi muito legal. Saí de lá com vinte e cinco graus negativos, um frio enorme, e estava com tanta adrenalina no corpo que tirei a blusa no meio da neve. Foi babado.

Quem são os DJs brasileiros que você acompanha, com quem se inspira e já colaborou?

A Clementine, sem sombra de dúvida, é uma das minhas melhores inspirações e referências. Amo muito a Dona Gabi, o nome dela é Gabriela. A Clementine é uma pessoa com quem eu amo conversar, desabafar, contar da vida, e sempre que a gente tem oportunidade a gente se liga. Ela, sem falar nada, me ensina muito como pessoa e como profissional, e às vezes fico até emocionada falando dela, porque a conheci quando ela chegou em São Paulo, vi ela batalhadora correndo atrás do que era dela, e ver onde ela chegou hoje é muito bonito. Ela merece muito, quero ser igual a ela quando crescer.

Outros DJs que gosto muito e que estão comigo há tempo: o Spencer, da festa Bueiro, um dos meus melhores amigos aqui de São Paulo. A Bed Vi também, uma artista nova na cidade de São Paulo que toca demais, amo. Tem a Deusa Sexo, que amo demais, uma referência de ser humano lindo. Adoro as meninas do Cyberqueers, desde a Paulette, a Linda Selva. A David, de Recife, a Boneca AI, são amigas que admiro e gosto muito. Lá de Brasília tem a Alelos também.

Você vai para países novos com a Pabllo. O que você espera dessa turnê e o que costuma buscar quando viaja para fora?

Com certeza tenho feito network. Na primeira vez que fui já conheci um curador que me convidou para participar da Bienal de Singapura, que depois me chamou para participar da abertura de uma galeria de arte. Na segunda vez que fui já conheci um curador da China, e esse ano ainda existe a possibilidade de eu ir para lá, a gente só está vendo as melhores datas.

Agora com a Pabllo vou para países que nunca tinha ido antes. Antes eu só tinha ido para Berlim, na Alemanha, e para Amsterdam, nos Países Baixos. Agora vou conhecer a Irlanda, em Dublin, Londres, no Reino Unido, pela primeira vez, e Paris, na França, pela primeira vez. Estou muito animada. A única barreira que ainda tenho é a língua, porque não sou a melhor no inglês. Fui para o Chile no último final de semana, o primeiro país onde tive que falar espanhol, e foi uma experiência muito legal. Mas é isso: vou suar aquilo, dou a língua e vou vazar.

COLUNISTA

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João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

João Pedro Fontes, nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter com foco em cultura e identidade.
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