O [SSEX BBOX] NA XII SEMANA DA DIVERSIDADE DA ESCOLA POLITÉCNICA DA USP

Em junho de 2026, eu e o artista e pesquisadore australiane Audax M. Gawler fomos convidades a participar da XII Semana da Diversidade da Escola Politécnica da USP (SEDEP), organizada pela PoliPride. Criada em 2015, a SEDEP é hoje a maior e mais antiga semana de diversidade da Universidade de São Paulo, reunindo estudantes, pesquisadores, profissionais e empresas para ampliar o debate sobre diversidade por meio de palestras, rodas de conversa, apresentações artísticas e workshops.
Os objetivos da iniciativa são tão simples quanto necessários: promover a importância da diversidade na universidade e no mundo do trabalho, aproximar estudantes de organizações com atuação social e engajar o ambiente acadêmico em uma compreensão interseccional da diversidade.
Foi nesse contexto que fomos convidades a conversar não apenas sobre identidades de gênero, mas também sobre os desafios mais amplos do nosso tempo: como comunicar diferenças em um mundo cada vez mais polarizado? Como construir formas de pertencimento que não dependam de divisões rígidas? E que tipo de futuros precisamos imaginar diante das crises ecológicas, sociais e políticas que atravessamos?

“Como diria o histórico escritor queer Larry Mitchell, estamos atualmente entre revoluções. É justamente neste momento que precisamos estender a mão uns aos outres dentro da comunidade queer e trans, lembrar-nos da nossa resiliência, celebrar nossa beleza, nossas imaginações e nossa capacidade de construir mundos coletivamente. A paisagem política global está, mais uma vez, se fechando diante da diferença. Mas isso não significa o fim da diversidade — muito pelo contrário. A diversidade está se tornando cada vez mais comum e, por isso, as ideologias opressivas daqueles que buscam controlar por meio de divisões, categorias e binarismos encontram-se ameaçadas. E, diante disso, a comunidade trans seguirá em frente e continuará demonstrando uma polifonia de formas de viver, amar e prosperar em meio à adversidade. Os futuros da Terra serão diversos porque suas histórias também o são, assim como as próprias ecologias que a compõem. O futuro é fluido e, por isso, as pessoas trans serão suas guardiãs, tão familiarizadas como estamos com a adaptação, o sonho radical e a transição contínua. Conversar com estudantes queer e trans neste momento foi como falar no intervalo entre revoluções, entre uma respiração e outra. Foi uma alegria estar com pessoas que estão apenas começando sua experiência como adultes queer e mobilizá-las para os belos mundos que podemos construir juntes. Foi um lembrete de que ainda há muito por vir para todes nós, independentemente de nossa orientação, muitos horizontes ainda sendo forjados e construídos coletivamente. Foi um enorme prazer compartilhar visões e esperanças com todas as pessoas presentes e, esperamos, cultivar também alguma fortaleza e confiança de que, apesar destes tempos incertos, a comunidade queer possui tudo de que precisa não apenas para sobreviver às transições planetárias, mas para atuar como liderança dentro delas.”
___ Audax M. Gawler
O desafio de falar sobre gênero em um mundo simplificado
Uma das perguntas abordou as dificuldades que muitas pessoas ainda encontram para compreender conceitos relacionados à expressão de gênero, identidade de gênero, sexo e orientação afetivo-sexual.
Nossa resposta, além de explicar a diferença entre esses quatro pilares, foi que parte do problema nasce da tentativa de explicar experiências humanas profundamente complexas por meio de categorias excessivamente simplificadas. Sexo, gênero e orientação afetivo-sexual são dimensões distintas da experiência humana, mas frequentemente são confundidas entre si.
Vivemos em uma sociedade organizada há séculos por binarismos rígidos: homem e mulher, natureza e cultura, razão e emoção, nós e eles. Quando experiências trans e não binárias surgem, elas não desafiam apenas ideias sobre gênero. Elas revelam os limites desses próprios sistemas de pensamento.
Por isso, educação em diversidade não é apenas ensinar novas terminologias ou memorizar siglas. É desenvolver novas formas de conviver dentro da diferença e de imaginar a realidade. Trata-se de cultivar a capacidade de lidar com complexidade, ambiguidade e interdependência, competências que serão cada vez mais necessárias para navegar o século XXI.
O legado da Marcha do Orgulho Trans de São Paulo
Também fomos perguntados sobre o impacto da Marcha do Orgulho Trans de São Paulo na promoção da cidadania, empregabilidade e participação social de pessoas trans e travestis.
Compartilhamos que, quando iniciamos a Marcha do Orgulho Trans de São Paulo, em 2018, estávamos criando algo que ainda não existia no país com esse nome: a primeira Marcha do Orgulho Trans do Brasil. É importante reconhecer que, antes dela, diversos protestos e manifestações fundamentais pelos direitos da população trans já haviam acontecido em diferentes partes do país, sob outros formatos e denominações. Somos herdeires dessa história.
Mas, ao criar a Marcha, estávamos também criando um novo mundo possível. Foi um protótipo, e estávamos dizendo, de maneira concreta, que pessoas trans e travestis mereciam um espaço próprio de encontro, celebração, reivindicação política e imaginação coletiva. Estávamos abrindo uma nova possibilidade de existência pública para nossa comunidade.
Ao longo de nove anos, a Marcha tornou-se muito mais do que um evento. Ela funcionou como uma infraestrutura de imaginação social. Ajudou a ampliar a visibilidade de pessoas trans, impulsionou debates sobre inclusão profissional, aproximou empresas e instituições da pauta trans e permitiu que milhares de pessoas encontrassem referências de pertencimento, liderança e comunidade.
Ao mesmo tempo, compartilhamos uma realidade que muitas pessoas de fora dos movimentos LGBTQIAP+ nem sempre conseguem perceber: não existe um único movimento trans. Existem múltiplos movimentos, perspectivas políticas, experiências geracionais e linhas de pensamento distintas. Essa diversidade, em si, é uma riqueza.
Infelizmente, em muitos momentos, as diferenças deixaram de ser apenas diferenças. Partes do movimento passaram a se relacionar por meio de críticas extremamente duras, disputas de legitimidade, boicotes e conflitos que acabaram aprofundando separações e produzindo feridas reais dentro da própria comunidade. Em diversos capítulos da história da Marcha, experimentamos essas tensões de maneira muito próxima. Isso nos entristeceu profundamente.
Porque acreditamos que a diversidade de perspectivas poderia coexistir de maneira mais generosa e colaborativa. Afinal, um movimento tão plural quanto o nosso inevitavelmente produzirá visões distintas sobre política, linguagem, identidade e estratégias de transformação social.
Por isso, quando anunciamos o encerramento do nosso ciclo de liderança em 2026, essa decisão não nasceu de um único fator. Ela foi também o reconhecimento de que alguns ciclos precisam ser concluídos para que novos possam emergir. Sentimos que era o momento de deixar ir. Não como um gesto de desistência, mas como um gesto de confiança.
O ecossistema trans brasileiro cresceu, amadureceu e se diversificou. Novas vozes, novas organizações e novas lideranças estão surgindo. Parte do nosso papel agora é abrir espaço para que outras pessoas possam conduzir os próximos capítulos dessa história.
Porque a Marcha nunca pertenceu a uma organização específica. Ela pertence à capacidade coletiva de imaginar mundos onde pessoas trans e travestis possam existir com dignidade, segurança, alegria e possibilidade de futuro. E essa imaginação, felizmente, continua viva.
Para além do gênero: imaginando futuros transplanetários
Ao sermos questionades sobre os próximos passos do Instituto [SSEX BBOX], compartilhamos que estamos interessades em expandir a conversa para além das questões identitárias.
Vivemos uma época de múltiplas transições: climáticas, tecnológicas, econômicas e culturais. Diante desse cenário, acreditamos que a sabedoria produzida pelas experiências trans e não binárias, especialmente sua capacidade de habitar a mudança, negociar complexidades e construir pertencimentos fora de categorias fixas, pode oferecer contribuições valiosas para imaginar outros futuros possíveis.
É desse desejo que nasce o nosso próximo grande projeto: um festival internacional dedicado a investigar como podemos construir um mundo que não seja organizado por binarismos rígidos, identidades fixas e divisões constantes.
Symbiopunk: a imaginação da interdependência
Durante a conversa, Audax apresentou o conceito de Symbiopunk, uma proposta artística e filosófica para imaginar futuros queer fundamentados na interdependência entre todas as formas de vida.
Segundo Audax, o Symbiopunk surge do reconhecimento de que nenhum organismo existe sozinho. Toda existência é relacional.
Em um momento histórico marcado pela crise climática, pelo isolamento social e pela fragmentação política, o Symbiopunk nos convida a abandonar fantasias de independência absoluta e a reaprender práticas de colaboração, cuidado mútuo e regeneração.
Em vez de imaginar futuros construídos pela dominação ou pela competição, o Symbiopunk propõe futuros produzidos pela capacidade de coexistir, cooperar e criar relações de reciprocidade entre seres humanos, tecnologias e ecossistemas.
Mutō: a arte como tecnologia de regeneração
Também conversamos sobre Mutō – Templo para Regeneração Trans, instalação artística participativa realizada em 2025.
O projeto nasceu da pergunta: como seria um espaço criado não para exigir produtividade de pessoas trans, mas para oferecer descanso, cuidado e possibilidade de sonhar?
Em uma sociedade que frequentemente exige que corpos trans estejam permanentemente em estado de sobrevivência, Mutō propôs o descanso como prática radical e a imaginação como infraestrutura de regeneração.
A instalação revelou algo fundamental: a arte não atua apenas representando o mundo. Ela cria condições para que outros mundos possam ser experimentados.
Ao permitir que as pessoas habitem temporariamente novas formas de relação consigo mesmas, com o tempo e com a comunidade, a arte se torna uma tecnologia de transformação social.

O que aprendemos na Poli
Participar da XII Semana da Diversidade da Escola Politécnica da USP foi um lembrete poderoso de que as universidades continuam sendo espaços fundamentais para cultivar perguntas difíceis.
Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja simplesmente aprender novos conceitos sobre diversidade. Talvez seja desenvolver a capacidade de imaginar formas de existência menos rígidas, mais relacionais e mais capazes de responder às crises planetárias que compartilhamos.
Porque, no fim, as questões trans nunca foram apenas sobre gênero.
Elas sempre foram, também, sobre a extraordinária capacidade humana de mudar, de imaginar e de construir mundos que ainda não existem. E talvez seja justamente essa prática contínua de transição — de aprender a viver entre categorias, atravessar fronteiras e criar novas possibilidades de existência — uma das contribuições mais urgentes que as experiências trans e não binárias podem oferecer a um planeta inteiro em transformação.