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João Pedro Fontes & Verlak
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Entrevista com Igor sobre Games, Música e Skins de Fada

Igor não lembra se tava criando a conta ou mudando o nome. O que ele lembra é que em 2014 tava jogando em call com um grupo de amigos, tinha uma amiga ruiva que todo mundo chamava de: “peitão de mamão papaia” e ele resolveu fazer graça com o apelido dela.

“Peitão de refrigerante” não coube, passava de 15 caracteres. Ficou o que ele tava bebendo na hora. Peitão de Guaraná não faz sentido nenhum, ele mesmo admite, mas pegou pra sempre.

Uma década depois, é assim que o Brasil conhece um dos criadores LGBT mais antigos do League of Legends e quem acompanha o canal desde 2015 sabe que a trajetória dele conta mais sobre sobreviver na internet do que sobre o jogo em si.

Antes do LoL teve um canal de Minecraft

Igor era afeminado, ainda é, e cada vídeo enchia de comentário xingando a voz dele, chamando ele de gay, de coisa pior.

“Antes de começar na internet, eu já sofria bullying na vida real”, ele conta.

“Eu achei que [a internet] seria mais segura. Muito pelo contrário, foi muito pior, porque eu tava exposto a muito mais gente.” A internet não virou um esconderijo.

Virou uma versão mais exposta do mesmo problema, só que sem hora pra acabar.

E mesmo assim foi lá que ele processou boa parte disso. “A internet ela serviu muito para mim amadurecer como ser humano, e também nessa questão de lidar com as minhas inseguranças, de me aceitar mais como uma pessoa LGBT, de entender os meus trejeitos”, ele diz, citando Lady Gaga como referência de infância que ajudou nesse processo.

“Eu ia falar uma casca, mas é uma armadura para mim.” A internet que machucou é a mesma que virou proteção. Não tem contradição nisso, é só como a coisa funcionou pra ele.

O canal atual nasceu do LoL porque, segundo Igor, praticamente não existia criador LGBT no jogo na época, ele cita a Nerissa como uma das poucas referências. Começou fazendo dublagem e paródia, sem gameplay nenhum, o que também explica a musicalidade que domina o trabalho dele hoje.

A história de “O Feitiço Voltou” é exemplar: ele escreveu a letra em inglês, gravou vários demos com produtores diferentes sem gostar do resultado, aprendeu a produzir sozinho, gravou uma versão amadora e postou no Twitter só pra desabafar. Uma fã ouviu, tinha contato com um produtor, o produtor topou fechar a música. Foi assim, sem plano nenhum, que uma das faixas mais lembradas da carreira dele saiu do papel.

A comunidade do LoL segue tóxica, isso ele não nega, e reconhece que Valorant é pior ainda. Mas o desencanto dele não é com o jogo.

“Boa parte do meu desencantamento com o jogo vem do ambiente”, explica, listando também o cansaço de bater no teto de audiência que travar num nicho competitivo impõe pra quem cria conteúdo ali dentro. O motivo de continuar não é o jogo.

É a comunidade que ele construiu em volta dele, e é o universo de Guardiãs Estelares, as skins de fada, que cita como parte do que ainda o prende ali. Dá pra ficar de fora do jogo, e ele fica, boa parte do tempo. Difícil é abandonar de vez o motivo que fez ele ficar em primeiro lugar.

Tem também uma consciência rara de como a criação de conteúdo se relaciona com saúde mental, algo que ele traz por conta própria na entrevista, sem que a gente peça.

Fala de como jogo pode virar dependência, virar gatilho, e ao mesmo tempo virar alívio, os dois lados coexistindo na mesma tela. E fala de como perceber o próprio impacto virou parte do processo dele de lidar com isso:

“O impacto que eu tive na vida das pessoas na verdade faz muito parte do meu processo de cura, e de voltar para o meu centro.” Uma frase que resume uma década de trabalho melhor do que qualquer descrição nossa conseguiria.

Pra continuar acompanhando a coluna, tem mais sobre internet, comunidade e identidade em “KiiiKiiii traz a internet que prometeram pra gente de volta”

COLUNISTA

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João Pedro Fontes

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João Pedro Fontes, nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter com foco em cultura e identidade.
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