Se prestarmos atenção no mundo lá fora… já somos ciborgues.
As tecnologias digitais tornaram-se tão intrínsecas ao nosso cotidiano que realizar a atividade mais corriqueira — como escutar uma música, deslocar-se ao trabalho ou até mesmo abrir a geladeira — torna-se quase impossível sem o suporte de um aplicativo para mediar a ação. O mundo dos códigos e das redes funde-se ao mundo material, de forma que a nossa realidade física está cada vez mais conectada a uma realidade cibernética. A experiência humana está sendo atravessada por dispositivos que misturam softwares e máquinas tangíveis a hardwares e códigos virtuais intangíveis, programados por engenheiros e técnicos da computação.
Onde o humano termina e a tecnologia começa? Ser um ciborgue no século XXI não tem a ver com próteses ou silício sob a pele, mas sim com a fusão entre o humano e a máquina, a tal ponto que as fronteiras que separam essas duas esferas são quase indistinguíveis. Não precisamos ser feitos de metal para perceber que as tecnologias ao nosso redor moldam a nossa carne na mesma medida em que moldam a nossa própria subjetividade. Ser ciborgue é uma metáfora.
Donna Haraway é uma das pensadoras mais influentes e originais da virada do século XX para o XXI. Professora da Universidade da Califórnia, ela une a Biologia à Filosofia e à História da Ciência. Sua formação híbrida permitiu à autora criar obras que desafiam as fronteiras tradicionais do conhecimento.
Em “Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo socialista no final do século XX“, Donna Haraway constrói um mito político para o feminismo, o socialismo e o materialismo. Este ensaio baseia-se na teoria cibernética, porém não se limita à esfera tecnológica; ele também trabalha questões sobre sociedade, sexualidade e poder. O ciborgue recusa ter uma gênese, não possui gênero e luta contra o universalismo.
Figuras de ciborgues passeiam pela indústria cultural há bastante tempo; filmes como Robocop ou O Exterminador do Futuro são bons exemplos. Longe de ser apenas uma imagem da ficção científica, historicamente o ciborgue é um produto da militarização, um ícone da Guerra Fria, da masculinidade, do bélico e da violência policial. O que Haraway propõe com o seu Manifesto é uma ferramenta de pensamento que nos proporcione a libertação de ideologias e dualidades rígidas que atravessam a nossa existência. Mesmo que o ciborgue seja fruto do controle, ele também é uma potencial ferramenta para a liberdade. O ciborgue não é um dogma. Ele é um mito político irônico, uma tremenda blasfêmia para uma sociedade pautada em determinismos, fundamentalismos e papéis de gênero; pois, ao mesmo tempo que é um instrumento de controle, ele também empodera os indivíduos que aderem ao “modo de ser” ciborgue.
Como ciborgues, devemos questionar a genealogia do Éden: nós não nascemos, fomos construídos. A lógica de quem veio do Éden é a do patriarcado, que culpa o “Outro” pelos pecados; são sistemas de dominação onde os feminizados e dissidentes são condenados ao inferno. São as correntes da tradição que aprisionam a nossa existência ao nosso próprio corpo biológico. A blasfêmia é a nossa ferramenta política para quebrar dogmas internos e reforçar a comunidade. Como uma criatura pós-gênero, o ciborgue rompe com a
família edípica (pai, mãe e prole) e com a bissexualidade binária (homem e mulher); seu aspecto tecnológico recusa a cosmovisão ocidental da criação e seus mitos fálicos.
A ciência não é neutra; a construção do conhecimento é atravessada por interesses e disputas. Para a antropologia, a distinção entre natureza e cultura foi central. No Ocidente, consideramos “dado da natureza” qualquer coisa que não tenha intervenção humana e, por uma tradição humanista, tendemos a um dualismo obsessivo:
- Humano x Animal
- Natureza x Cultura
- Organismo x Máquina
- Físico x Cibernético
Temos a ideia de que o que é natural é fixo e imutável. Por consequência, somos tolos ao acreditar que diversos aspectos da nossa vida também são naturais. Não nascemos “idiotas”, fracos ou pouco inteligentes, assim como as identidades não nascem conosco: nós nos tornamos quem somos. Na história do Ocidente, argumentou-se que as mulheres eram “naturalmente” submissas, que pessoas negras eram mais aptas à criminalidade e que indígenas estariam mais próximos de animais do que dos homens brancos civilizados da Europa. Recorrer à esfera das ciências naturais para validar exclusões é uma grande armadilha. Como já dito, nós não nascemos, somos construídos! O ciborgue, por ser uma construção, oferece a possibilidade de reconstrução. Podemos ser moldados e, assim, nos libertar de papéis sociais predeterminados.
É simplista reduzir a identidade ao aparato biológico. Na concepção de Haraway, a categoria “mulher” é complexa por ter sido criada a partir de discursos biologizantes e práticas sociais discriminatórias. Devido às fragmentações dos movimentos feministas, muitas vezes as mulheres são excluídas ou a dominação é perpetuada por sistemas econômicos modernos. A autora acredita em um movimento emancipador que se aproxime das questões científicas e tecnológicas, remontando a ideia de um “Eu” a partir de rearranjos tecnológicos e fluxos elétricos que conectam nossa existência a redes de comunidades.
No processo de convergência digital e midiática, fenômenos como discurso de ódio, “cultura do cancelamento”, desinformação, vieses algorítmicos, datificação, economia de dados, plataformização e vigilância são as grandes discussões do momento. Nesse mar que é a internet, com tamanha carga de informação, fica difícil para muitos de nós, como educadores, velejar (no sentido cibernético) em meio ao dilúvio de pânico moral, suspeições de plágio e proibições de ferramentas midiáticas.
Mídias são textos; podem ser escritas ou visualizadas. Temos que aprender a ler essa linguagem com um olhar reflexivo e crítico. A inteligência artificial chegou ao nosso cotidiano sem aviso prévio, impedindo que acompanhássemos seu desenvolvimento com o mínimo de reflexão sobre limites e riscos; o ChatGPT foi o principal disseminador dessa tecnologia. Na história das mudanças técnicas, as populações tendem a naturalizar as
ferramentas que se fundem à carne — seja a eletricidade, os veículos de comunicação, a internet ou, agora, a IA. Quanto mais humanizamos e tornamos “amigável” a nossa relação com o ciberespaço, por meio de simulações que imitam a realidade não virtual, mais nos tornamos cibernéticos.
O pensamento de Haraway é marcado por uma escrita densa, poética e profundamente irônica, sempre buscando formas de “fazer parentesco” (making kin) além dos laços biológicos tradicionais, visando um futuro de sobrevivência colaborativa. Os ambientes virtuais são, em sua maioria, criados e mantidos por empresas norte-americanas. Mesmo com a imposição de lógicas capitalistas, homogeneizantes, neoliberais, coloniais e patriarcais, nós, usuários de diferentes culturas, fazemos uso dessas ferramentas a partir de nossas condições locais. As formas de engajamento de uns serão distintas das de outros.
Já somos ciborgues, conectados a máquinas que navegam por fibras óticas, projetando-nos em mundos virtuais e possibilitando conexões em grupos e comunidades seguras.