Em entrevista exclusiva, o elenco e a direção da peça discutem como relatos da internet moldaram uma narrativa sobre amor, mentiras e a quebra da masculinidade frágil entre gerações.
A peça “Meu Garoto”, que estreou no dia 2 de maio de 2026, surge como uma potente tecnologia de posse narrativa. Distante dos estigmas que reduzem vivências LGBTQIAPN+ ao trauma, o espetáculo utiliza o realismo para investigar o que o [SSEX BBOX] define como a quebra da imanência nos relacionamentos: o encontro entre o “fervo” e a complexidade de vínculos com grande diferença de idade.
Conversamos com o elenco sobre o processo de dar vida a essa obra que desafia preconceitos geracionais.
Da internet para o palco
[SSEX BBOX]: Como surgiu a ideia criativa para “Meu Garoto”? As narrativas queer costumam ser marcadas pela tragédia, mas a peça propõe um caminho de humor e verdade.
Hermes Carpes: Eu desejava uma comédia LGBT com final feliz. Após levar um fora em uma fase maravilhosa da vida, usei o Instagram para coletar relatos reais de relacionamentos com diferença de idade. Recebi histórias incríveis que casavam com a minha. A peça nasce desse desejo de conexão real, sem clichês: tudo o que está no palco aconteceu com alguém.
O revezamento de Matheus
[SSEX BBOX]: Camilo e Murilo, vocês têm 19 e 20 anos, a idade exata dos personagens. Como é construir essa verdade em cena, sabendo que Matheus é um personagem que desperta reações intensas no público?
Camilo Guadalupe: Eu namoro uma pessoa oito anos mais velha, então o diálogo sobre esses temas é constante. Mas a construção do Matheus foi baseada no que o Hermes nos passou sobre os relatos reais. Ele é um personagem humano e complexo; faz coisas que podem gerar raiva, mas nossa missão é fazer o público entender o porquê de suas ações.
Murilo Moraes: O relacionamento deles não acaba por uma questão de diferença de idade; esse é o menor dos problemas que eles enfrentam. O que realmente pesa são as mentiras que são contadas e as coisas que deixam de ser ditas. Minha intenção é mostrar o Matheus como um ser humano real, agindo a partir das condições que vive, para que o público entenda o porquê de suas ações em vez de apenas julgá-lo.
Hermes Carpes: Tive a sorte de ter dois excelentes atores comigo. Murilo e Camilo trazem suas essências para o papel. Não existe vilão em “Meu Garoto”. Não julgamos Matheus ou Bruno de forma simplista; as circunstâncias e a sociedade moldam suas escolhas. Queremos que o público saia discutindo se a relação era tóxica ou apenas a vida real acontecendo.
O choque geracional
[SSEX BBOX]: A peça retrata o choque entre o repertório de um casal. Como vocês utilizam esse choque cultural em cena?
Camilo Guadalupe: Tratamos isso com muito humor. É o encontro de dois mundos. Mas o ponto central é que a relação não termina pela idade, mas pela traição da confiança e pelas mentiras. A diferença geracional é o menor dos problemas quando existe diálogo.
Recepção e resistência
[SSEX BBOX]: Como tem sido a recepção do público e o enfrentamento ao ódio digital?
Hermes Carpes: Tivemos sessões lotadas e críticas positivas. O mais marcante foi ouvir de uma senhora evangélica que ela viu ali apenas seres humanos e uma história de amor. Sobre o ódio nas redes, ele vem de quem não assistiu à peça. É uma afronta ao lado tradicional ver um homem mais velho e um mais novo em um relacionamento soberano no palco.
[SSEX BBOX]: Qual música define a alma de “Meu Garoto”?
Camilo Guadalupe: “Se o problema era você porque doeu em mim?”