COLUNA

Maya de Paiva

[ELA/DELA]

Atriz e pensadora recifense que mobiliza teatro, cinema, performance e filosofia decolonial em suas

Pelo direito à banalidade e ao erro

Mesmo que todas subjetividades contemporâneas sejam moldadas, em alguma medida, por valores neoliberais como a competitividade, o sucesso, a alta performance e o empreendedorismo de si, sabemos que os efeitos disso nos afetam de maneira desigual a depender do lugar que nos foi designado na sociedade capitalista colonial. Para pessoas submetidas às marginalidades de gênero, raça, sexualidade e classe alcançar direitos básicos e dignidade significa, muitas vezes, a necessidade de tornar-se excelente em tudo o que faz, com produções impecáveis, destacando-se em suas áreas de atuação e representando “todas pessoas como você”. Basicamente, ser perfeites e “sem defeitos”. Mas é muito perverso nos submeter a essa lógica constituída a partir de medidores que não foram criados por e para pessoas como nós e isso gera um permanente estado de pressão, autocobrança e adoecimento que mina nossas potencialidades vitais. No fim, a capacidade de satisfazer os parâmetros inalcançáveis do capitalismo cis-heteronormativo racista e patriarcal determina nossa possibilidade de existir, trabalhar e ser amades. Mas, por acaso, não podemos simplesmente realizar coisas medianas, vivenciar trivialidades e ter experiências fúteis? Não merecemos viver bem se não formos excelentes nos nossos ofícios? Não temos também direito à banalidade, ao erro e ao fracasso?

É evidente que, no geral, as pessoas buscam oferecer o seu melhor nas coisas que fazem, mas nem sempre o nosso melhor está à altura desses parâmetros excludentes. Por isso, é necessária uma reflexão crítica sobre a nossa busca incessante por esses parâmetros. É preciso cuidado para com os adoecimentos mentais e físicos, individuais e coletivos, gerados nesse processo e nesta busca. (E escrevo isto aqui para que eu também não me esqueça disso!). Esses medidores, que parecem ser inescapáveis e indispensáveis para a nossa validação, são os mesmos que nos marginalizam e violentam. A sensação é de que não há saída a não ser seguir sufocando na busca pela mesma excelência e perfeição que nos afoga. Acontece que, nessa sociedade fundamentada na exploração, é impossível que todes superem as desigualdades de acessos para alcançar padrões de excelência. E há milhões de pessoas que não o conseguem, não podem ou, até mesmo, não queiram fazê-lo. 

Qualquer pessoa dissidente em algum momento da vida sentiu a necessidade de provar seu valor e sua importância profissional, artística, intelectual e até afetiva. Para a maioria essa necessidade é uma constante. Mas viver submetides a essa pressão permanente nos impede de articular mecanismos de subvertê-la e construir outras possibilidades de existências para nossas vidas. Por que não reivindicar nosso direito de viver sem grandes destaques e sem precisar nos tornar referência em algo? Nossas vidas valem muito mais do que a capacidade de ser “bem-sucedides”. Nossos acessos a direitos básicos, afetos e boas condições de vida não deveriam ser regulados pelo nosso destaque, excelência ou pela nossa “importância social”. A maior parte de nós só quer a tranquilidade de viver com dignidade e sem precisar se tornar uma referência em nada. Queremos também poder errar e fracassar sem que isso nos custe a vida, a carreira, o cuidado ou as relações. 

Uma coisa é certa: a lógica do sucesso vigente é profundamente individualista e normativa. A própria ideia do que é sucesso precisa ser repensada. E, de fato, parece não haver saída dela, uma vez que todes queremos ter vidas melhores, ter reconhecimento em nossas trajetórias e, para isso, tentamos seguir as regras dessa disputa entre nós mesmes para tentar “chegar ao topo”. Mas acolher nossos erros, nossas mediocridades e preservar nosso espaço de “inutilidade” é também nos devolver a humanidade que nos é constantemente negada. O direito ao erro e à banalidade são também privilégios no Brasil, por isso, fomentar coletividades e espaços seguros para fracassar e habitar sem a exigência da excelência já é uma prática de subversão que nos garante a liberdade de existir na mais insignificante e potente experiência do Comum. Ser banal, inútil, sem graça, fracassade, errade, deslocade, fútil. É aí, nesse território do irrelevante, que podemos talvez nos reconectar com o nosso valor intrínseco enquanto pessoas imensuráveis, incomparáveis e inúteis para o mundo do consumo, por que não?

 Escapar daquela lógica perversa deveria ser um compromisso com nossas próprias vidas e com a transformação deste mundo. No entanto, nos colocar apenas em oposição a ela não seria nos deixar ainda ser regulades por ela? Como escapar das categorias binárias – incluindo as de sucesso-fracasso – que regem este mundo sem reiterá-las? Eu não tenho uma resposta afirmativa e exata para isso, nem acho que qualquer pessoa a tenha com certeza, mas há pistas e experiências inspiradoras espalhadas, por exemplo, nas práticas comunitárias dos povos tradicionais (indígenas, quilombolas e de terreiros), ou nas coletivas feministas e travestigêneres, na cena ballroom, nos aquilombalmentos, nas ocupações autonomistas… Não é sobre fetichizar ou romantizar dessas culturas e vivências, mas honestamente acredito ser indispensável uma sintonização com esses outros conhecimentos, epistemologias e cosmopercepções para escapar do neoliberalismo colonial que se infiltra nos nossos corpos-mentes.

Acredito na possibilidade de se inspirar e se contaminar por essas coletividades para seguir driblando a competitividade empreendedora de alta performance. Cultivar nossas qualidades é também nos permitir existir em fragilidade e trivialidade, sem que nossas identidades sejam sempre um tema e sem a obrigação de representar tantas milhares de pessoas com quem temos pouco em comum a não ser uma parcela das nossas identidades. Nos ocupar de nossas vidas cotidianas e nos fortalecer enquanto coalizões plurais, divergentes e múltiplas para potencializar nossas forças e desmontar a narrativa da “representante única” me parece o caminho de “desneoliberalização” da vida. Nossas subjetividades já são fracassos se considerarmos que não nos enquadramos totalmente (e nunca o faremos plenamente) nos parâmetros normativos. Por isso, podemos reivindicar nossos erros e nossas banalidades como um gesto de afirmação de humanidades (im)possíveis e que contradizem a hegemonia do sucesso. 

Obs.: estou longe de viver plenamente tudo isso. Provoco vocês a pensarem sobre aqui, e é justamente por isso que escrevo e reflito sobre o tema. Sinto a necessidade de elaborar essas coisas junto a outras pessoas para, quem sabe um dia, poder viver com a tranquilidade de saber que nosso valor é maior do que qualquer sucesso, reconhecimento ou visibilidade. Somos subjetividades vivas e pulsantes para além de tudo.

COLUNISTA

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Maya de Paiva

[ELA/DELA]

Maya de Paiva é uma artista travesti recifense que circula entre os universos da performance, teatro, cinema e filosofia. É graduada em Filosofia pela FFLCH/USP e estudante da Escola de Arte Dramática (EAD/ECA/USP). Desenvolve trabalhos teóricos e artísticos mobilizando discussões sobre corpo, performatividade, dissidência de gênero, decolonialidade e transfeminismo. Como atriz e performer já participou de sete longas-metragens, uma minissérie, protagonizou dois curtas e realizou peças e performances autorais, como “A Festa”, “TUBO” e “ato de fala”. Desde 2019 atua também como educadora em museus e centros culturais na cidade de São Paulo.
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