COLUNA

Samanttha Neves

[ela/dela]

Estrategista em comunicação, percepção e comportamento

Quando apoiar deixa de ser discurso

Antes de tudo, acho importante me apresentar, afinal, você vai me conhecer aos poucos através dos textos que publicarei aqui.

Sou Samanttha Neves, estrategista em comunicação, percepção e comportamento, com atuação em análise de discurso, diversidade, cultura organizacional e comunicação inclusiva. Meu trabalho investiga como a linguagem, consumo, poder, gênero, sexualidade e afetos atravessam a forma como nos relacionamos, pertencemos e disputamos espaço na sociedade. Nesta coluna para o [SSEX BBOX], quero construir reflexões sobre os discursos que moldam o Brasil e a América Latina contemporânea, conectando comportamento, cultura, política, desejo e comunicação de uma forma acessível, crítica e humana.

A pesquisa global LGBTQIAPN+ Pride Report 2026, divulgada pela Ipsos, traz um dado que merece atenção não apenas do mercado, mas também da sociedade brasileira. Em meio a 26 países pesquisados, o Brasil aparece com um índice expressivo de apoio a marcas que se posicionam a favor da igualdade para pessoas LGBT+. Segundo o levantamento, 49% da população brasileira apoia empresas que promovem ativamente essa pauta.

Esse número não pode ser lido de forma superficial. Ele revela algo importante sobre o comportamento do público brasileiro e sobre o lugar que as marcas ocupam hoje no debate social. Mais do que vender produtos ou prestar serviços, empresas são observadas pelo modo como se posicionam diante de temas que atravessam a vida real das pessoas. E a diversidade, nesse contexto, não é um detalhe. É um campo de disputa simbólica, política e ética.

O apoio existe, mas exige coerência

Quando um estudo mostra que quase metade da população brasileira apoia marcas engajadas com a causa LGBT+, o mercado precisa compreender que esse apoio não é um cheque em branco. O consumidor contemporâneo, especialmente em temas ligados à diversidade, percebe com rapidez quando existe coerência e quando existe oportunismo.

Não basta levantar a bandeira em datas comemorativas, campanhas sazonais ou ações de marketing de ocasião. O público quer ver consistência. Quer ver representatividade real. Quer ver políticas internas, linguagem responsável, ambientes de trabalho seguros e compromisso contínuo com inclusão. Quando a marca fala de diversidade, mas não sustenta essa fala na prática, a percepção de incoerência pode ser tão forte quanto o impacto positivo que ela tenta produzir.

Por isso, eu diria que o dado da Ipsos não confirma apenas aceitação. Ele também aumenta a cobrança. Apoiar marcas que defendem a igualdade faz sentido quando esse apoio vem acompanhado de autenticidade.

O mercado brasileiro já entendeu parte da mensagem

O resultado da pesquisa também sugere que o Brasil já avançou em um aspecto importante: existe abertura significativa para que marcas assumam posição pública em defesa da comunidade LGBT+. Isso é relevante porque mostra que diversidade não é um tema periférico na percepção social. Ela já integra o repertório de expectativa de uma parcela considerável da população.

Ao mesmo tempo, esse dado exige leitura cuidadosa. Apoio não significa unanimidade. Ainda existem resistências, disputas de narrativa e tentativas de deslegitimar a presença de marcas em temas de direitos humanos. Mas justamente por isso o posicionamento corporativo precisa ser feito com responsabilidade, consistência e preparo.

Uma marca que decide se posicionar não está apenas comunicando uma causa. Está assumindo um lugar no debate público. E, uma vez neste lugar, passa a ser observada também pela forma como responde a críticas, como cuida das suas equipes e como transforma discurso em prática.

Diversidade não é tendência, é compromisso

Eu insisto em um ponto que, para mim, é central. Diversidade não deve ser tratada como tendência de mercado. Quando isso acontece, ela corre o risco de ser reduzida a estética, conveniência ou estratégia de curto prazo. Mas diversidade é uma dimensão estrutural das relações sociais e das organizações.

No caso da comunidade LGBT+, falar de apoio a marcas não é apenas falar de consumo. É falar de pertencimento, reconhecimento e legitimidade. É falar sobre como empresas podem colaborar para ampliar visibilidade, reduzir silenciamento e construir ambientes mais respeitosos.

Marcas que compreendem isso com profundidade tendem a sair na frente, não apenas em reputação, mas em relevância. Porque o público percebe quando há compromisso genuíno. E percebe também quando a empresa tenta se apropriar de uma pauta sem sustentação interna.

O risco da diversidade performática

Toda vez que uma marca usa a pauta da diversidade apenas como ferramenta de marketing, ela se expõe ao risco da incoerência. E, hoje, esse risco é cada vez mais visível. A chamada diversidade performática pode até gerar engajamento imediato, mas dificilmente sustenta credibilidade no médio e no longo prazo.

Isso vale especialmente para empresas que se comunicam com grande força nas redes sociais, mas não garantem inclusão nos processos internos. Não adianta celebrar o Orgulho em campanhas se a cultura organizacional continua reproduzindo exclusões. Não adianta usar cores da bandeira se a liderança não está preparada para lidar com respeito, escuta e proteção à diversidade.

A sociedade está mais atenta. E isso é positivo. Porque obriga marcas a amadurecerem sua presença pública. O tempo da comunicação decorativa está ficando para trás. Hoje, o posicionamento exige lastro.

Oportunidade para lideranças e comunicação

O dado da Ipsos também é um convite para lideranças e áreas de comunicação repensarem suas práticas. Se o público brasileiro demonstra apoio relevante às marcas que defendem a igualdade LGBT+, então há espaço para estratégias mais responsáveis, mais educativas e mais alinhadas com os valores contemporâneos.

Isso passa por linguagem, por política interna, por formação de lideranças e por escuta ativa. Passa por entender que comunicação inclusiva não é apenas sobre imagem. É sobre cultura, ambiente e como uma empresa escolhe se relacionar com pessoas e contextos reais, com histórias diversas.

Para mim, esse é o ponto mais importante. O apoio do público existe, mas ele precisa ser correspondido por ações concretas. Quando isso acontece, a marca deixa de ser apenas um agente comercial e passa a ser também uma agente de transformação.

O que esse dado realmente mostra

Na minha leitura, a pesquisa mostra três coisas ao mesmo tempo. Primeiro, que o Brasil tem uma relação mais aberta do que muitos imaginam com marcas que defendem a igualdade LGBT+. Segundo, que o público valoriza o posicionamento quando ele é consistente. Terceiro, que existe uma oportunidade real para que empresas usem sua influência de forma mais responsável.

Mas essa oportunidade só faz sentido se vier acompanhada de ética. Nenhuma marca ganha legitimidade apenas por se dizer aliada. A legitimidade vem da prática, da continuidade e da coragem de sustentar o discurso quando ele deixa de ser confortável.

É exatamente por isso que esse tipo de pesquisa é tão relevante. Ela não mede apenas opinião. Ela ajuda a revelar o tamanho da responsabilidade que as marcas assumem quando escolhem se posicionar.

COLUNISTA

O97A0895 (1)

Samanttha Neves

[ela/dela]

Samanttha Neves é estrategista em comunicação, percepção e comportamento, com atuação na interseção entre análise de discurso, diversidade, semiótica, cultura organizacional e inclusão. Sua trajetória combina experiência corporativa, educação executiva, projetos sociais e desenvolvimento de metodologias aplicadas à comunicação estratégica, pertencimento e eficiência organizacional. Ao longo dos últimos anos, atuou em empresas de tecnologia, liderou iniciativas de grupos de afinidade e desenvolveu projetos voltados à construção de ambientes mais acessíveis, humanos e sustentáveis. Graduada em Relações Públicas e pós-graduada em Data & Insight Marketing pela ESPM, Samanttha integra análise crítica de narrativas, comportamento de consumo, Comunicação Não Violenta (CNV), inteligência emocional e leitura de cenários para transformar comunicação em ferramenta prática de impacto social, alinhamento cultural e tomada de decisão. Seu trabalho conecta organizações, lideranças, empreendedores e comunidades vulnerabilizadas através de projetos que reduzem ruído comunicacional, fortalecem pertencimento e ampliam acesso à informação, autonomia econômica e construção de percepção estratégica. Também atua na criação de metodologias próprias voltadas à comunicação inclusiva, comportamento e eficiência relacional, além de desenvolver conteúdos, palestras, workshops e formações sobre linguagem, cultura, consumo, diversidade e comunicação contemporânea. Com experiência em atuação nacional e internacional, Samanttha já conduziu cursos, treinamentos e projetos em ambientes corporativos, educacionais e comunitários no Brasil, Canadá, Lisboa e plataformas digitais. Hoje atua como consultora independente, palestrante, facilitadora e pesquisadora, desenvolvendo projetos que unem comunicação estratégica, comportamento, pertencimento e transformação social.
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