Dia 18 de julho, sábado, o MAC Dragão do Mar abriu as portas pra um filme de terror que a comunidade LGBT+ já conhece de cor: o do próprio corpo andando pela rua.
É esse o ponto de partida de “Terror celestial”, mostra com curadoria de Lucas Dilacerda que reúne mais de vinte artistas queer em torno de uma ideia direta: a história da colonialidade é a história de um filme de terror, e quem sempre fez o papel de monstro nessa história foi gente como a gente.
“Monstro”, “queer”, “estranho”, “freak”, “aberração”.
A exposição lista o vocabulário que a cis-heteronormatividade usa há décadas pra descrever corpos LGBT+, e é exatamente esse vocabulário que “Terror celestial” decide não devolver como ofensa.
A psicanálise explica o mecanismo: a humanidade descarrega seus medos inconscientes projetando no “outro” a imagem do anormal, pra se afirmar como normal.
O gênero terror faz isso na tela. A cis-heteronormatividade faz isso na vida real, todo santo dia, com gente que tem medo de sofrer preconceito, medo de apanhar na rua e, às vezes, medo do próprio ambiente doméstico, que segue sendo onde mais acontece violência.
A exposição parte desse paradoxo pra virar o jogo: se o terror sempre foi usado contra corpos queer, agora ele vira material de trabalho.
Perucas, unhas, glitter, transformismo, formas que fogem do que as belas artes chamam de natureza-morta, é essa mesma pulsão criativa que já apareceu em outras coberturas da coluna sobre estética queer, e que Dilacerda organiza aqui em três eixos curatoriais.
O primeiro, “Monstros e quimeras”, junta obras de Davi Ângelo, Higo José, insiranomeaqui, Jonas Van, Juno B, Luciana Magno, Maurício Coutinho e Trojany em torno de corpos que cruzam reino animal, vegetal, mineral e encantado, figuras que também rondam boa parte do que o cinema tentou empurrar pra baixo do tapete ao criar seus vilões.
O segundo eixo, “Espiritualidade terrena”, olha pra religião como território disputado: se o cristianismo historicamente associou pessoas LGBT+ a demônio e pecado, artistas como Carnaval no Inferno, Darwin Marinho, Charles Lessa, Isadora Ravena, Georgia Vitrilis, Honório Félix, Nicolas Gondim, Pedra Silva e Sérgio Gurgel vão buscar cura em outro lugar, matriz africana, tradição popular, cosmovisão indígena.
O terceiro, “Terror das formas”, parte do conceito de terrorismo de gênero: Antonio Breno, Bárbara Banida, Camila Albuquerque, Céu Vasconcelos, Gi Monteiro, Jonas Pinheiro e plantomorpho desobedecem a gramática do retrato e da paisagem clássica pra inventar outra visualidade.
“Terror celestial” fica em cartaz de 18 de julho a 4 de outubro de 2026, de quarta a sábado das 9h às 19h e aos domingos e feriados das 10h às 19h, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema. A abertura é no próprio dia 18, das 14h às 19h. Pra acompanhar a curadoria e o museu, segue @lucasdilacerda e @maccedragao.