Do medo de “voltar para casa dos pais” após “chegar ao topo” à descoberta de novas formas de prazer, a drag queen fala sobre fama, amadurecimento, sexo e a transformação provocada pela persona Grag em sua vida.
Do medo de “voltar para casa dos pais” após “chegar ao topo” à descoberta de novas formas de prazer, a drag queen fala sobre fama, amadurecimento, sexo e a transformação provocada pela persona Grag em sua vida
O que você faz quando chega ao topo? Para Grag Queen esse lugar representa um estado muito maior de vulnerabilidade do que estabilidade. Grégory Crescencio da Silva Mohd é um ator, cantor, apresentador e drag queen brasileiro de 31 anos. Ou melhor, “The Queen of The Universe”, título que carrega desde quando foi alçado para o estrelato ao vencer a primeira temporada da competição de canto homônima. Grag não parou mais, tem emendado um projeto no outro e conquistado novos espaços. Contudo, em entrevista à coluna, a artista mostra cautela e refuta a ideia de estar no “topo”.
“Chegar no topo é nessa semana mesmo estar com medo de ter que voltar para casa dos meus pais em Canela [no Rio Grande do Sul]. Você sente que está longíssimo do topo e se sabota. Às vezes o subconsciente nem registra. Foi só recentemente que eu entendi que ganhei um prêmio, que vesti o sapato de que sou referência da arte drag brasileira, que mudei a vida de muitas pessoas, que mudei a minha vida e a da minha família, que vivo da minha arte desde o dia que eu decidi ser artista. Isso não é um processo de chegar no topo, não é um processo de atingir as coisas. Eu não tenho essa sensação de que cheguei no topo, também não sei se quero ter. Mas, eu tenho a sensação de que eu estou muito feliz, de que já realizei o meu sonho, de que estou bem vivendo da minha arte, seguro – saudável e financeiramente –, e com orgulho do que faço.”
Apesar de se mostrar comedida e consciente da efemeridade do estrelato, é inegável que a drag queen caminhou longos passos em tenra idade. Grag acaba de retornar de sua segunda turnê internacional com “ameaça de volta e data marcada de retorno”, em suas palavras. A digressão nos Estados Unidos (EUA) se deu em divulgação do seu álbum de estreia “Cósmica”, lançado em novembro do ano passado.
“Acho muito difícil separar o CPF do CNPJ. Como artista, eu vou criando baseado no que vivo. O amadurecimento, como tudo na nossa vida, vem de erros e de acertos, de experiências, de vontade, de medos, de um segundo que muda tudo. ‘Cósmica’ acabou sendo isso […] Eu quis mostrar meu amadurecimento artístico e narrativo”, explica.

Grag Queen em apresentação na Philadelphia (EUA) (Ruby Photography)
A turnê no país norte-americano passou por 16 cidades e Grag pôde se colocar no desafio como uma artista mais madura e atenta ao que o público precisa. “A primeira tour foi logo depois que ganhei o ‘Queen of The Universe’. Foi um frenesi. Foi eu tentando entender milhões de coisas enquanto vivia e tentava entregar um monte de demandas. Uma pressão maluca […] Dessa vez, eu planejei a maquiagem, o roteiro, a cidade… Fui ouvir as pessoas, memorizei o que elas falaram”. A artista ainda aponta que se deparou com mais facetas de sua versatilidade enquanto performer durante os concertos.
“Descobri que falo muito bem em público, que consigo ser engraçada em outro idioma. Esses shows vieram depois do ‘Drag Race Brasil’. Fui, então, como também apresentadora, teve outro tipo de prestígio. Neste projeto pude cantar mais, repaginei as músicas antigas”, comenta Grag, que brinca: “É dólar na calcinha… Foram muitas histórias. Foi uma turnê muito especial para mim.”
Contudo, nem tudo foram flores. A queen revelou à coluna um perrengue que passou e como resolveu o problema que quase cancelou uma apresentação. “Eu extraviei mala, tive que fazer o show da Grag ‘sem’ a Grag. ‘Cancela o show? Não! Eu ainda tenho a minha voz!’. Fiz o show jogando cabelo sem ter cabelo para jogar. Morrendo de vergonha, porque esse corpo desmontado e vulnerável não pisava no palco fazia muito tempo. Foi de chinelinho velhinho. Eu não tinha nada.”
Para o retorno ao Estados Unidos ainda neste ano, Grag promete que levará um novo projeto: seu segundo álbum de estúdio. “A gravadora pede e a gente precisa fazer. Estou entrando em estúdio, em campings, já iniciei o novo conceito, pensando para qual lado quero ir. Estou muito animado. Quero cantar e conversar com as pessoas, quero ser engraçada, quero trazer uma vibe mais solar para essa musicalidade cósmica [do primeiro álbum].”
Drag Race

Grag Queen já comandou duas temporadas do Drag Race Brasil (Reprodução)
É impossível falar de Grag Queen sem falar de Drag Race Brasil. A artista é a apresentadora da franquia brasileira do reality de RuPaul Charles. A versão do Brasil já conta com duas temporadas e os fãs anseiam pela terceira. “Estou tentando engravidar como ninguém, já deixei de tomar o anticoncepcional, agora é só esperar um paizinho”, brinca Grag sobre uma possível terceira edição.
A drag ainda foi uma das juradas convidadas de um dos episódios do spin-off “Drag Race México: Latina Royale”, que conta com as brasileiras DesiRée Beck e Miss Abby OMG. Questionada qual é a sensação de estar julgando sem a necessidade de estar à frente de uma decisão tão importante quanto a eliminação de uma queen, Grag é objetiva: “São férias!”.
“Eu faria todo ano [ser jurada convidada]. Dei uma de inspetora, falando todas as línguas do universo. Foi muito legal. Fui muito bem tratada e recebida, como sempre. É estar ali bonita, não precisar acordar cedíssimo, estar ganhando a mesma coisa sem precisar tomar decisão nenhuma.”
É importante mencionar também que Grag foi um dos nomes de destaques da primeira DragCon Brasil, que ocorreu no início de junho deste ano, em São Paulo. O maior evento de cultura e arte drag do mundo tinha, até então, apenas duas edições: nos Estados Unidos e no Reino Unido. O Brasil é o terceiro destino a receber a conferência e o primeiro na América Latina.
“Como participante foi o melhor DragCon que eu já fui na minha vida”, afirma Grag, sem titubear. Ela segue tecendo elogios. “Todas as gringas saíram apaixonadas pelas drags brasileiras. A gente celebrou não só o universo do Drag Race, a gente celebrou Márcia Pantera, Silvetty Montilla, Ikaro Kadoshi”. Grag diz ainda ser “difícil de registrar” que esteve em um lugar de destaque em um evento tão importante para a comunidade drag e LGBTQIAPN+ brasileira.
“Eu já estive do outro lado, já fui a bicha que pesquisou para ir no DragCon nos Estados Unidos, para conhecer as minhas divas. Eu atravessava o estado para ver as bichas no Opinião [casa noturna], lá em Porto Alegre [no Rio Grande do Sul]. Lembro de ir assistir a Laganja Estranja, eu nem entendia inglês ainda e ela contando que a mala dela foi extraviada, e por isso estava horrorosa. Eu amava, achava lindo, aquilo mudou a minha vida.”

Grag Queen e Taiga Brava, host do Drag Race México e Latina Royale (Reprodução/Instagram)
“A gente briga enquanto comunidade”
A maior Parada LGBTQIAPN+ do planeta, a de São Paulo, completou três décadas neste ano. A celebração veio com um gosto agridoce: um declínio significativo no patrocínio de empresas privadas, que reduziram em 60% o apoio à festa da diversidade, comparado ao último ano.
Muitos artistas decidiram abrir mão de seus cachês para apoiar a manifestação coletiva em prol da comunidade queer, entre eles Pepita, Diego Martins e a própria Grag Queen, que faz uma análise sobre a situação.
“A gente passou por um cenário de retrocesso durante o governo de Jair Bolsonaro. O que a gente pôde fazer foi não soltar a mão de ninguém. Aquilo tudo passou, mas mãos foram se soltando. A gente briga enquanto comunidade, a gente está interessado se o cabelo da Érika Hilton é caro ou não, em brigar no Twitter [X], em falar mal de diva pop, se humilhar na internet… Falta a gente pagar pela arte que é da nossa comunidade, falta a gente valorizar artes e marcas que são da nossa comunidade. Enquanto não nos unirmos, não estaremos organizados.”
“Ela me trouxe muita prosperidade”
A arte drag traz uma série de descobertas para o artista que escolhe este caminho para expressar sua identidade. A possibilidade de transitar entre gêneros diferentes pode ampliar o repertório da persona por trás da maquiagem e trazer reflexões para a vida fora do glamour e da ludicidade que esta arte tradicional possibilita. Grag afirma que até hoje não viveu uma experiência que chama de “susto de gênero”, ao transitar pelo masculino e pelo feminino.
“Amo ser bem ‘amapô’, bem mulher, vejo muita beleza, sabe? Eu não vi a Grag pela primeira vez, eu vi beleza pela primeira vez. Tudo mudou. Eu comecei a ver a cor do meu olho, como era bonita e realçada, como eu tenho um bocão bom de pintar. Na minha pálpebra móvel dá para escrever um versículo. ‘Olha que bonita essa roupa, você fica com um bundão’”, descreve a performer.

Grégory Crescencio da Silva Mohd, a Grag Queen (Reprodução/Instagram)
Grag ainda afirma que com sua drag passou a não se sentir mais obrigado a performar uma masculinidade padrão imposta pela sociedade e que afeta a comunidade gay de forma latente. “Me fazia muito mal sexualmente porque não é quem eu sou”, diz.
“Você pode ser uma ativa que dá uma gemida mais aguda, você pode ser uma passiva mais exibida e performática. Isso é muito libertador dentro do sexo. O fato de me sentir validado e bonita foi a Grag quem me trouxe, tanto no sexo quanto nas relações”. Depois da fama, toda esta percepção de beleza e amor próprio que Gregory desenvolveu se acentuou e trouxe novas possibilidades para o artista.
“As pessoas se aproximam de ti, querem transar com você por quem você é, e você transa porque é tudo de bom. Melhor do que transar com hater. Ela [a Grag Queen] me trouxe muita variedade e muita prosperidade.”