COLUNA

Lucas Brito

[Ele/dele]

Doutorando em Sociologia pela UnB. Escreve sobre corpo, desejo e cultura pop

Madonna volta do futuro para nos ensinar o valor da pista de dança.

O novo álbum da Madonna é um convite a rompermos com qualquer compreensão vulgar de que haveria uma separação hierárquica entre corpo e mente, entre o mundo das ideias e o mundo do sensível. É um chamado a rompermos com a visão de que o corpo seria a residência da superficialidade. E, para entendermos isso, Madonna nos coloca para dançar.

O principal ativo de Confessions II é carregar a alma da Madonna. O álbum é um mergulho no que há de melhor da própria artista. Mas não de modo nostálgico. É como quem se volta ao passado carregando confissões sobre o futuro. É o trabalho de uma artista com mais de 40 anos de carreira marcada por enormes sucessos, que quebrou recordes, venceu os principais prêmios e se destacou como a mais bem sucedida e longeva na cultura pop. Também é um trabalho que, dialogando com as ferramentas de comunicação e tudo o que oferece o mundo digital, advoga em favor do real, da materialidade circunscrita na pista de dança, do analógico, da sensibilidade, da consciência e do desejo.

Assim, temos à disposição uma experiência estética excelente, de uma artista em plena capacidade criativa e que logo nas primeiras faixas apresenta uma mensagem nítida: “As pessoas pensam que a música dance é apenas superficial”, anuncia Madonna logo no início da segunda faixa de seu excelente novo álbum, Confessions II. “Mas estão todas enganadas. A pista de dança não é apenas um lugar. É um limiar, um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem.” Assim, Madonna anuncia logo de cara que o que está por vir é muita dança, mas com muito drama, consciência, reflexão e sentimento. E nada disso é contraditório, nem hierárquico entre si.

A produção de Confessions II é conduzida integralmente por Stuart Price, parceiro histórico de Madonna, e reúne colaborações de Andrew Watt, Cirkut, Mirwais, Arca, Triangle Park, Parisi, entre outros. O artista belga Stromae participa de “My Sins Are My Savior”, enquanto “Read My Lips” traz produção de Tainy e um interlúdio vocal em espanhol assinado por Feid.

Confissões sobre a materialidade da consciência

As três primeiras faixas do disco, mixadas e com batidas progressivamente crescentes — I Feel So Free, Good For The Soul e One Step Away — funcionam como um convite à pista de dança. Vejo nelas um chamado para despertarmos de um estado marcado pela insensibilidade e pela letargia. A cada música, a cada batida e a cada frase sussurrada, Madonna nos conduz a um estado de consciência que passa, necessariamente, pelo sentir.

I Feel So Free abre o álbum como um grito de liberdade diante das tentativas de transformar Madonna em uma artista confinada à nostalgia. Good For The Soul reafirma a profundidade da dança, da música eletrônica e da própria pista. Já One Step Away funciona como um aviso, quase sarcástico, de que estamos prestes a atravessar uma experiência estética capaz de nos transformar.

Assim como todo o álbum, essas três primeiras faixas se desenvolvem em perfeita continuidade, como um set de DJ cujas transições articulam não apenas a sonoridade, mas também o próprio argumento do disco. É aqui que reside sua fundamentação mais profunda: a afirmação de uma totalidade que reúne corpo e mente, consciência e desejo, pensamento e movimento.

Madonna afirma a materialidade do corpo e do movimento como fundamento não apenas do sentir, mas da própria consciência. Essa perspectiva confronta uma tradição filosófica que, desde Platão, estabeleceu uma hierarquia entre o inteligível e o sensível, atribuindo ao corpo o lugar do irracional, do carnal e da aparência, enquanto reservava ao pensamento o domínio da verdade. Em Confessions II, essa separação perde sentido. A pista de dança deixa de ser compreendida como espaço da superficialidade para se revelar um lugar de experiência plena, onde corpo, emoção e reflexão não se opõem, mas se constituem mutuamente.

E, ao fazer isso, Madonna também tensiona o ambiente da digitalização das relações e sensações. Madonna diz de modo contundente que a experiência sensorial e intelectual que está indicando só pode ser alcançada na pista, no mundo analógico, no movimento do corpo, não por meio de telas ou idealizações.

Confissões sobre o tempo

São mais de 40 anos de carreira. E 67 anos de idade. Ao invés de se conformar ou fugir do tempo, Madonna o abraça, produzindo torções. Pisando no presente, com seu novo trabalho, Madonna mobiliza o passado olhando para o futuro. É isso que sentimos ao ouvir o álbum a partir de Bring Your Love. Essa faixa nos introduz plenamente à pista, é como se depois do aquecimento a dança começasse para valer. Essa faixa ensina a mandar um grande foda-se para o que pensam sobre nós, em uma contagiante onda hedonista, criando terreno para a dançante Danceteria, que é quando a pista efetivamente começa a ferver.

Já essa música carrega o nome da boate lado b de Nova York dos anos 1980. Uma viagem no tempo, em que Madonna visita e confessa sobre os primeiros momentos da sua carreira, como seu primeiro hit Everybody. Combinado ao filme já lançado (Confessions II – The film), essa música expressa a capacidade artística desse trabalho de reivindicar um legado, mas não para inventariar uma história ou torná-la monumento. Mas para colocá-la em movimento. Vemos referências às baladas dos anos 1980, a forma como as pessoas dançavam, os nomes de maior projeção e referências de Madonna da cena (Jean-Michel Basquiat, Keith Haring). Isso tudo sem caretice — quando Madonna confessa ter dado cocaína para convencer o DJ a tocar a sua música na pista.

Confissões sobre o espaço

Outro elemento que sobressai no álbum é a relação de Madonna com o espaço. De forma muito bem produzida e organizada, o álbum termina com uma viagem no tempo marcada em absoluto pela espacialidade. Em L.E.S. Girl Madonna dá nome a si própria no passado a partir do local onde transitava, Lower East Side, um bairro histórico na região sudeste de Manhattan, em Nova York, conhecido pela efervescência cultural. Madonna relembra a si própria como uma garota sem dinheiro, insegura quanto ao seu futuro, perdida em um mundo de sonhos e idealizações.

Ao reinscrever o Lower East Side como origem simbólica, Madonna transforma o bairro em dispositivo narrativo: vai muito além de um cenário, é uma matriz de subjetivação, onde precariedade material e excesso de imaginação coexistem como condições de possibilidade do futuro estrelato. O espaço urbano aparece, assim, menos como pano de fundo e mais como força produtiva da identidade. Madonna nos conta de uma geografia vivida que organiza o tempo da narrativa, permitindo que o passado seja relido como prenúncio e que a trajetória pessoal se converta em mito cuidadosamente editado.

Mais confissões sobre o desejo

Depois de 40 anos de carreira, Madonna ainda tem o que dizer sobre sexo, fantasias sexuais, desejos. E isso também está presente em Confessions II. A faixa School, de modo elegante, trata de dominação, da capacidade de, depois de ter vivido e falado tanto de sexo e dos seus desejos, ainda há algo para aprender “Love is in session”, além de ensinar. Assim, Madonna fala sobre confiança, sobre a dissimulação dos papeis assumidos em uma sessão de dominação e submissão.

A referência à “aula” em School localiza o erotismo numa cena pedagógica em que saber e prazer se confundem, sugerindo que o desejo também se aprende, se negocia e se performa. A dinâmica de dominação e submissão deixa de ser apenas um motivo explícito para se tornar uma gramática relacional: papéis que se alternam, se embaralham e expõem a instabilidade das posições fixas. Madonna, assim, não fala apenas de sexo, mas da encenação do desejo como campo de confiança e controle, onde a intimidade é menos transparência do que construção estratégica de si e do outro.

…na pista de dança

Além das já citadas, o álbum nos oferece músicas muito bem produzidas, que nos acompanham por referências bem trabalhadas, como Read My Lips, com uma estrutura musical que encanta, em uma parceria latina (Feid), com um violão de fundo que nos lembra imediatamente o grande sucesso de La Isla Bonita. Everything, com o dropsão, acompanhada de Love Sensation e Love Without Words, além de Bizarre com seu ar atemporal consolidam um álbum verdadeiramente dançante, com batida gostosa, refrão potente e mensagens sólidas sem deixar pesado. É mesmo para dançar, cantar e sentir a vibe.

Confessions II tem sido aclamado pela crítica como o melhor álbum de Madonna desde o Confessions On The Dance Floor, de 2005. Madonna frequentemente é chamada de rainha do pop e ser comparada consigo mesma não é apenas comum, como esperado. Ao mesmo tempo, por ser ela um destaque da pista de dança, comparar seus novos trabalhos com outros já realizados é comparar com o que há de melhor produzido na cultura pop. O melhor álbum de Madonna em 20 anos é, possivelmente, um dos melhores álbuns produzidos nos últimos anos.

COLUNISTA

lucasbrito

Lucas Brito

[Ele/dele]

Lucas Brito é doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília, onde também atua como professor voluntário. Editor assistente da revista Sociedade e Estado, transita entre a academia e a crítica cultural com uma escrita que recusa a separação entre o intelectual e o sensível. Seu interesse está nos pontos de tensão onde o corpo, o desejo e a política se encontram, seja na pista de dança, na literatura, no cinema ou nas ruas. Escreve sobre cultura pop sem tratar pop como sinônimo de superficial.
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