COLUNA

João Pedro Fontes

[ELE/DELE]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em

O Brasil foi povoado por bruxas e hereges

Muitas vezes, a história oficial tenta camuflar nossas raízes sob narrativas de heroísmo.

No entanto, ao me debruçar sobre as pesquisas de Geraldo Pieroni, especialmente em sua obra “Vadios, Ciganos, Heréticos e Bruxas”, percebi que a nossa base é muito mais complexa: fomos inventados pelo exílio. 

Quem ficou aqui não descende de santos ou navegadores; esta terra carrega o silêncio de quem foi arrancado de casa porque suas versões de si não cabiam no pensamento rígido da Metrópole.

O Brasil foi fundado como um projeto de descarte para limpar o Reino de seus elementos indesejáveis: judeus, feiticeiros, sodomitas e vadios.

Bosch, Hieronimus Van AkenPays-Bas, Musée du Louvre, Département des Peintures, RF 2218 – https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010062860 – https://collections.louvre.fr/CGU

O degredo como ferramenta de opressão 

Desde o início, essas pessoas foram instrumentalizadas pela Coroa como ferramentas de coerção sobre os povos originários.

Se os portugueses tinham dúvida sobre a hospitalidade de uma terra, faziam o degredado desembarcar primeiro: se ele sobrevivesse, a conquista avançava; se morresse, era apenas um criminoso a menos. 

Eles eram forçados a conviver e aprender bem a fala dos nativos, não por respeito à alteridade, mas para coletar informações que facilitassem o domínio, a exploração e a imposição da fé católica.

Muitos degredados, para garantir a própria sobrevivência ou perdão real, tornaram-se agentes da expansão colonial, atuando como braço da Metrópole que os havia rejeitado.

O sucesso na terra do purgatório 

O Brasil era visto como um purgatório, um lugar temporário de sofrimento onde os exilados cumpriam penas mantendo o olhar no Paraíso (Portugal).

Contudo, a imensidão da terra e a fluidez da colônia permitiram que muitos desses erros se transformassem em sucesso. 

Pieroni aponta que alguns degredados acumularam riquezas, através da exploração da terra e do trabalho, e viraram senhores de engenho ou capitães-mores.

Seus descendentes muitas vezes despiram a pele velha, forjando novas identidades de nobreza e poder que ajudaram a estruturar a elite brasileira, provando que o capital e a influência foram, desde cedo, as tecnologias de higienização social na nossa história.

Bruxas e a tecnologia da sobrevivência

No meio dessa estrutura de vigilância, as mulheres condenadas por bruxaria criavam táticas de (r)existência.

Muitas degredadas eram mulheres que buscavam manipular o afeto ou a cura em situações de desamparo, usando ervas e rituais sincréticos. 

Diante do exílio, elas usaram a imaginação como tecnologia de sobrevivência; não era o mal, mas a tentativa desesperada de ter algum controle sobre o próprio destino em um mundo que as tratava como descartáveis.

O peso do descarte no Brasil de hoje 

Esse projeto colonial de limpeza e descarte moldou a estrutura que habitamos hoje: discriminação estrutural que marginaliza populações trans, indígenas e pretas.

O estigma do degredo (de ser aquele que não pertence e que deve ser vigiado ou descartado para que a ordem se mantenha) reflete-se no ranking de violência e nas barreiras de acesso a direitos básicos. 

Fomos fundados a partir da coerção e, enquanto não reconhecermos a humanidade e a complexidade dos erros que nos pariram, continuaremos reproduzindo um sistema que prefere excluir o que não entende a acolher sua própria pluralidade.

COLUNISTA

jp

João Pedro Fontes

[ELE/DELE]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade, aprofundou-se em suas raízes e tornou-se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter, com experiência em gestão de marcas, criação de campanhas e desenvolvimento de estratégias digitais com foco em cultura e identidade.

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