Muitas vezes, a história oficial tenta camuflar nossas raízes sob narrativas de heroísmo.
No entanto, ao me debruçar sobre as pesquisas de Geraldo Pieroni, especialmente em sua obra “Vadios, Ciganos, Heréticos e Bruxas”, percebi que a nossa base é muito mais complexa: fomos inventados pelo exílio.
Quem ficou aqui não descende de santos ou navegadores; esta terra carrega o silêncio de quem foi arrancado de casa porque suas versões de si não cabiam no pensamento rígido da Metrópole.
O Brasil foi fundado como um projeto de descarte para limpar o Reino de seus elementos indesejáveis: judeus, feiticeiros, sodomitas e vadios.

O degredo como ferramenta de opressão
Desde o início, essas pessoas foram instrumentalizadas pela Coroa como ferramentas de coerção sobre os povos originários.
Se os portugueses tinham dúvida sobre a hospitalidade de uma terra, faziam o degredado desembarcar primeiro: se ele sobrevivesse, a conquista avançava; se morresse, era apenas um criminoso a menos.
Eles eram forçados a conviver e aprender bem a fala dos nativos, não por respeito à alteridade, mas para coletar informações que facilitassem o domínio, a exploração e a imposição da fé católica.
Muitos degredados, para garantir a própria sobrevivência ou perdão real, tornaram-se agentes da expansão colonial, atuando como braço da Metrópole que os havia rejeitado.
O sucesso na terra do purgatório
O Brasil era visto como um purgatório, um lugar temporário de sofrimento onde os exilados cumpriam penas mantendo o olhar no Paraíso (Portugal).
Contudo, a imensidão da terra e a fluidez da colônia permitiram que muitos desses erros se transformassem em sucesso.
Pieroni aponta que alguns degredados acumularam riquezas, através da exploração da terra e do trabalho, e viraram senhores de engenho ou capitães-mores.
Seus descendentes muitas vezes despiram a pele velha, forjando novas identidades de nobreza e poder que ajudaram a estruturar a elite brasileira, provando que o capital e a influência foram, desde cedo, as tecnologias de higienização social na nossa história.
Bruxas e a tecnologia da sobrevivência
No meio dessa estrutura de vigilância, as mulheres condenadas por bruxaria criavam táticas de (r)existência.
Muitas degredadas eram mulheres que buscavam manipular o afeto ou a cura em situações de desamparo, usando ervas e rituais sincréticos.
Diante do exílio, elas usaram a imaginação como tecnologia de sobrevivência; não era o mal, mas a tentativa desesperada de ter algum controle sobre o próprio destino em um mundo que as tratava como descartáveis.
O peso do descarte no Brasil de hoje
Esse projeto colonial de limpeza e descarte moldou a estrutura que habitamos hoje: discriminação estrutural que marginaliza populações trans, indígenas e pretas.
O estigma do degredo (de ser aquele que não pertence e que deve ser vigiado ou descartado para que a ordem se mantenha) reflete-se no ranking de violência e nas barreiras de acesso a direitos básicos.
Fomos fundados a partir da coerção e, enquanto não reconhecermos a humanidade e a complexidade dos erros que nos pariram, continuaremos reproduzindo um sistema que prefere excluir o que não entende a acolher sua própria pluralidade.