COLUNA

Verlak

[ele/dele]

Verlak é professor do PIBID/UFRN; pesquisa imagem, cibercultura e ficção como crítica à realidade.

Ruínas do capital e futuros vivos

O Solarpunk é um subgênero da ficção científica que especula sobre as possibilidades de
um futuro humano onde as crises ecológicas, a poluição e os problemas de desigualdade
foram resolvidos, culminando em um mundo totalmente sustentável, pautado em energias
renováveis e tecnologia integradas à sustentabilidade global. Você já deve ter visto imagens
de cidades futuristas com muita energia solar, árvores e vegetação, aeronaves, ruas
transitáveis e água potável, elementos recorrentes presentes nessas obras.

A origem do Solarpunk remonta de outros movimentos artísticos da ficção científica, sendo
eles o steampunk e o cyberpunk. O primeiro imagina o vapor como a principal fonte de
energia do mundo, no lugar da convencional eletricidade; já o segundo pensa um mundo
distópico onde tecnologias avançadas são muito valorizadas ao mesmo tempo em que a
vida humana se torna cada vez mais descartável.

Diferente de seus primos de ficção, o Solarpunk imagina um mundo onde a tecnologia se
integrou à natureza em vez de se destrui-la. Partindo das nossas perspectivas sobre os
atuais problemas que enfrentamos, a ficção científica nos ajuda a fabular esses futuros
possíveis. É uma visão de um futuro que incorpora o melhor do que a humanidade pode
alcançar: um mundo pós-escassez onde a humanidade se vê como parte da natureza e a
energia limpa substitui os combustíveis fósseis.

O punk da terminologia se refere à rebelião, contracultura, pós-capitalismo, descolonialismo
e entusiasmo. Trata-se de ir em uma direção diferente da tradicional, que caminha cada vez
mais para um sentido assustador.

O otimismo não é lucrativo em nosso mundo; um mundo onde os canais de informação
tentam, a todo custo, acabar com as nossas possibilidades de pensar mundos baseados na
hospitalidade, pois esses que administram o campo da cultura têm a noção de que causar
um sentimento de fúria resulta em reprodução, consumo e lucro. Pode ser por isso que o
Solarpunk não possui o seu devido engajamento como os outros subgêneros punks.

Futuros possíveis ou atualização do capitalismo?

Na tentativa de ocultar o conflito de classes, as grandes empresas se apropriam do
Solarpunk; através de publicidade e propaganda, mistificam as relações de dominação que
atravessam as nossas dinâmicas, criando uma espécie de greenwashing, um capitalismo
verde. Para analisar de forma crítica, optamos por uma abordagem materialista histórica e
dialética. Nesse estágio de capitalismo tardio, resgatamos a questão do Fetiche, um
conceito desenvolvido por Marx para criticar a forma na qual as sociedades modernas se
relacionam com as mercadorias e os produtos desenvolvidos nesse sistema.

O fetiche em Marx se refere ao apagamento do trabalhador no processo de produção: quem
produziu o smartphone que eu uso? Onde foram extraídos os recursos para confeccionar o
meu celular? Quantas pessoas foram necessárias na produção? Quais eram as condições
de trabalho? São pessoas do Sul Global? São mulheres? Pessoas queer? Essas são
algumas perguntas que podemos fazer quanto a isso. O fetiche tem a ver com essa
mistificação das relações de trabalho: as empresas vendem o produto, ocultam a relação de
exploração e saem com a maior parte do lucro.

Os painéis solares e baterias de lítio são frequentemente apresentados como mágicos e
limpos. São cristais místicos que coletam os raios do sol e os transformam em energia
renovável e limpa — a solução para a transição energética e uma alternativa aos
combustíveis fósseis. E, embora a disponibilidade de energia a partir de fontes renováveis
tenha crescido expressivamente nos últimos anos, o capital segue furando poços de
petróleo. Enquanto houver capitalismo, as fontes renováveis serão apenas uma
diversificação da indústria. Lembrando que os combustíveis fósseis movimentam os
interesses do Estado-branco-imperialista, massacrando as mulheres e financiando
discursos de violência sobre o corpo de pessoas queer.

Quando abrimos o nosso Pinterest e pesquisamos por Solarpunk, podemos ficar fascinados
com esse futuro que deu certo, mas podemos acabar caindo em um possível “Fetichismo da
Tecnologia Verde”, que acaba escondendo a base material extrativista, dando continuidade
ao projeto colonial. Para a fabricação de placas solares, é necessária a extração de
minerais pesados como cobalto e lítio — recursos materiais que estão dispostos em grande
quantidade pelo Congo e na América Latina. No processo de mineração, muitas vezes os
rios serão poluídos, territórios serão destruídos e a força de trabalho de pessoas —
geralmente nativas desses espaços — será explorada em prol da transição verde dos
países do Norte. Vale lembrar que a maioria dessas pessoas que serão subalternizadas são
racializadas: são mulheres, pessoas queer, crianças e indígenas.

Mundos Múltiplos

Resgatemos a famosa frase: “ecologia sem consciência de classe é apenas jardinagem”.
Pois, sem uma mudança nas relações de poder, a tecnologia verde irá apenas atualizar a
forma na qual será efetivada a exploração. Se vivemos em uma sociedade pautada em
estruturas de dominação como racismo, patriarcado, classes e gênero, isso irá relativizar o
extrativismo predatório; a destruição da natureza é um reflexo da dominação do ser humano
sobre o Outro.

Existem diferentes tipos de Seres e diferentes formas de Existir que não podem ser
reduzidas à dicotomia natureza/cultura, até porque a diversidade está na realidade
ontológica, não apenas na forma como interpretamos as culturas. Para isso, faço
investigações na antropologia para demonstrar como diferentes comunidades, culturas e
povos possuem outras perspectivas e entendimentos de habitar o mundo. Vejamos o
Perspectivismo Ameríndio, onde todos os seres têm a mesma cultura, mas corpos
diferentes; uma ontologia pautada na relação integral entre humano e natureza, onde a
cosmovisão indígena enxerga os não-humanos (seja a paisagem, os animais, o rio, as
árvores, os fungos e todos os personagens que fazem parte de um ecossistema) como
Agentes dotados de subjetividade e, logo, como indivíduos sociais que constituem o mundo
plural desses povos.

Enquanto na tradição ocidental temos um problema cartesiano, o “eu penso, logo existo” —
uma ansiedade do Homem Universal que, no processo de formação de sua individualidade,
se distancia do seu outro. Subjuga os animais em ferramentas de trabalho ou recurso
alimentar, extrai das paisagens a sua matéria-prima para o desenvolvimento de suas
cidades e transforma o que não é homem-branco no Outro, aproximando esse Outro da
natureza em oposição à sua noção de cultura (política, intelectualidade etc.). A Antropologia
do Ciborgue rejeita essa neurose do isolamento, sempre reafirmando que estamos imersos
em um mundo conectado em redes, de forma que as fronteiras do “eu” e do “outro” estão
sempre borradas.

A natureza sempre foi assustadora para os europeus, repleta de lésbicas que dançam
despidas à luz da lua, povos sodomitas que fazem surubas embriagados sob o efeito de
ervas demoníacas e “índios” sem alma que comem a carne de seus inimigos. A técnica da
engenharia não é suficiente para resolver os problemas climáticos, sendo necessário
acionar uma cosmopolítica que interrompa a dominação de territórios.

O que é o Antropoceno?

O termo vem do grego: anthropos (humano) + kainos (novo/recente), sendo a era em que o
ser humano domina a Terra.

O Antropoceno sucede o Holoceno, a época geológica que se caracterizou pela estabilidade
climática dos últimos cerca de 11.700 anos e que permitiu o desenvolvimento de atividades
humanas como a agricultura e as cidades. Embora não haja um consenso exato sobre seu
início, muitos cientistas associam o Antropoceno à “Grande Aceleração”: um aumento
drástico de indicadores socioeconômicos (população, consumo, energia) e do Sistema Terra
(mudanças climáticas, perda de biodiversidade) que ocorreu após a Segunda Guerra
Mundial (meados do século XX).

Os processos antrópicos (causados pelo homem) tiveram efeitos planetários; no entanto, o
“Homem” (o Humano universal) não é o único ator geológico. O termo Antropoceno tende a
reafirmar a excepcionalidade humana e ignora a profunda interconexão com bactérias,
plantas e outros agentes terraformadores. O Antropoceno culpa um “Humano” universal e
abstrato, ignorando as desigualdades e os sistemas de poder que realmente causam a
destruição: capitalismo e colonialismo. Haraway propõe termos mais críticos que focam nas
causas dos problemas e evidenciam as relações de poder: o Capitaloceno e o
Plantationoceno. Ela afirma que a destruição não é feita por “todos os humanos”, mas por
sistemas de dominação específicos. O primeiro destaca a dinâmica do capitalismo como
motor da destruição, enquanto o outro foca nas monoculturas e nas relações de violência e
exploração colonial que sustentam o capitalismo.

Alianças improváveis: o encontro de ovelhas ciborgues nas Ruínas do
Capitalismo

Vejamos esse episódio que aconteceu no Parque Solar de Talatan, na província de Qinghai,
no Planalto Tibetano. Antes de 2012, a região de Talatan era um deserto alpino árido, com
98% de taxa de desertificação, até que a empresa Huanghe Hydropower Development
instalou milhões de painéis solares. Eles não esperavam que a infraestrutura criasse um
microclima:

a) Os painéis reduziram a evaporação da água do solo em até 30%.
b) As placas diminuíram a velocidade do vento no solo, reduzindo a erosão.
c) A água usada para lavar a poeira das placas (essencial para a eficiência) escorria e
infiltrava no solo, nutrindo as sementes que antes morriam no calor.

A vegetação cresceu tão rápido que começou a fazer sombra nos painéis, diminuindo a
geração de energia, e criou um alto risco de incêndio durante a estação seca. Isso fez a
empresa contratar cortadores de grama, mas a área era tão vasta que o custo era inviável e
traria prejuízos. A solução encontrada foi reintroduzir os pastores locais e seus rebanhos na
mesma região das placas solares. No início, as placas eram muito baixas; a empresa
elevou a altura dos suportes para 1,2 metros para que as ovelhas pudessem passar por
baixo. Mais de 10 mil ovelhas foram “contratadas” como jardineiras, comendo o capim e
mantendo os painéis limpos, enquanto seu esterco fertiliza o solo, criando um ciclo
regenerativo. Os pastores tibetanos agora têm pasto seguro, além de serem contratados
para a manutenção do parque, resolvendo um grande problema de perca dos rebanhos
para a seca.

Esse ecossistema artificial criou um novo mundo onde as ovelhas tornam-se um Agente de
Manutenção Multiespécies da infraestrutura técnica, tendo um grau de importância tão
relevante quanto a de um engenheiro que projeta tecnologias para a empresa. A
antropóloga Anna Tsing argumenta que o capitalismo é inerentemente instável, deixando
ruínas por onde passa. A intervenção tecnológica criou uma nova ecologia precária que
atrapalha o progresso do capitalismo e, quando a natureza reage, a solução é uma
colaboração que Tsing chamaria de sobrevivência colaborativa, pois a eficiência do gigawatt
depende da fome da ovelha.

Chthuluceno ou Fazer parentes em um Pluriverso

Em suas críticas ao Antropoceno, Haraway propõe o Chthuluceno como uma alternativa de
futuro. Pela sua definição, o termo se refere a uma multiplicidade de teias de vida e
temporalidades onde a vida persiste e floresce — um mundo feito de emaranhamentos
complexos. Nesse mundo plural, todos os agentes importam e suas existências tecem
relações.

Quando Haraway afirma que a nossa tarefa é fazer parentes, ela se refere ao sentido mais
estranho do termo, numa perspectiva de se construir moradas relativamente seguras e
justas, expandindo o conceito de parentesco para além da consanguinidade, abraçando a
cocriação, a responsabilidade mútua e a interdependência. A bióloga Lynn Margulis
desenvolve o conceito de simpoiese (fazer-junto, cocriação) como um possível caminho,
referindo-se à produção colaborativa e coletiva da vida, onde organismos de diferentes
espécies se associam intimamente para criar novas formas de existência e evoluir. A
simpoiese vai além da autopoiese (auto-organização) ao enfatizar que nada se faz sozinho;
a vida é estruturada por redes de conexões e cooperação, não apenas por competição.

A abordagem de Mundo Múltiplo é a de reconhecer os outros Seres, os seres
mais-que-humanos, como agentes políticos e entidades vivas. Este é um mundo onde, por
exemplo, os rios e as montanhas estão para além da geologia; são muito mais que um
recurso a ser extraído da natureza e mais do que um símbolo cultural que irá servir de
cartão-postal para o enriquecimento de empresas de turismo.

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Estudante de Ciências Sociais e professor no programa PIBID de Sociologia vinculado à UFRN, tem interesses em antropologia, estudo da imagem, tecnologias, cibercultura, mídias digitais, terror e ficção científica. Mantém contato constante com o cotidiano de estudantes da rede pública, planejando e participando de experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de caráter interdisciplinar, sempre buscando superar problemas identificados no processo de aprendizagem. Em suas aulas e textos, propõe a discussão de que a literatura, as artes, os jogos e o cinema proporcionam experiências e sensações por meio da fabulação de outros mundos. Essas linguagens não apenas representam a realidade, mas também a questionam, multiplicando possibilidades e alternativas por meio do engajamento imaginário, como forma de manter a esperança e resistir aos sistemas de dominação nos quais estamos inseridos.
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