Quando revisitei Alan Watts durante o processo de escrita do Dossiê de Linguagem Neutra Inclusiva, não senti que estava entrando em um território novo. Pelo contrário. Havia ali uma familiaridade profunda, quase como algo que já vinha sendo vivido, sentido, experimentado no corpo, antes mesmo de ser organizado em palavras.
A “linguagem da natureza”, que exploro no Dossiê, é uma expressão da complexa simplicidade encontrada na harmonia natural. Nossa jornada como humanidade envolve compreender essa linguagem, que busca harmonia na equação da vida e existe desde tempos ancestrais, quando nossos antepassados observavam a natureza e percebiam a presença de um terceiro elemento para além da binariedade, integrando as duas metades, como Yin e Yang.

“Do Yin e Yang sai tudo que existe. O Yang é positivo e o Yin é negativo. Yang é identificado pelo lado sul ou ensolarado de uma montanha. Yin é o lado norte ou sombrio. Isso é algo crucial que se deve entender sobre a filosofia Yin e Yang, que é representada no símbolo de um círculo cruzado com uma curva em S, um lado preto e o outro branco. Então, são como dois peixes. Na cabeça do peixe preto está o olho branco e na cabeça do peixe branco, o olho preto. Esses dois lados são interdependentes porque o preto é contornado pelo branco e o branco é contornado pelo preto. E eles perseguem um ao outro na forma que é realmente a dupla hélice, o padrão das nebulosas espirais, e também o padrão de fazer amor entre muitos tipos de criaturas. A espiral se dobra em si mesma. O preto persegue o branco e o branco persegue o preto. Obviamente, branco e preto são diferentes, porque a diferença é conveniente. Às vezes dizemos que uma pessoa é uma péssima mentirosa e uma vigarista porque ela poderia provar que o preto era branco. Mas, estranhamente, o preto é branco em certo sentido e o branco é preto, se você passar a ver a palavra “ser” como “implicar”. Porque preto implica branco e branco implica preto. Ou positivo implica negativo e negativo implica positivo, porque você não pode ter um sem o outro. Então, para colocar isso em palavras nítidas, podemos dizer explicitamente que o preto e branco são diferentes, mas implicitamente (isto é, por implicação) são um só. Na percepção esotérica, o positivo e o negativo da vida são muito diferentes. A vida é diferente da morte e o bem é diferente do mal, mas no sentido esotérico o segredo também é que são um só. Como Deus diz através do profeta Isaías: ‘Eu sou o Senhore e não há outre. Eu formo a luz e crio as trevas. Faço a paz e crio o mal. Pertenço a todas essas coisas’. Mas essa informação não é normalmente revelada às pessoas. Então temos que começar a considerar isso seriamente. ”
Alan Watts – The Line Of Least Resistance
Nos primeiros capítulos do dossiê, quando falo das minhas investigações com plantas de poder, essa dimensão já aparece. A dissolução de fronteiras rígidas, a percepção de fluxo, a experiência de que identidade não é um ponto fixo, mas um campo em movimento. Watts entra nesse percurso não como um autor distante, mas como alguém que nomeia, com precisão e beleza, algo que já estava acontecendo.
Especialmente quando ele fala de Yin e Yang. Não como opostos em conflito, mas como forças que se definem na relação, em constante transformação. Não existe um sem o outro. Não existe forma estática. Existe movimento.
E é nesse campo que aparece a chamada Lei Inversa.
A formulação é simples e, ao mesmo tempo, desestabilizadora. Quanto mais você tenta alcançar um estado positivo, mais você reforça a sensação de que não está nele. O esforço, nesse caso, não aproxima. Ele cria distância.
Watts bebe diretamente do Zen Budismo e do Taoismo, especialmente do princípio de wu wei, o não forçar. Ele traz uma imagem que me atravessa toda vez que volto a esse tema. Tentar melhorar o próprio estado interno é como tentar acalmar água turva. Quanto mais você mexe, mais turva ela fica.
Existe algo muito sofisticado nessa observação. Porque ela revela um funcionamento do próprio desejo. Ao tentar produzir um resultado positivo, você cria a tensão que impede que esse resultado aconteça. O movimento do ego de querer chegar em algum lugar gera, ao mesmo tempo, a narrativa de que você ainda não chegou.
E isso, para mim, se conecta diretamente com linguagem.
Quando comecei a trabalhar com linguagem neutra, nunca foi só sobre estrutura gramatical. Era sobre percepção. Sobre abrir espaço para realidades que não cabiam nas categorias existentes. Sobre expandir a forma como nomeamos o mundo e, consequentemente, como experienciamos o mundo.
Mas ao longo desse processo, uma coisa foi ficando evidente. Aquilo que nasce como abertura pode, se endurecido, virar nova forma de rigidez.
E é aqui que a Lei Inversa começa a ecoar com mais força.
Existe uma linha muito fina entre expressão e esforço. Entre viver algo e tentar sustentar aquilo o tempo inteiro. Entre permitir que a identidade se revele e tentar fixá-la como um ponto de chegada.
Quanto mais a gente tenta ser algo de forma constante, mais aparece a sensação de ainda não ser.
Isso não invalida processos de afirmação, nem a importância de nomear, nem a potência política da linguagem. Mas convida para uma camada mais sutil de observação. O que está acontecendo internamente enquanto eu tento me tornar algo. Existe tensão? Existe contração? Existe uma tentativa de controle?
Watts, quando fala de Yin e Yang, está justamente apontando para uma realidade que não se sustenta em fixidez. Existe um fluxo contínuo entre forma e dissolução, entre definição e abertura, entre identidade e transformação.
A Lei Inversa, nesse sentido, não é um conceito isolado. Ela dialoga com algo muito mais antigo, presente nas Quatro Nobres Verdades do Budismo. A ideia de que o sofrimento, o dukkha, nasce do desejo e do apego. Não do desejo como movimento vital, mas do apego como tentativa de fixar a experiência.
Desejar uma realidade melhor pode, paradoxalmente, tornar a realidade presente mais difícil de sustentar.
E talvez aqui exista um deslocamento importante.
Não é sobre parar de desejar.
Não é sobre abandonar processos.
Não é sobre não se transformar.
Mas sobre perceber quando o esforço deixa de ser movimento e vira tensão.
Quando a busca deixa de ser curiosidade e vira cobrança.
Quando o “tornar-se” começa a apagar o “ser”.
Eu me vejo cada vez mais interessado nesse ponto de equilíbrio. Nesse lugar onde existe intenção, mas também escuta. Onde existe direção, mas também abertura. Onde existe linguagem, mas também silêncio.
Talvez a pergunta não seja apenas quem eu estou me tornando.
Mas quem eu sou quando eu paro de tentar tanto.
E o que aparece quando eu não estou mais tentando organizar a experiência para caber em alguma forma.
Talvez seja aí que algo mais verdadeiro começa a emergir.
Leituras recomendadas de Alan Watts:
- A Sabedoria da Insegurança (The Wisdom of Insecurity)
- O Livro: Sobre o Tabu de Saber Quem Você É (The Book: On the Taboo Against Knowing Who You Are)
- Tao: O Curso da Água (Tao: The Watercourse Way)
Podcasts recomendados:
Corvo Seco — “#70 Alan Watts – A Mente Indivisa do Agora”
Esse episódio existe no Spotify e traz citações e trechos de The Wisdom of Insecurity, de Alan Watts. É uma boa porta de entrada para o pensamento dele.
Corvo Seco — “#364 Alan Watts – O Problema da Ansiedade”
Esse episódio apresenta Alan Watts como filósofo ligado a tradições como a filosofia chinesa. De novo, não é um episódio nomeado como “Yin e Yang”, mas conversa com o mesmo campo conceitual de Tao, não-esforço e tensão do ego.
3. YouTube Music / Cisco de Deus — “Alan Watts – Uma Conversa Comigo Mesmo – DUBLADO PORTUGUÊS”
Para quem quer ouvir o pensamento dele em português, ainda que não seja um episódio nomeado diretamente como “polaridade” ou “Yin-Yang”.