COLUNA

João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

Nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em

Bia Soull e o desejo sem censura

Como Bia Soull desmantela a masculinidade frágil e reivindica a autonomia feminina no cenário musical do Brasil em seu álbum de estreia.

Ascensão de Bia Soull e ‘Pompoarismo’ 

Há cerca de um ano, entre madrugadas de scroll infinito no TikTok e a busca por novas linguagens, deparei-me com uma estética sonora que exigia atenção: uma artista, até então desconhecida, em um galpão ocupando espaço em um set pulsante de Mu540.

@mu540_

VAAAI! VAAAI! 🤘🏽🥵 @Bia Soull #boilerroomSP 💪🏽🥳🤳🏽

♬ som original – mu540_
Bia Soull e Mu540 em performance ao vivo que antecipou o lançamento do álbum Pornografia Auditiva e o viral de Pompoarismo.

Eu não sabia, mas aquela garota estava prestes a arquitetar um dos projetos mais ambiciosos do pop nacional contemporâneo. 

Bia Soull, que viralizou com ‘Pompoarismo‘ e já soma mais de 5 milhões de streamings no Spotify, consolidou sua trajetória em abril de 2026 com o lançamento de seu álbum de estreia, ‘PORNOGRAFIA AUDITIVA’.  Este debut chega como uma tecnologia de posse narrativa que analiso nesta crítica musical de ‘PORNOGRAFIA AUDITIVA’ como um manifesto de soberania feminina.

Capa de “Pornografia Auditiva”

Muito antes de consolidar sua narrativa em “PORNOGRAFIA AUDITIVA”, o fenômeno “Pompoarismo” já atuava como um prelúdio da soberania feminina que define a estética de Bia Soull. 

Ao analisarmos a letra de ‘Pompoarismo’, percebemos que ela antecipa o desmantelamento da masculinidade frágil ao descrever um parceiro que “gosta de fuder e mija sentado” enquanto a artista assume a total dominância técnica e subjetiva da cena. 

Ao narrar um controle absoluto sobre o protocolo sexual, onde o outro “já bota a camisinha” e se rende ao “macete”, Soull manifesta a potência orgástica que identifico como o núcleo de sua obra: o prazer não como um espaço de imanência ou passividade, mas como uma tecnologia de resistência feminina. 

“Pompoarismo” era um breve sinal a um exercício de poder onde Bia recusa o papel de “Outro” para protagonizar sua própria jornada de desejo e autonomia.

Bia Soull em photoshoot para Pornografia Auditiva.

‘Pornografia Auditiva’ como Tecnologia de Resistência 

Essa percepção de que a obra de Bia Soull em “PORNOGRAFIA AUDITIVA” atua como uma manifestação sonora da teoria de Wilhelm Reich é central para a análise feita nesse texto, que utiliza as reflexões do autor como base para investigar o sexo como tecnologia de si e campo de experimentação política.

Ao longo do álbum, as letras afiadas confirmam esse posicionamento ao deslocar a mulher da condição histórica de “Outro” e objeto passivo do desejo alheio para a posição de protagonista absoluta de sua narrativa e fetiches.

A jornada sonora reflete a potência orgástica de Reich, a entrega ao prazer sem as repressões morais da couraça muscular, através de vários pontos. Em faixas como “Pornografia auditiva”, Bia é categórica: 

“Sente, protagonizo meu mundo / Meus guias na frente sempre, movendo o centro de tudo”

Soberania: a recusa da imanência feminina no rap nacional 

Essa ruptura narrativa proposta por Bia Soull não começa do nada, mas insere-se em um movimento histórico de retomada de voz dentro da música urbana.

Como destacado em análise da Folha Teen, o funk e o rap sempre pautaram o sexo, mas sob uma ótica majoritariamente masculina. Bia subverte essa lógica ao afirmar que seu trabalho é, acima de tudo, sobre ‘falar sobre o que eu sinto, sobre o que eu gosto e como eu gosto‘.

Ao declarar que não aceita ser apenas o objeto da cena, ela reforça que a ‘Pornografia Auditiva’ é uma escolha consciente de protagonismo: ‘Eu decidi que eu ia falar as minhas vontades, as minhas experiências‘.

O que testemunhamos é a transição da mulher que era apenas descrita para a mulher que assume a direção da própria lírica, transformando o desejo em uma ferramenta de autoconhecimento e poder político.

Ela não apenas explora o prazer, mas dita as regras, como em Putinho piru rodado, onde afirma que o parceiro está apenas ‘jogando o meu jogo’ e que ‘por cima eu te enfeitiço, isso não é uma opção’. Nessa faixa, Soull dá voz a urgências femininas que extrapolam o lençol: o desejo de quem não tem tempo a perder com a mediocridade.

Enquanto pessoa que convive com uma condição crônica rara, a PFIC (Colestase Intra-hepática Familiar Progressiva), consigo me relacionar com essa lírica. A cronicidade impõe uma urgência de vida e uma ambição que a maioria dos parceiros homens que tive, confortáveis em suas zonas de segurança, simplesmente não consegue acompanhar.

Recentemente, precisei deixar para trás um homem de 30 anos justamente por essa desconexão; enquanto minha realidade exige movimento e construção de sentido agora, ele escolhia a estagnação.

Bia Soull canta para quem, como eu, entende que a autonomia, financeira, corporal e existencial, é a única resposta possível diante da finitude.

A artista utiliza a “depravação sonora” para confrontar a masculinidade frágil e os tabus sexuais, como em “Malandro TouchScreen” ela desloca o erotismo do funk para a cadência do R&B, criando o que chamo de R&B prostático.

Na faixa, ela assume o controle técnico do prazer do outro, insistindo que a exploração de novas zonas erógenas “não te faz viado, não sejamos imaturos”. Os corais entoando: “lambe embaixo do saco” são um achado.

A conexão com Reich atinge seu ápice em “boombap puto”, onde a entrega ao prazer é tratada como um alinhamento energético:

“Meu chakra sacral, Svadhisthana / Alinhado, vibra, eu atraio pica e xana.”

Aqui, o gozo funciona como o regulador biológico da saúde e vitalidade que Reich defendia como revolucionário.

Considerações finais

Ouvir o disco é, portanto, testemunhar a transformação da cultura sexual em uma ferramenta para desfazer estruturas de dominação

Bia Soull exige parceiros que habitem essa mesma liberdade, tratando o prazer não como um espaço de submissão, mas como um ato político. 

Ao recusar imagens fixas de feminilidade e abraçar a putaria como insígnia de autonomia financeira e corporal, a artista prova que ser dona de si exige o exercício constante da linguagem para afirmar a própria subjetividade.

No [SSEX BBOX], celebramos obras que nos lembram que transformar o modo como sentimos e desejamos é o passo fundamental para transformar as estruturas do mundo

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COLUNISTA

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João Pedro Fontes

[ele/dele ; ela/dela]

João Pedro Fontes, nascido em Marcelino Vieira/RN (Alto Oeste Potiguar), tem 23 anos e é formado em Comunicação Social: Publicidade & Propraganda. Durante a faculdade se redator publicitário, atuando hoje como Social Media e Copywriter com foco em cultura e identidade.
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