Slayyyter e John Waters: a estética do “sujo” como revolução pop contra o mundo polido e artificial.
Nos últimos anos, fãs do pop alternativo sempre se perguntam quando suas cantoras favoritas do mundo underground vão sair do “Khia Asylum”. O termo é uma atualização da geração Z para “one hit wonder” e se refere ao fato da cantora Khia só ter tido um hit em toda sua carreira, com a música “My Neck, My Back”. Algumas conseguem sua liberdade, como Pinkpantheress, Zara Larsson, Chappell Roan e Sabrina Carpenter, enquanto outras parecem continuar lá mesmo tendo suas músicas em filmes mainstream como “Bodies Bodies Bodies” e “Anora”, que é o caso da Slayyyter com a música “Daddy AF”. A própria, quando questionada sobre o termo, respondeu que “estaria na ala psiquiátrica”.
Toda essa agitação começou quando houve uma virada de carreira de uma das mais proeminentes artistas underground para o mainstream: Charli XCX. Em 2022, ela tinha tentado sucesso comercial com o álbum “Crash”, trazendo um som mais limpo que de seus outros trabalhos, mas não fez muito barulho fora da bolha. Então em 2024, ela lançou “Brat” sem nenhuma expectativa. Com uma certa volta a seu estilo sonoramente mais experimental e agressivo, ela fez grande sucesso no mundo inteiro, trazendo uma das eras pop mais grandiosas das últimas décadas através da alusão a drogas e da cultura clubber alternada com momentos vulneráveis em que questionava se sua carreira valia a pena ou se deveria desistir de tudo e construir uma família.
De forma semelhante, Slayyyter também só era conhecida dentro da bolha do “hyperpop”, nome que originou de uma playlist criada pelo produtor A.G. Cook que definia o futuro da música e acabou virando não só um subgênero do dance-pop como também uma caixinha onde muitos artistas não gostam de ser colocados.
Assim, Slayyyter lançou “Starfucker”, um álbum com produção mais genérica e oitentista, numa tentativa de se lançar ao mainstream como uma garota pop de Hollywood. Sem financiamento da gravadora Fader, insatisfeitos com o fracasso da sua era anterior “Troubled Paradise”, ela filmou os visuais da era com sua melhor amiga e um sonho. As frustrações com o álbum e sua carreira a fizeram questionar se ela deveria continuar na indústria da música.
Com o fim do contrato com a gravadora, ela decidiu fazer o último álbum da sua carreira, “Worst Girl in America”, sem intenção de agradar ninguém além dela mesma, com referências a sua adolescência na sua cidade natal, St. Louis. Indo na direção contrária de “Starfucker”, ela vendeu a ideia do álbum para sua nova gravadora Columbia Records como algo sujo, honesto e autêntico. Eles compraram a ideia e investiram nos visuais que a cada lançamento de single se tornavam mais populares.
A ascensão da Slayyyter como A Pior Garota da América parece ser um respiro de alívio em um mundo que cada vez mais pessoas se autointitulam clean girls ou trad wives e usam inteligência artificial para gerar imagens esteticamente lisas. Vez ou outra esses símbolos de contracultura acabam transbordando para fora da sua bolha, reafirmando que existe espaço para o consumo daquilo que se define como sujo.
Mas muito antes do “Brat Summer” e “Worst Girl in America”, existiu “The Filthiest Person Alive” e “The Pope of Trash”.
John Waters e Divine, diretor e sua musa, foram duas figuras transgressoras no cinema underground estadunidense. Sem eles, faltariam palavras para descrever os conceitos de trash e camp. Atuaram juntos em diversos filmes até a morte de Divine, que ocorreu logo após sua estreia em “Hairspray”, em 1988.
No filme mais icônico da dupla, “Pink Flamingos”, Divine é uma fugitiva conhecida como Pessoa Mais Imunda em Vida por seus atos grotescos, título que o casal Raymond e Connie Marble desejam tomar.


Filmado em Baltimore, cidade natal de Waters e Divine, o filme explora o subúrbio e seus personagens, assim como Slayyyter faz nos visuais em St. Louis, que a própria transforma em autodepreciação na faixa “ST. LOSER”. Longe das metrópoles, a verdade sobre o sonho americano se materializa com mais intensidade e em um símbolo importante em comum aos dois trabalhos: o trailer. Divine usava como moradia e esconderijo perfeito da polícia, visto que ela não tinha endereço fixo, assim como milhares de estadunidenses que não têm condições de arcar com casa própria, enquanto no clipe de “BEAT UP CHANEL$”, Slayyyter e seus amigos usam para usar drogas em um after.
O nome do filme “Pink Flamingos” inclusive é uma indicação do status da personagem da Divine. Enquanto viajava de carro pelos Estados Unidos para assistir a estreia de seu filme “Desperate Living” em outras cidades, John Waters viu incontáveis flamingos de decoração no gramado de famílias do interior e decidiu que seria o objeto perfeito para representar o tipo de história que ele queria contar.
Os personagens aqui são hippies, punks, travestis e skatistas que são marginalizados e não se enquadram no típico padrão de vida americano da classe trabalhadora. São pessoas que se reúnem para usar drogas e passar o tempo. Eles entendem que o american dream é uma farsa e a bandeira dos Estados Unidos é usada como ironia. Mas, ao invés de sentirem vergonha ou repulsa, Divine e Slayyyter assumem sua condição e cantam a respeito em suas músicas “I Was Born to Be Cheap” e “BROKE BITCH FREESTYLE”. Inclusive, esta conta com uma introdução gravada de uma conversa entre Slayyyter e seu amigo conterrâneo sobre o orgulho de ser “hillbilly”, termo frequentemente usado em tom pejorativo para descrever pessoas do interior.
Essa limitação financeira está diretamente ligada a forma de se fazer audiovisual, seja por meio do cinema ou videoclipes. John Waters, antes de fazer filmes com grandes produtoras de Hollywood, pedia dinheiro emprestado a seu pai e filmava com seus próprios amigos no que ele descreve como um “hit and run” porque eles não alugavam locações ou avisavam a respeito das cenas que iriam reproduzir em espaços públicos, simplesmente filmavam as cenas grotescas que muitas vezes envolviam crimes reais, como atentado ao pudor, e fugiam, o que ocasionou em diversas visitas à delegacia. Esse set de filmagem que utiliza muito do que há disponível da vida real foi muito inspirado pelos filmes underground de Andy Warhol e do Neorrealismo Italiano, que também frequentemente usavam atores amadores e transeuntes em suas cenas. Até mesmo o cocô de cachorro que Divine comeu, a galinha que morreu na cena de sexo e o trailer pegando fogo eram reais, nada era cenográfico.
Essa frequente forma “do it yourself” ainda é a forma constante de Slayyyter fazer sua arte, que ainda conta com sua melhor amiga para filmar seus vídeos – agora com financiamento da sua nova produtora – e ainda se aproveitando, por exemplo, de fogos de artifício do dia da independência dos estados unidos no quatro de julho para seus clipes, ao invés de contratar um serviço específico para tal. Inclusive, em muitas entrevistas ela se autointitula uma drag queen ou ato burlesco porque faz muitas de suas próprias roupas, maquiagem, cabelo, além de dirigir e criar o conceito visual de seus trabalhos, sem contar necessariamente com uma equipe por trás. Em seu site oficial, ela vende botas cobertas em lama ressecada que sempre estão esgotadas porque a própria faz o efeito manualmente. A sujeira aqui é interpretada num modo literal. Ela também vende cópias físicas do seu álbum em vinil com um pó amarronzado por dentro que simula poeira.
O conceito do look icônico da Divine foi criado por John Waters como uma forma de confrontar os padrões de drag da época, como é possível ver no documentário “The Queen” (1968, Frank Simon), cujo pôster aparece diversas vezes na casa dos Marble, em que as drags tinham a intenção de parecer o máximo possível como uma mulher de fato e competir em concursos de beleza. John Waters conta que as drags tinham repulsa pela aparência de Divine, o que justamente acabou fazendo com que ela se destacasse das demais, sendo considerada a primeira drag a furar a bolha para o mainstream e ser reconhecida como uma celebridade na década de 70.
A fama também é uma temática que perpassa todos os filmes de John Waters e muitas das músicas de Slayyyter, como na faixa “I’M ACTUALLY KINDA FAMOUS”. Eles sempre trabalham essa ideia de carregar consigo um título depreciativo como motivo de orgulho, de assertividade e de confiança, como algo que deveria ser premiado através de um superlativo. A Pior Garota da América, A Pessoa Mais Imunda em Vida e o Papa do Trash.
Esses títulos são reafirmados por eles em tom de gritaria e violência, quase que nos impondo a personalidade deles. John Waters diz que os longos diálogos retóricos de Pink Flamingos foram inspirados em discursos políticos tentando nos convencer de suas ideologias. Em seus shows, Slayyyter traz essa energia através de novos arranjos tocados pela sua banda e até mesmo guturais que acompanham as pesadas batidas eletrônicas, gritos e vocais distorcidos de faixas como “YES GODDD”, além de fazer questão de estilizar todas os títulos do álbum com letras maiúsculas e pontuações.
Em faixas como “CANNIBALISM!”, Slayyyter traz um pouco de suas outras referências como o surf rock que é justamente a trilha sonora que permeia “Pink Flamingos”. John Waters descreve como B-Sides de hits que você jamais iria ouvir na sua vida, que te fazem sentir sujo e animalesco, adjetivos que facilmente poderiam descrever a sensação de ouvir o “WORST GIRL IN AMERICA”.


A violência aqui é estampada principalmente na figura da arma e do sangue. Divine se delicia com a carne de pessoas e animais, além de executar seus inimigos em um julgamento inventado. Ela se coloca acima da lei. Slayyyter mata seu pai e dança sob seu sangue na pista de dança no clipe de “DANCE…”, fazendo uma metafórica justiça com aquele que a abandonou na infância em “GAS STATION”. Ela também usa arma recreativamente atirando em uma bolsa Chanel sob o pretexto de adquirir algo danificado como algo real, tangível. As duas também usam animais mortos em seus figurinos, quase que esvaziando o peso da morte através de um acessório.


Em “OLD TECHNOLOGY”, as drogas são referenciadas como um hábito. Slayyyter descreve o clipe como algo desconfortável, colocando o espectador para assistir algo que não deveria. Nos filmes de John Waters, funciona para os personagens como uma forma de escape de um sistema que não se pode combater.
Ao invés de causar aversão, essa estética punk é lida como autêntica. É dessa forma que eles conseguem vender um visual contra-hegemônico em uma escala comercial. É uma forma de ver o mundo que critica o status quo e cria identificação com um público que não se identifica com uma visão polida e falsa da realidade. Ela reflete o que muitos de nós sentimos ao ouvir essas músicas e assistir a esses filmes, refletidos no que vai contra a idealização de um mundo decadente.
Se você deseja adentrar ainda mais nesse universo, eu tenho uma lista no Letterboxd de referências cinematográficas usadas pela Slayyyter, intitulada “SCU – Slayyyter Cinematic Universe”, que você pode encontrar no link:
SCU – Slayyyter Cinematic Universe
Uma lista curada por tiagopeters no Letterboxd.
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