O despertar do corpo e a pergunta crítica
Crescemos numa sociedade que necessita de constante educação, e a necessidade é tanta que somos educados a todo momento. Desde as nossas primeiras relações sociais até quando saímos à rua, temos que perceber, por conta própria, que o certo e o errado — assim como as relações de sim e não — não são tão fáceis de serem executados na prática, pois seu entendimento parece variar de pessoa para pessoa. É nessa escola da vida que aprendemos muito cedo o ato da performance: cumprir papéis, ceder visando evitar conflitos e tratar nossas próprias vontades como engrenagens que devem permanecer girando. Esse movimento tem que continuar, mas o preço dessa mecanização é alto e é cobrado na pele. Diante disso, surge a dúvida: quando você diz não, o seu corpo inteiro diz não, ou só uma parte fala enquanto o resto fica imóvel, esperando acabar?
A forma da mecanização:
Esse congelamento, a imobilidade, é sintoma de uma profunda desconexão interna. O corpo para e o tempo continua passando; as coisas vão seguindo enquanto estamos em modo automático, num standby da mente. Assumimos um papel de objeto de utilidade do outro e nos desprendemos da figura de seres humanos desejantes, cheios de sentimentos autônomos e escolhas autênticas. Nossas vontades são reduzidas às do companheiro na ilusão de que devemos manter a performance, pois o show deve continuar — e somos parte fundamental do espetáculo. Essa inércia é o ápice da mecanização. Não é o desejo genuíno que nos leva a realizar tais ações, pois estamos condicionados pelo protocolo, fomos programados a nos adequar e a vida ensinou assim: manter essa engrenagem social das relações funcionando é mais importante do que respeitar nossos próprios limites ou, pior, impô-los.
A Burocratização do afeto:
Diante dessa automação, o prazer e o afeto são esvaziados de seus sentidos reais em nome do bom funcionamento social, e passamos a confundir o amor com o conformismo. O afeto, que antes era um campo espontâneo, assume o papel de moeda de troca. Mesmo as nossas relações mais íntimas ganham um peso burocrático, no qual abrimos mão de pedaços de nossa integridade para garantir a manutenção de uma paz aparente, pois a vida nos ensinou que amar é ceder. Mas que afeto é esse que exige que nos desfaçamos de partes de nós mesmos para existir? Quando o carinho e o toque viram protocolo, nos colocamos em gaiolas que nos impedem de viver nossos sentimentos como verdadeiramente merecemos. Ao abrir mão da espontaneidade para manter o roteiro de uma relação, perde-se também o que se busca para que ela se mantenha realmente viva: a verdade do que sentimos.
Desaprendizagem e Integração:
O desligamento desse estágio burocrático, o ato de desaprender esses padrões e romper com essa mecanização das relações, não é um processo simples, isso exige um constante esforço. Contudo, antes de darmos início à construção de relações mais honestas, devemos primeiro nos permitir tirar a máscara da performance para ouvir nossos verdadeiros desejos e anseios. Afinal, aceitar a liberdade não significa dizer “sim” para tudo, mas sentir-se seguro para dizer “não” sem que seja preciso abrir mão de partes de nós mesmos para sustentar um momento. Quando construímos essas relações, percebemos que o prazer e o afeto exigem nossa presença por inteiro, e não o nosso sacrifício, pois a verdadeira liberdade, seja na cama ou na vida, começa no momento que deixamos de ser parte de um mecanismo programado e assumimos o papel de protagonistas: aqueles que decidem suas próprias ações. Só assim, inteiros, seremos capazes de tocar o outro sem nos perder.
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