Ao excluir pessoas trans da categoria feminina olímpica, o esporte internacional reafirma que desenvolvimento e paz continuam sendo promessas seletivas.
Neste dia 6 de abril é celebrado o Dia Internacional do Esporte para o Desenvolvimento e a Paz. A data soa irônica diante do cenário atual, já que a realidade do esporte internacional aponta para o lado oposto: pessoas trans seguem sendo tratadas como ameaça a ser eliminada, e não como vidas que também podem ser transformadas pelo esporte.
Em 26 de março de 2026, o Comitê Olímpico Internacional anunciou que, para as classificatórias, os Jogos da Juventude e Los Angeles 2028, mulheres trans estão barradas de competir na categoria feminina. A elegibilidade, agora, depende de uma triagem do gene SRY. Sob o pretexto de garantir justiça, o que se consolida é mais uma política de exclusão travestida de neutralidade.
A narrativa de que corpos femininos cis sofrem desvantagem inevitável ao competir com mulheres trans é uma falácia. Os próprios dados mostram outra realidade: ainda são pouquíssimas as mulheres trans que conseguem entrar e permanecer no esporte de alto rendimento. Não estamos diante de uma invasão, mas de uma exclusão histórica. Ainda assim, o discurso institucional insiste em fabricar um inimigo. Fala-se em proteger corpos considerados frágeis sob uma ótica heterocisnormativa, quando o que se faz, na prática, é legitimar a expulsão de corpos trans do espaço esportivo.
O ideal olímpico fala em igualdade, convivência e fraternidade entre os povos. Mas essa política recente reforça aquilo que já sabemos: essa promessa nunca foi para todo mundo. Não existe desenvolvimento quando certas existências só entram no sistema sob suspeita. Não existe paz quando a permanência de algumas pessoas depende de inspeção, classificação e humilhação pública.
A decisão do COI não surgiu do nada. Ela foi celebrada por grupos como a Sex Matters, cuja diretora saudou publicamente a medida. Também não pode ser dissociada de um ambiente político sustentado por campanhas, litigâncias e redes de financiamento que vêm transformando a exclusão de pessoas trans em projeto organizado. J.K. Rowling, por exemplo, criou o J.K. Rowling Women’s Fund, voltado ao financiamento de ações e organizações alinhadas à noção de “direitos baseados no sexo”, inclusive no campo esportivo. Antes disso, já havia doado para a For Women Scotland, grupo central em outra disputa jurídica que ajudou a consolidar esse ambiente de restrição e perseguição.
Existe articulação política, existe investimento e existe um esforço contínuo para dar verniz jurídico, científico e moral a práticas que seguem produzindo estigma. Mais de 80 grupos de direitos humanos e do esporte já haviam alertado contra testes genéticos universais e contra proibições generalizadas como essa. As críticas são claras: há riscos éticos, violação de privacidade, reforço do estigma e uso instrumental da ciência como cobertura para uma agenda já decidida de antemão.
Porque, no fundo, não se trata apenas de regulamento esportivo. Trata-se de decidir quais corpos podem ser reconhecidos como legítimos e quais serão permanentemente tratados como fraude, desvio ou ameaça. Trata-se de reafirmar que, para algumas pessoas, o esporte só existe como espaço de vigilância, nunca de pertencimento.
Que desenvolvimento é possível quando o acesso é negado? Que paz existe quando corpos são testados, classificados e excluídos? Quem é autorizado a representar o ideal esportivo e quem é empurrado para fora dele em nome de uma suposta justiça que nunca se aplica de forma igual?
Hoje não há o que comemorar. Porque não há paz onde há perseguição institucional. Não há desenvolvimento onde há exclusão travestida de justiça. E não há futuro ético para o esporte enquanto pessoas trans continuarem sendo empurradas para fora dele em nome de uma ordem que nunca foi neutra.