A música eletrônica já não é apenas um território de DJs e pistas de dança. Para Katy da Voz e as Abusadas, ela também é um espaço para humor, putaria, travestilidade e experimentação estética. Depois de consolidar uma trajetória marcada pelo funk explícito, o trio paulistano mergulha de vez na club music com Sandra Eletrônica, EP lançado em junho que marca uma nova fase na carreira do grupo.
A mudança, porém, está longe de representar uma ruptura. Em conversa ao SSEX BBOX, Katy da Voz e Palladino Proibida explicam que o novo trabalho nasce justamente do amadurecimento construído desde 2021, quando o trio começou a lançar músicas de forma totalmente independente.
“Nós começamos de uma forma completamente independente. Acho que o que mais amadureceu foi a nossa comunicação, a profissionalização do nosso trabalho e a maneira como a gente constrói tudo juntas”, afirma Palladino. Para ela, mais do que abandonar características antigas, o grupo encontrou uma forma mais sólida de desenvolver aquilo que sempre esteve presente em sua identidade.
Essa continuidade aparece justamente no aspecto mais reconhecível das Abusadas: transformar memes, frases virais e referências muito específicas da cultura LGBTQIA+ em música de pista. Em Sandra Eletrônica, áudios de memes reconhecidos convivem com techno, house e club music sem qualquer constrangimento:
“Isso acontece de forma muito natural. A gente nunca força. Somos bestas mesmo, gostamos dessas palhaçadas. Do nada surge uma ideia: ‘amiga, vamos colocar isso’. É completamente aleatório”, conta Katy, aos risos.
Palladino complementa dizendo que o humor sempre fez parte da personalidade das três, antes mesmo da existência do grupo. “A gente sempre foi muito ligada ao humor desde a criação das Abusadas. Colocar essa pitada nas músicas acabou virando uma essência nossa.”
Quem é Sandra Eletrônica?
EA música eletrônica já não é apenas um território de DJs e pistas de dança. Para Katy da Voz e as Abusadas, ela também é um espaço para humor, putaria, travestilidade e experimentação estética. Depois de consolidar uma trajetória marcada pelo funk explícito, o trio paulistano mergulha de vez na club music com Sandra Eletrônica, EP lançado em junho que marca uma nova fase na carreira do grupo.
A mudança, porém, está longe de representar uma ruptura. Em conversa ao SSEX BBOX, Katy da Voz e Palladino Proibida explicam que o novo trabalho nasce justamente do amadurecimento construído desde 2021, quando o trio começou a lançar músicas de forma totalmente independente.
“Nós começamos de uma forma completamente independente. Acho que o que mais amadureceu foi a nossa comunicação, a profissionalização do nosso trabalho e a maneira como a gente constrói tudo juntas”, afirma Palladino. Para ela, mais do que abandonar características antigas, o grupo encontrou uma forma mais sólida de desenvolver aquilo que sempre esteve presente em sua identidade.
Essa continuidade aparece justamente no aspecto mais reconhecível das Abusadas: transformar memes, frases virais e referências muito específicas da cultura LGBTQIA+ em música de pista. Em Sandra Eletrônica, áudios de memes reconhecidos convivem com techno, house e club music sem qualquer constrangimento:
“Isso acontece de forma muito natural. A gente nunca força. Somos bestas mesmo, gostamos dessas palhaçadas. Do nada surge uma ideia: ‘amiga, vamos colocar isso’. É completamente aleatório”, conta Katy, aos risos.
Palladino complementa dizendo que o humor sempre fez parte da personalidade das três, antes mesmo da existência do grupo. “A gente sempre foi muito ligada ao humor desde a criação das Abusadas. Colocar essa pitada nas músicas acabou virando uma essência nossa.”
Quem é Sandra Eletrônica?
Embora o título do EP pareça apresentar uma nova personagem, Sandra nasceu quase como uma homenagem pop. Segundo Katy, a inspiração veio de Veronica Electronica, projeto de remixes idealizado por Madonna ainda nos anos 1990 e finalmente lançado décadas depois.
“Eu sou muito fã da Madonna. Quando pensei nesse nome achei genial, mas quis dar uma brasileirada. Sandra é um nome muito nosso, lembra pessoas engraçadas, gente que a gente conhece no Grajaú. Hoje virou uma personagem. As pessoas falam ‘a Sandra’ como falam de uma amiga.”
Essa apropriação espontânea acabou extrapolando o disco. Sandra deixou de ser apenas um título para se tornar um apelido coletivo entre fãs, uma figura que sintetiza o humor e a energia das pistas frequentadas pelas Abusadas.
Ouça o EP completo:
Remix como linguagem
A relação do trio com a música eletrônica também passa pelos remixes. Muito antes de Sandra Eletrônica, elas já lançavam álbuns inteiros reinterpretando o próprio catálogo ao lado de DJs e produtores da cena.
“Quando fizemos nosso primeiro álbum de remixes, já conhecíamos muitos produtores daqui de São Paulo. A gente acabou se encontrando na música eletrônica. Acho que Sandra Eletrônica é justamente a consolidação dessa relação”, diz Palladino.
Para Katy, trabalhar ao lado de produtores espalhados pelo país faz parte da própria experiência de circular pela cena underground.
“A música ‘Sandra Eletrônica’, por exemplo, veio de um DJ de Florianópolis. A gente vai conhecendo pessoas, outras culturas, criando confiança. Isso é muito importante porque são esses DJs que também levam nossas músicas para as pistas.”
Essa dinâmica também influencia a velocidade com que o grupo lança novos projetos. Em um mercado acostumado com longos intervalos entre álbuns, as Abusadas preferem ocupar constantemente o espaço.
“Eu não consigo pensar só em lançar um single. Acho desperdício. A gente gosta de criar eras diferentes, lançar bastante coisa”, explica Katy.
Segundo ela, essa estratégia também responde às dificuldades enfrentadas por artistas independentes.
“Nós não temos estrutura de gravadora, não temos verba para sustentar uma era durante dois anos. Precisamos continuar mostrando trabalho para que as pessoas não esqueçam da gente.”
Um show pensado para provocar
Se os lançamentos desafiam as convenções do pop, os shows das Abusadas fazem o mesmo com o palco.
Quem esteve no Festival MADA, em Natal, no ano passado, viu apresentações marcadas por interações diretas com o público, convites para beijar fãs, chupar peitos e uma série de performances que rapidamente repercutiram nas redes sociais.
Apesar da impressão de improviso, Katy revela que existe um planejamento cuidadoso.
“Hoje temos coreógrafa, mas desde o começo eu faço toda a direção dos shows. Tudo é muito pensado. Só que, conforme o tempo passa, algumas coisas vão surgindo naturalmente. Quando a gente vê, já está acontecendo.”
As polêmicas, entretanto, são praticamente inevitáveis, sobretudo em cidades menores.
“Já tentaram envolver a gente em várias polêmicas”, conta Palladino. “Principalmente em cidades mais conservadoras ou em universidades. Mas responder essas críticas seria compactuar com elas.”
Para ela, continuar ocupando esses espaços é a resposta mais potente.
“Nosso show é um protesto travesti. A gente vê homens héteros fazendo coisas muito piores no palco e ninguém fala nada. Quando somos nós, vira escândalo. Então a melhor resposta é continuar fazendo.”
Muito além de putaria
Embora a putaria continue sendo um dos elementos centrais da identidade artística das Abusadas, o trio afirma que não pretende limitar sua produção a esse único aspecto.
“A putaria levou a gente para muitos lugares e a gente gosta de cantar isso”, reconhece Katy. “Mas também sabemos que existem outros mercados, outras possibilidades.”
Ela lembra que o álbum anterior, A Visita, já explorava temas como religião e experimentações musicais mais amplas.
“Todo mundo sabe que Katy da Voz canta putaria e sempre vai cantar. Mas isso não impede que a gente faça outras coisas também.”
Ao invés de abandonar aquilo que construiu sua trajetória, Sandra Eletrônica amplia o repertório do grupo. A putaria continua ali, mas agora dividindo espaço com sintetizadores, remixes, humor de internet e uma visão muito particular sobre o que significa fazer música eletrônica a partir da experiência travesti brasileira.
No universo criado por Katy da Voz e as Abusadas, Sandra Eletrônica não é só um EP. É um personagem, um meme, uma pista de dança e, sobretudo, a confirmação de que o underground brasileiro continua produzindo algumas das propostas mais inventivas da música pop contemporânea.