Proteger-se demais pode parecer cuidado, mas também pode virar medo, controle e distância da vida que você ainda precisa viver.
Eu preciso de tempo, alegria, amor. Eu preciso de espaço. Eu preciso de mim. Ação.
Durante muito tempo, ocupei o lugar de espectador: aquele que observa, que recua, que permanece à margem porque nunca se sente completamente à vontade para entrar.
Sempre tive medo. E também sempre vi as pessoas errarem muito na minha frente. Erros pequenos, erros violentos, erros que atravessam a existência do outro. Cresci aprendendo a olhar tudo com cautela, como se me mover demais pudesse me colocar em risco.
Por muito tempo, achei que me proteger era isso: pensar antes, hesitar antes, recuar antes. Como se a distância pudesse me poupar da dor, do fracasso, da vergonha. Como se observar fosse uma forma suficiente de viver.
Mas existe uma hora em que a proteção deixa de cuidar e começa a limitar. Existe uma hora em que pensar demais já não é prudência, é paralisia.
Escrever sempre foi um dos poucos lugares em que consegui existir com mais verdade. Desde a escola, eu gostava de escrever. Mas naquela época eu ainda vivia em um mundo superprotegido, pequeno demais, fechado demais, onde eu ainda não tinha percebido que a vida era muito maior do que a visão estreita que eu tinha dela.
Pessoas se foram. Erros se foram. Versões minhas também se foram. Mas a pessoa que eu me tornei continua aqui: ferida, em movimento, ainda caminhando para um lugar que não sei nomear, mas que sei que existe porque continuo indo em direção a ele.
Hoje, o que entendo é simples e difícil ao mesmo tempo: não dá para viver tentando evitar todos os riscos. Não dá para se proteger tanto a ponto de nunca se encontrar.
A reflexão que deixo é essa: não se proteja demais. Às vezes, a armadura também impede o abraço, o erro, o desejo e a própria vida.