COLUNA

Moon Kenzo

[ela/dela]

Travartista sobralense. Música, Literatura e comunicação.

O mito do fast-sex: Bate um bolo e dorme fia

Dois corpos se abraçam na penumbra sob luzes neon azul e rosa, mas mantêm os olhos fixos nas telas brilhantes de seus respectivos smartphones por cima dos ombros.

Como a recusa aos encontros descartáveis de aplicativos no Brasil se tornou a nossa tecnologia de autoconhecimento mais sofisticada e urgente.

Existe uma ruptura moral quase cirúrgica no momento em que uma identidade trans ou travesti floresce no Brasil. Investigar essa realidade sob a lente do fast-sex é um dos caminhos propostos pelo [SSEX BBOX] para entender como a nossa carne é pautada pelo consumo. Enquanto as que nascem cercadas de privilégios percorrem um trajeto clínico linear e ganham, por sorte ou ironia do destino, o direito à reflexão, outras, compulsoriamente, caem no mundo e entendem cedo que, se não abrirem as pernas, provavelmente não haverá comida na mesa. Essa crueza infunde o sexo como parte fundamental do desenvolvimento da própria identidade humana. No meio disso, existem outras que, como eu, flertam com ambos os caminhos, mas intrinsecamente conseguem flutuar sem pertencer a nenhum. Nessa flutuação, torna-se instintivo traçar um paralelo geracional: troco ideias com as travestis mais novas, de 14 ou 16 anos, sonhadoras, transformadoras, geniosas e tento ouvir, com profundo respeito, as nossas traviarcas.

No final do dia, o sexo sempre está lá, seja como trabalho, sobrevivência, método de manipulação, validação ou, tragicamente, como o único assunto que algumas aprenderam a conversar. Diante disso, a dúvida ecoa: se não houvesse o estigma que antecede a modernidade sobre corpos como os nossos, o que seríamos? Qual seria nossa relação com o gozar? Quem teria acesso à nossa carne? Como descobriríamos todos os prazeres que nosso corpo pode nos proporcionar?

Fui uma criança de lar protestante e me lembro até hoje do sentimento de culpa ao perder a virgindade com meu primo mais velho. Lembro-me da ambiguidade entre o pavor do pecado e a vontade avassaladora de estar com ele, e daquele nojo pós-coito. Hoje eu sou travesti e ele é padre. Vai entender, né?

Houve um tempo em que essa relação com o desejo se dava na crueza do asfalto. Lembro de uma colega que conheci nas esquinas da vida, ela dizia, enquanto fumava seu cigarro, que sua kiumba era macho. Enquanto eu desconfiava até de um assobio noturno, ela operava milagres: fazia aquele mesmo assobio virar uma mamada rápida em algum pé de muro. Travestis sempre foram, afinal, magistas da realização.

No entanto, com a chegada da hipermodernidade e o avanço predatório do neoliberalismo, os assobios de esquina, os flertes de festa e os xavecos de praça foram domesticados. Viraram, por ora, taps e likes em telas frias. É contraproducente analisar esse lugar sem mencionar o que o espaço online se tornou: um grande jogo imagético de perfeição. Entre rostos harmonizados com ácido hialurônico e canetas emagrecedoras, ainda estamos nós, no meio de toda essa bagunça, com algumes de nós, inclusive, colaborando com ela.

De certa forma, o mercado do afeto virtual opera em ritmo de abatedouro: chega, fode, goza e vai embora. É um circuito autocentrado, gelado, onde quanto mais distante emocionalmente, melhor. Nos sistemas de encontro, a tentativa de reduzir a existência não cisgênera a um fetiche de consumo rápido, uma gozada ligeira, sem nem saber o nome ou o telefone, virou só mais uma terça-feira fraca no sofá de casa. Eu já consigo ouvir a resposta: “Mas Moon, às vezes a gente só quer gozar mesmo!”. E eu sou absolutamente a favor do seu gozo, desde que ele zele pela sua segurança e pela sua integridade. Mas sejamos honestas: quantas vezes, no rastro de uma foda péssima, você não se pegou pensando que nunca deveria ter saído de casa às três da manhã? Que cruzar a cidade para se entregar a um desconhecido foi um erro, e que o melhor plano do mundo teria sido bater um bom bolo e ir dormir?

A hipocrisia é perfeita: o mesmo corpo hipersexualizado que alimenta o lucro e o tráfego da plataforma, no mesmo país que mais consome pornografia trans e que mais mata pessoas trans, é banido na manhã seguinte sob a desculpa de uma diretriz asséptica que só se aplica a ele, devido a uma interpretação unilateral de gênero.

Para transcender e desmistificar essa dinâmica, o pensamento de Wilhelm Reich cai como uma luva. Reich nos ensina que a repressão social não flutua no ar, ela se cristaliza na carne através da couraça muscular, uma armadura de tensões crônicas que o corpo constrói para conter seus traumas e desejos não ditos. Quando o homem cisnormativo aciona um aplicativo na boca da noite, ou pega o carro na calada da madrugada, depois que a esposa e os filhos dormiram, buscando o corpo travesti para uma fastfoda, ele não está buscando a expansão da potência orgástica como regulador de sua saúde vital. Ele busca um escoadouro. O que ele quer é uma descarga mecânica rápida, um espasmo higiênico capaz de aliviar temporariamente a ansiedade de sua própria armadura neurótica, sem que ele precise, de fato, se desarmar ou nos enxergar.

Diante desse balcão de negócios e neuroses alheias, a seletividade política surge não como um recolhimento amargurado ou um sintoma de solidão, até porque a solidão alimentada pelo abandono parental, pelo subemprego e pela prostituição compulsória sempre esteve lá, mas como uma tecnologia de si indispensável. Recusar o sexo casual e rápido, aqui, é um ato de legítima defesa, uma blindagem da própria dignidade contra a pressa de quem não tem nada a oferecer além de vazio ou do risco de uma IST.

Recusar esses Ifodes da vida não é um isolamento puritano, é uma insurreição estética. Guardadas as devidas proporções de quem opera no contexto do trabalho sexual, se a sua intuição avisa que aquele bofe ou aquela gata não tem nada a entregar, a emancipação é simples: bate um bolo e vai dormir. Essa recusa é o manifesto que impede que a nossa carne seja usada como lubrificante mecânico para manter intacta a couraça de quem nos consome no escuro e nos persegue e mata à luz do dia. Retomar a soberania sobre o tempo e sobre a qualidade do próprio prazer é a nossa maior sofisticação. Aprender a dizer não, talvez, seja ótimo.

Referências

Dossiê ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais)  – https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2026/01/dossie-antra-2026.pdf 

GAIARSA, José Ângelo. Couraça muscular do caráter: Wilhelm Reich. 1. ed. São Paulo: Ágora, 1984. (Link externo para consulta: https://www.google.com.br/books/edition/Coura%C3%A7a_muscular_do_car%C3%A1ter_Wilhelm_Re/26adDwAAQBAJ?hl=pt-BR&gbpv=1&dq=coura%C3%A7%C3%A3%20muscular%20do%20carater&pg=PP1&printsec=frontcover ) 

ILLOUZ, Eva. El fin del amor: Una sociología de las relaciones negativas. Buenos Aires: Katz Editores, 2020. (Link externo para consulta: https://www.google.com.br/books/edition/El_fin_del_amor/cMcJEQAAQBAJ?hl=pt-BR&gbpv=1&pg=PA1&printsec=frontcover 

COLUNISTA

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Moon Kenzo

[ela/dela]

Moon Kenzo é uma artista multimídia sobralense: cantora, compositora, atriz e escritora. Graduanda em Letras-Inglês pela UVA, Moon transita entre a música, a literatura e o palco como extensões de um mesmo corpo trans, preto e gordo. Sua trajetória é movida pela recusa em aceitar as fronteiras que tentam impor à sua arte, fundindo R&B, Soul e Synthwave para narrar as fissuras da existência. Com presença em antologias como Embaixo do Cajueiro e Cerol e Navalha (2024), e prestes a lançar seu manuscrito Ávida (2026), Moon enxerga na escrita um exercício de sobrevivência. Ela não busca a neutralidade, busca o corte, sua voz é a ferramenta com a qual reescreve a própria história, devolvendo ao mundo a visceralidade que tentaram lhe negar. Para Moon, a arte é o lugar onde o confronto vira criação: “Se a língua é uma arma, a minha é submetralhadora carregada com infinitos pentes.
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