Por que buscamos o amor romântico? Será mesmo que buscamos essa vertente do amor para amplificar nossas almas, nossos desejos e qualidades ou apenas para de alguma forma, tentar curar as feridas da mente, para preencher nossos vazios ou – o pior – para fugir daquilo que nasce e morre conosco e é o âmago da alma e da vida de cada ser humano neste planeta, a solidão.
Durante o primeiro episódio da quarta temporada da série Sex and the City, a protagonista da série Carrie Bradshaw, está fazendo aniversário e ela e suas amigas marcam um jantar de comemoração em um restaurante, mas devido a uma obra em uma das avenidas principais da cidade, todas se atrasam e Carrie é a única no estabelecimento. Sozinha, Carrie é atravessada por sua solidão, mas parece abominar a sensação de estar só em um ambiente no qual todas as pessoas ao redor estão acompanhadas por alguém. Ao fim do episódio, a protagonista e suas amigas estão juntas, em outro estabelecimento e Carrie diz que se sentiu muito triste naquele momento, sozinha, por não ter um homem que se preocupe com ela, por não ter alguém especial para deseja-lá “feliz aniversário” e por fim, por não ter uma alma gêmea.
O fato é que Carrie Bradshaw, é uma personagem que busca em seus relacionamentos amorosos, silenciar sua solidão e curar suas feridas na companhia do outro. Buscando desesperadamente novos parceiros amorosos capazes de silenciar a voz de sua solidão ou – como muitas vezes ocorreu durante a série, Carrie buscou por um amor que já conhecia e sabia que não importava quantas vezes retornasse. O Sr. Big, seu parceiro romântico que, durante grande parte da trama, mostrou não ser a melhor pessoa para se relacionar, sempre supriria seu desejo de inibir sua solidão. Apesar de Carrie flertar constantemente com o medo da solidão e, por muitas vezes, tentar expulsar de si esse sentimento em vez de acolhê-lo, é nesse conflito que mora a humanidade da personagem. Sua incapacidade de conviver plenamente com esse sentimento a aproxima de tantas outras realidades e experiências humanas. A falha, o medo e aquilo que buscamos esconder no canto mais obscuro de nossa mente, é o que nos faz humanos.
Não é raro – na verdade, tão comum quanto se imagina – entrarmos em um relacionamento buscando não estarmos mais sozinhos, buscando ter alguém disponível para conversar vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana e trinta dias no mês. Evitando assim, ficarmos cara a cara consigo. O bom é que essa busca só pode ser suprida em nossa mente, na fase do apaixonamento. A fase do apaixonamento é a fase de maior idealização do outro, onde pensamos que o outro é “o ser perfeito” no qual sempre estivemos à procura, mas essa fantasia tem curta duração, visto que a imagem real do ser amado entra em conflito com as nossas idealizações. Em algum momento, nossas fantasias caem por terra, e é nesse momento que somos atravessados pelo ser amado sem nossas lentes de idealização. É como andar de bicicleta em um dia lindo e ensolarado e bater em cheio em uma parede de concreto, essa é a sensação da máscara que criamos para o outro cair.
Acreditamos que no amor romântico, nos faltará solidão, mas o espanto se dá quando em certo ponto desse amor, você encontra sua solidão duplicada, a sua e a do outro. No livro A gente mira no Amor e acerta na Solidão, a psicanalista Ana Suy, nos mostra o quanto esses dois sentimentos estão diretamente ligados um ao outro e em um dos capítulos do livro, diz sobre como nossos sentimentos são duplicados ao entrar em um relacionamento e, não silenciados, assim como pensamos. Imaginamos que, ao amar, preencheremos nosso vazio e que o amor virá como uma parte que nos completa. Mas, na verdade, quando amamos, é como se a falta se multiplicasse. Ao encontrar alguém, não deixamos de sentir falta, na verdade, passamos a sentir uma falta que se expande, uma metade que só cresce a partir daquele momento. O fato é, somos enganados por nós mesmos ao acharmos que com um amor, estaremos livres da solidão. No fim, ela sempre estará lá, às vezes, multiplicada. Nascemos do amor e da solidão, morreremos com a solidão e o amor. Além disso, recusar nossa solidão é desfazer a encruzilhada de nossas vidas, é sentir medo de si, e acima de tudo, sentir medo das próprias sombras.
Segundo Carl Gustav Jung, todo ser humano possuí uma sombra e essa parte do nosso inconsciente está ligada aos nossos desejos e impulsos reprimidos, pela razão de não se encaixarem com nossa imagem consciente. Grande parte de nossa solidão está contida nesse lugar do nosso inconsciente, sendo amarrada para que não possa ser solta e para nos afastar desta parte da alma. Para Jung, integrar essa sombra a si, é aceitar as falhas e tornar-se mais potente com ela. Olhar para dentro, acolher a falta, a solidão e quaisquer sentimentos negativos escondidos nesse lugar da mente é escolher a si, em completude e se responsabilizar por isso.
Retomando o primeiro episódio da quarta temporada de Sex and the City, após Carrie dizer que se sente triste por não ter uma alma gêmea, sua amiga, Charlotte York, diz que talvez, as quatro amigas sejam a alma gêmea uma da outra. Queremos deixar nossa solidão de lado entrando nos relacionamentos amorosos, esperando que o amor do outro nos salve de nossa solidão, mas esquecemos que há um amor no qual mantemos – inconscientemente, nossa solidão junto de nós e ainda compartilhamos com o outro, o amor amizade. Pense, quantas vezes você já se pegou ao lado de algum amigo, em silêncio. Você fazendo suas coisas – ou até fazendo nada, e seu amigo, amiga ou amigue fazendo as dele. Ambos próximos um ao outro, o nome disso? Solidão. Cada um com a sua. Nesse momento, sem perceber, nos unimos à nossa sombra, de forma natural, sem dor ou angústia.
Por fim, temos mania de centralizar em nossas vidas o amor romântico, não por nossa culpa, mas pela idéia que nos é imposta desde a infância de que em algum momento de nossas vidas, acharemos a metade da nossa laranja ou o ser que nos completa. Na verdade, existem outros amores capazes de serem benéficos para nossa vida. Amores que passam longe da idéia de nos completar, ser a metade da nossa laranja ou suprir nossa solidão, mas o amor que nos alinha com o que somos profundamente, amor que nos dá a mão para caminhar pelo vale das nossas sombras. Esse amor vem de quem nos acompanha nos momentos felizes, tristes e mesmo nos tristes, não nos abandona. O amor amizade. Quem seríamos sem os nossos amigos? Quem seríamos sem aqueles que acolhem nossos medos e nossas faltas. Não existe vida sem amor, não existe vida sem amor de amigo.
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